Logo na minha frente estava o caminho que eu nunca deveria seguir. Uma placa antiga, com as letras esmaecidas e a madeira se desfazendo dava as más-vindas a quem se arriscasse a aventurar pela Trilha dos Desenganados:

TRILHA DOS DESENGANADOS

☠ PERIGO! Trilha perigosa. ☠
Usuários estão por sua conta e risco.
Sem cobertura de serviços de emergência

Era um aviso bem direto que já estava ali há muito tempo. Até quem não soubesse ler entenderia as caveiras óbvias. Como dizem por aí, se há uma placa há toda uma história por trás. Esta não era diferente, embora eu não soubesse o caso específico que provocou o surgimento dessa placa. Diversas pessoas que foram vistas adentrando a mata por essa trilha nunca mais apareceram. Principalmente turistas, atraídos pela beleza da cerejeira e querendo vê-la mais de perto, ignoravam o aviso e nunca mais ressurgiram. Todos nós sabíamos muito bem nos manter longe tanto da trilha quanto da cerejeira. Mas sempre tinha algum idiota para quebrar a regra.

Um tronco grosso e morto estava atravessado logo atrás da placa. O mato tinha tomado conta dos seus arredores fazendo com que as marcas da trilha também desaparecesse. Ou seja, além do aviso, quem se aventurasse teria que encontrar o caminho original da trilha entre as árvores.

Passando ali em frente todo dia, já tinha lido aquela placa centenas de vezes. Porém, naquele dia de setembro, senti algo diferente. Um vazio no meu estômago, uma sensação de estar caindo em gravidade zero. Estava diante dela, os olhos fisgados pelas imperfeições da madeira, a tinta já desgastada. Tinha algo diferente? Uma letra torta, uma pichação nova, uma parte mais apodrecida? Não, não era isso. Era…

Paralisei. Fiquei branca, a garganta trancada. Uma mancha atrás da placa mexeu dentro do matagal, uma mancha cinza, em movimento. Ouvi o farfalhar das plantas e ainda pude enxergar o mato balançar como um pêndulo. Meus olhos escanearam as sombras das árvores, procurando a origem do movimento. Era um animal? Diziam que antigamente raposas habitavam o vilarejo, mas eu nunca vi nada nem soube de ninguém que tenha visto. Uma pomba ou outro pássaro assustado com minha presença? O sol que até então brilhava foi coberto por uma nuvem, escurecendo ainda mais o interior da floresta.

Ah. Vontade de correr. O coração palpitando. Meus pés não se mexiam, eles tinham se afundado na terra. Pés de chumbo. Uma mão, apenas uma mão, surgiu detrás dos arbustos, detrás das árvores e acenou. A mão balançava no ar, me cumprimentando. Uma manga branca cobria o braço. Porém, o restante do corpo parecia estar escondido atrás de um tronco. Então, o aceno parou. O braço desapareceu junto com quem estivesse ali na imensidão verde. Meus olhos continuaram fixados onde a coisa estava, esperando que ela ressurgisse. Juro que ainda tinha conseguido ouvir os passos ficarem cada vez mais distantes. A floresta, a floresta me sugava para dentro, a floresta me encobria por todos os lados e tudo ficava escuro e cada vez mais silencioso e cada vez mais opressivo e…

— Manu?

Saltei de susto e soltei um grito quando Mariana tocou meu ombro. Girei para ela e pude ver os seus olhos arregalados e confusos. As veias nas minha têmporas estavam saltando.

— Manu, o que aconteceu?

Eu não consegui responder. Tentava falar mas me faltava ar, meu corpo estava gelado por dentro. Minha amiga agarrou meu rosto e deu uma leve chacoalhada, para que eu despertasse. Suas mãos estavam mornas e aconchegantes.

— Mari, eu…

Quando finalmente as palavras saíram, eu quase caí no chão e fiquei de joelhos. A descarga de adrenalina tinha sido intensa.

— eu… vi algo.

Minha voz estava fraca.

— Meu Deus, não brinca com uma coisa dessas.

— Não, Mari, não. Eu senti uma emoção forte, eu senti um vazio dentro de mim. Não sei o que aconteceu.

— Manuela, o que tá dizendo? O que você viu?

Mari ofereceu sua mão para que eu levantasse e aceitei o convite. Segurei-a por um longo momento, me trazendo uma confortável sensação de segurança. Sua palma estava macia e morna, diferente das minhas palmas geladas. Com sua ajuda, me pus de pé, perplexa. Que merda tinha acontecido?

— Tinha uma pessoa ali dentro da mata, eu juro que tinha. Eu vi ela acenar para mim, e depois ela sumiu — contei, apontando para o local exato onde a coisa tinha acenado.

— Por favor, não brinca, sabe que eu tenho pavor dessas coisas.

— Não tô. O problema é o que eu senti, era uma sensação de desespero, uma tristeza intensa. Eu não sei, Mari, eu acho que tô ficando louca.

— É a Trilha dos Desenganados. Será que você viu não foi…

Não precisei deixar ela terminar porque eu já sabia o Mari iria dizer.

— Não, larga de bobagem. Agora que estou um pouco mais calma, eu acho, deve ter sido alguém… o Pedro, ele que gosta de ficar zoando a gente.

— Você tem certeza?

— Certeza, certeza… não tenho. Mas se pensar com um pouco de razão…

Aos poucos minha respiração ficava mais controlada, meu corpo descongelava. Não havia motivos para acreditar que fosse qualquer outra coisa além de algum colega pregando uma peça. Ainda que fosse na Trilha dos Desenganados. Comecei a desconfiar que fosse o Pedro, era sempre ele.

— Então vamos interrogar o Pedro até ele cuspir tudo. Se for ele, ele vai se ver… — Mari falou, como se lesse minha mente. — De qualquer forma, vamos sair daqui. Estou ficando com medo.

Concordei e comecei a caminhar, os passos ainda um tanto desorientados pela experiência que tinha passado. Uma experiência desconfortável que queria esquecer.

***

Colégio Freira Chiaki Almeida. Em homenagem a uma freira nascida no vilarejo há cem anos atrás ou algo assim. Não sabia direito da história. Entramos no terreno da escola, passando por um portão aberto. O prédio não era lá muito bonito, um prédio retangular parecendo uma caixa de sapatos de cimento e um ginásio ao lado com seu telhado curvo. As paredes revelavam a ação do tempo, com tinta descascando e limpeza por fazer. As janelas também não estavam muito limpas, quase borradas de tanta poeira. Um emaranhado de fios elétricos estava embolado em um dos cantos do prédio, soando alarmes de perigo de curto-circuito.

Atravessamos o estacionamento de terra, onde tinha poucos carros. Na entrada principal da escola uma mistura de vozes de estudantes rindo e conversando vinha do primeiro andar. Quando coloquei o primeiro pé na escadaria, uma voz masculina veio em nossa direção.

— Estão atrasadas — Professor Peixoto disse apontando o relógio de pulso.

— Estamos? Que isso, foram só cinco minutos, é quase nada — Mari tentou argumentar.

— Oito — checou os minutos do relógio digital. — Vão, subam logo.

— Oops, desculpa — eu disse por nós duas e subimos as escadarias.

— Ah, Manuela — ele me interrompeu na escada —, depois passa na sala dos professores, quero falar com você.

Fiquei retraída, já esperando algum esporro pelo atraso. Apesar disso, o professor de educação física Carlos Peixoto era uma boa pessoa. Ele tinha um porte musculoso, naturalmente, o cabelo sempre com gel para manter um topete. Por outro lado, ele não era muito alto, uns dez centímetros maior que eu, apenas. Peixoto era jovem, acho que com menos de trinta anos, e de todos os professores era o mais querido por todos. Ele tinha um dom especial para conversar com nós, escutar nossos problemas, dar conselhos, ser a principal ponte entre os estudantes e a diretoria da escola. Até contávamos para ele problemas pessoais, que ele sempre ouvia com muita paciência. Se sua carreira com educação física desse errado, ele poderia muito bem abrir um consultório psicológico. Peixoto ainda se desdobrava como o enfermeiro não-oficial da escola, já que fazia anos que não tínhamos alguém dedicado a isso. Infelizmente, seu jeito atencioso com nós provocava uma certa inveja dos demais professores, que muitas vezes adoravam ignorar nossas reclamações. Me perguntava porquê ele trabalhava naquele vilarejo tão pequeno, poderia ganhar muito mais em uma cidade maior e aproveitar as conveniências da vida da cidade grande.

Deslizamos a porta de uma das duas salas de aula funcionais do colégio, sendo alvos dos olhares dos demais alunos, porque estávamos atrasadas. A professora Julieta estava com o giz na mão resolvendo uma conta e fez expressão de reprovação. Sentamos nas nossas carteiras, em silêncio, e a professora continuou a escrever na lousa.

Pedro, na carteira ao lado, se virou discretamente e sorriu com satisfação. Era também do terceiro ano, um garoto de cabelos castanhos lisos, corpo magro, vestindo o uniforme com folga. Estava sentado relaxado, como sempre fazia, fazendo desenhos aleatórios em seu caderno. Olhei de volta cerrando os dentes, convencida de que tinha achado o culpado pelo incidente na trilha. Era um palhaço. Conhecendo Mariana, ela ia dar um troco nele bem merecido. A professora interrompeu nossa briga silenciosa.

— Manuela.

— Sim?

— A matéria de hoje será responsabilidade sua para a oitava série — me disse, apontando com o giz.

— Certo.

— Presta atenção caso não lembre direito.

— Vou prestar.

Abri o caderno. Julieta estava ensinando para a turma da oitava série funções de segundo e terceiro grau. Os três alunos estavam sentados na segunda fileira, fazendo anotações. A voz da professora era um tanto rouca, ela devia ter uns quarenta e cinco anos e provavelmente fumava. Lembrava um pouco a aspereza do Morimoto.

O Colégio Freira Chiaki Almeida não era convencional. Devido a pouca quantidade de estudantes e poucos professores as salas continham classes misturadas: a nossa agrupava alunos da sétima série ao terceiro colegial. A outra sala continha as classes restantes, com o aluno mais novo tendo nove anos de idade. No total, éramos vinte estudantes, com quatro professores. Na minha sala tinha onze. Para auxiliar o trabalho dos professores, os mais velhos eram obrigados a serem tutores, repassando o conteúdo e ajudando nas lições dos alunos mais novos. Basicamente trabalhar de graça. Embora eu não fosse especialmente ruim nas matérias, era algo que odiava fazer. O que me consolava era saber que ao tentar ensinar me ajudava a estudar para o vestibular, caso fosse fazer. Mariana também não gostava nada de tutorar e sua personalidade combativa não colaborava, pois apesar de eu odiar, ela ficava visivelmente impaciente. Foi repreendida diversas vezes por deixar escapulir palavrões na hora da tutoria e apesar de ser bem inteligente, explicar para os outros não era seu forte. Na terceira série só tinha Mariana, Pedro e eu.

Porém, tinha duas meninas específicas que nos dava nos nervos: Amanda e Saya, as duas únicas alunas do primeiro colegial. Andavam sempre juntas, cochichavam entre si o tempo todo, dava risadinhas maliciosas. Era como se fosse Mari e eu, só que más, e talvez por causa disso existia um clima de rivalidade. Com certeza, não era da nossa parte.

— A Manuela tá com olheiras enormes, não acha amiga? — Saya provocou.

— Tá mesmo, parece uma caveira — Amanda respondeu com uma risadinha.

Cochichavam tão alto que nem precisavam de megafone. Pior, era claramente proposital. A professora olhou para trás e observou as duas, mas elas se calaram então Julieta continuou a escrever na lousa. As duas sentavam na fileira à nossa frente, acompanhadas de um menino do segundo ano. Na maioria das vezes, ignorávamos esse tipo de comentários porque criava intrigas desnecessárias e não valia o nosso tempo se meter com esse tipo de gente. Nunca entendi por que gostavam tanto de nos cutucar, talvez fosse falta de atenção que não tinham em casa. Por causa das atividade de tutoria, de vez em quando eu tinha que lidar com elas e me segurar um pouco. Já Mariana bufava, tentando manter o autocontrole porque sabia que eventualmente sua mão acertaria a cara de alguma delas. As duas tinham olhos e ouvidos afiados, prontos para captar informação e espalhar fofoca. Havia uma chance que fossem espiãs enviadas do Kisaragi, até mesmo as futuras herdeiras quando Morimoto batesse as botas.

Fechando a nossa sala, os dois alunos do segundo colegial eram Leopoldo e Joana. Na oitava série, Hiro e Nina. E na sétima, Ayano.

Quando o sinal do recreio da manhã bateu, me levantei e aproximei de Pedro. Mariana veio junto comigo. Ele iria ouvir.

— Bem engraçadinho, você — eu disse.

Ele desviou o olhar do caderno de desenhos que sempre carregava e me fitou.

— Tá falando do quê? Já chega assim na grosseria?

— Você quem começou. Bu!

Girou o dedo perto da orelha me chamando de louca e continuou com o lápis fazendo traços no caderno. Apesar de tudo, ele era um pequeno gênio das ilustrações.

— Acha que é legal traumatizar minha amiga assim — Mari se aproximou, imponente. Até eu tremi ao escutar sua voz.

Pedro largou o caderno e o lápis em cima da mesma e apoiou as palmas na carteira.

— Olha, do que vocês tão falando?

— Vai se fazer de tonto? — Mari reagiu.

— De me assustar naquela trilha, que nem o Gasparzinho? — eu respondi, por cima de Mari.

— Quê? Não estou entendendo nada, que trilha que tão falando? Nem vi vocês hoje e já chegam reclamando.

Ele respondia sério, sem titubear. Se estivesse mentindo, estava sendo um ótimo ator.

— O que é isso aqui, hein? — Mari levantou a mochila dele que estava ao lado da carteira. Ela apontava a parte inferior do tecido cheia de carrapichos.

— Ué, eu moro na roça, o que mais tem é essas porcarias que grudam em tudo.

Franzi a testa, desconfiada. Mas Mari tinha um faro bem apurado e a observações dos carrapichos foi bem pertinente.

— Você veio de camisa branca hoje — eu falei de forma acusatória.

— Quase sempre estou de branco, por acaso não sabe o calor que faz lá fora? — seus olhos se afiaram na minha direção.

— As duas coisas me parece boas evidências — respondi.

— Você é o quê, Sherlock Holmes? Larga isso que é meu e me deixa em paz. Acordaram de TPM e tão procurando alguém pra descontar?

Mari devolveu a mochila ainda inconformada. Ela estava tentando me defender mas desta vez eu realmente não precisava, não era como Pedro quisesse realmente me causar pânico, era só uma brincadeira estúpida.

— Você não engana a gente, não mesmo — Mariana encerrou o assunto, inflamada. A professora Fernanda tinha acabado de entrar na sala e preparava o material em cima da mesa. Ela não precisava ouvir nossas discussões.

***

Depois do sinal do final do dia ter tocado, estava quase saindo do prédio com Mari ao meu lado quando parei bem na entrada. No estacionamento, a diretora Satiko saía de um carro preto acompanhado por mais dois homens usando roupas sociais, mas sem terno. O primeiro era o motorista e foi em direção à porta traseira, abrindo para Satiko como um cavalheiro. O segundo saiu do lado do passageiro da frente. A diretora conversou alguma coisa com os dois, que ficaram perto do carro, e em seguida ela veio na nossa direção. Seu rosto velho inexpressivo mirou direto para mim, o que me deixou surpresa mas que me fez lembrar de uma coisa importante.

— Mari, vai na frente? Tenho que falar com o Peixoto, lembra?

— É mesmo. Vai lá que te espero então aqui fora.

Assenti com a cabeça e girei em direção a sala dos professores. A sala ficava no térreo, então com poucos passos já estava na entrada, espiando entre a porta aberta.

— Professor?

Ele levantou a cabeça por cima de um divisor de mesa de escritório. Não tinha mais ninguém na sala, cujas paredes eram decoradas com cartazes e avisos, livros e papéis se organizavam em cima de mesas de escritório beges e uma janela corria quase de parede a parede, apontada para o estacionamento.

— Manuela, vem cá.

Aproximei do seu cubículo. Ele pegou um folheto.

— Está sabendo sobre o festival?

Levantei uma sobrancelha.

— Que festival? — perguntei antes de receber o folheto. Era na verdade um cartaz convidando as pessoas para o Festival da Lua.

— O Festival da Lua — ele apontou para o título no papel. — Não conhece?

— Não conheço.

Analisei o cartaz. Tinha o fundo azulado, de plano de fundo fogos de artifícios estouravam em cores, havia uma breve lista de atividades e barracas, uma atração surpresa no palco principal. Incentivava as pessoas a virem com trajes tradicionais. “Depois de 23 anos, o maior evento da Vila dos Açoitados está de volta!”.

— Dia dois de dezembro. É um festival antigo aqui do vilarejo, eles faziam todos os anos até a tragédia de 77. Por algum motivo, resolveram voltar com a festa, talvez tivesse a ver com o novo milênio, dar uma revitalizada na vila. Estão preparando até mesmo uma dança para apresentar e vai ter um show de fogos de artifício no final. Parece interessante.

— Então nem você sabe direito como vai ser? — questionei.

— Você me pegou… Mas sendo o primeiro depois de muitos anos, acredito que as pessoas daqui vão fazer seu melhor. Vai ser bom pro vilarejo, trazer turistas, fazer uma grana. Estou como organizador do evento, porque depois que me mudei para cá tem horas que acho que o tédio vai me matar.

Peixoto falava com um certo entusiasmo. Não sabia que ele gostava de colaborar com este tipo de coisa. Então ele fixou em mim e fez uma cara séria, deixando o silêncio dizer.

— Então você quer que eu participe também? — deduzi.

— Só se você quiser. Estava pensando, você, Pedro e Mariana estão no último ano, né? Logo o colégio vai acabar e como você mesma disse outra vez, você, Mari, querem sair daqui. Acho importante que jovens da idade de vocês formem boas lembranças e tenham experiência com organizar esse tipo de evento. Podem montar uma barraca, vender doce, comida, algum tipo de jogo. Algo que seja divertido e memorável. Porque depois vai cada um cuidar da sua vida e perder contato… — ele repuxou o lábio e um olhar triste mirou o horizonte. Professor Peixoto provavelmente deve ter perdido as amizades que tinha feito no colégio. Eu tinha muito medo de isso acontecer comigo e Mariana.

Fiquei pensando. Era o tipo de trabalho que não gostaria de fazer. Era um tanto preguiçosa e ter que pensar em vender coisas, interagir com todo tipo de gente que iria aparecer, aturar o Pedro por um dia inteiro… Confesso que não seria completamente ruim, me voluntariar para alguma coisa podia quebrar a rotina chata do pacato vilarejo. Criar algo memorável… Deixei a possibilidade aberta na minha mente.

— Vou pensar nisso. Posso ficar com o folheto?

— Claro. Depois vamos distribuir no vilarejo também.

— Mariana já sabe? — perguntei.

— Não ainda. Perguntei pra você primeiro porque… hmm, porque queria que você liderasse essa ideia com os outros dois. Seria bom pra você.

Professor Peixoto estava era fazendo um teste comigo. Se eu era capaz de puxar o assunto e gerenciar uma barraca no evento. Pior que ele não estava errado, dos três, eu era a mais introvertida e queria que eu desenvolvesse minhas habilidades de comunicação. Dei um profundo suspiro, já imaginando o trabalho que ia dar.

— Carlos Peixoto, venha comigo.

Uma voz velha interrompeu nossa conversa. A diretora Satiko surgiu no meio da sala e me olhou de cima para baixo com desconfiança, como se eu tivesse tramando algo. Até mesmo o troncudo professor Peixoto se encolheu com o tom de voz ligeiramente ameaçador da diretora, respondendo com um “sim” miúdo. Ele se despediu de mim e ambos seguiram pelo corredor até desaparecerem da minha vista.

Satiko Loures era o nome dela. A velha provavelmente poderia muito bem estar vivendo da aposentadoria mas parecia insistir em continuar naquela escola no fim do mundo. Tinha um cabelo curto encaracolado, adorava desfilar com seus brincos longos, estava sempre bem arrumada, os alunos a odiavam por causa da sua rigidez e andava com aquele Audi A8 preto que certamente o salário de diretora não seria suficiente para comprar. Uma perua. Era envolvida com a política da região e os boatos da época diziam que o que sustentava sua vaidade na cara e o carrão era dinheiro de corrupção. Como nunca foi provado nada, essa história apenas passava de boca em boca. Ela também era uma das únicas que moravam nas poucas casas de alvenaria do vilarejo, herdada do seu falecido marido e antigo vice-prefeito de Lucena, o município no qual o vilarejo fazia parte. Nós não gostávamos dela porque era mandona e deseducada com os alunos, tratando a gente com desprezo. Só que não tínhamos opção. Evitávamos cruzar com ela — o que era difícil numa escola com meia dúzia de funcionários — e engolíamos os sermões, que a deixava satisfeita já que alimentava seu ego. Mariana que o diga, já ficou de castigo várias vezes nos anos anteriores por responder a diretora na mesma altura, até que percebeu que já tava saindo do colégio mesmo e não queria mais se estressar com aquela mulher.

Encontrei com Mari sentada em um dos bancos à sombra de uma árvore, à margem do estacionamento. Ao me ver chegando, ela tirou seu Tamagotchi da mochila, de cor rosa, e começou a brincar com ele. Fiz o mesmo, tirei o meu, que era amarelo, e dei comida ao Kelvin, ainda bebê. Ficamos em silêncio por alguns minutos apertando os botões do brinquedo até que ela fez uma pergunta.

— O que o casalzinho tavam conversando?

— Credo, para com isso. Ele queria que ajudasse com o Festival da Lua.

— Festival da Lua?

Ela ficou surpresa ao descobrir que o festival tinha retornado. Mais ainda ao saber que Peixoto queria que nós abríssemos uma barraca ou pelo menos ajudássemos na organização. Ela fez uma cara torta, também imaginando o trabalho que ia dar, mas foi um pouco mais positiva do que eu.

— Finalmente vou ter uma desculpa para usar aquele yukata de verão que minha mãe me deu séculos atrás. Você tem também?

— Não, nunca usei. Se eu for, vou tentar arru… — Mari me interrompeu.

— Eu te arrumo! Não posso deixar amiga minha ir pra um festa se não tiver linda que nem eu.

Como sempre, ela tinha uma auto-confiança bem alta e se achava a última bolacha do pacote. Acabei entrando na onda e aceitei a oferta de um yukata emprestado, mas ela ainda não tinha dito se queria colaborar com o evento.

— Veja Manu, nesse tipo de festival vem muita gente de fora. Vai que você conhece um rapaz bonito e se apaixone no dia? Hein, hein?

— “Hein” nada. Não digo que não pode acontecer, mas se acontecer, vai acontecer, não vou ficar pensando nisso.

— Isso que é ser bem resolvida — ela deu tapinhas na minha cabeça. — Tá aprendendo com quem, será?

— Com você certamente não é — e rimos. Eu adorava essas conversas bobas que fazíamos ao final da tarde. Pena que faltava poucos meses para o fim do ano letivo e depois disso eu não sabia o que iria acontecer. Nem tinha inscrito em nenhum vestibular ainda porque minha cabeça ainda não estava pronta para decidir, então sabia que ficaria ao menos um ano procurando um norte.

Tinha pensado algumas coisas, mas no final sempre decidia contra. Jornalismo? Melhor não, tinha que entrevistar pessoas e ir pra zonas de guerra. Enfermagem? Ver sangue não era meu forte. Agronomia? Se quisesse voltar pra roça, isso sim. Publicidade? Acho que não conseguia nem vender água no deserto… Pelo menos, meu vô não era como outros, que obrigavam os filhos ou netos a irem estudar alguma coisa logo no fim do colégio. Ele dizia que se eu não soubesse ainda, que fosse trabalhar em algum lugar e ganhar dinheiro e experiência, que logo minha paixão surgiria. Orava para que ele estivesse certo.

— Mari, tenho uma pergunta… o que vai fazer mesmo depois que se formar? Vai deixar o vilarejo?

A risada já tinha silenciado. Estava vivendo momentos preciosos com ela. Sua face risonha então se desfez, ela olhou para as montanhas no fundo e ficou pensativa. Os galhos das árvores balançavam levemente na brisa suave de meio de tarde. Repousou o dedo sobre o lábio e disse:

— Sim, Manu, pretendo. Meus tios moram na capital e estava pensando passar um tempo com eles. Sabe que eu sempre quis ir pra lá, né?

— Eu sei — assenti com a cabeça. Desejava o mesmo.

— Quero fazer algo relacionado à moda. Ou fotografia. Alguma coisa mais artística. Assim como você, na verdade, você que me convenceu a não fazer vestibular ainda, vou esperar algum tempo para viver um pouco e descobrir o que quero fazer de verdade. O problema é que sinto que não posso falhar.

— Não pode falhar? Seus pais estão te cobrando?

— Não, eu estou me cobrando. Se eu não conseguir nada no próximo ano, sabe, eu preciso conseguir algo. Vou estar vivendo na casa dos outros para isso, não quero fazer desfeita.

Eu olhei para Mari, a repreendendo.

— Fazer desfeita, do que tá falando?

— Vou depender de outras pessoas. Alguém vai me dar um lar pra morar. Meus pais vão continuar me sustentando. Quando você soma tudo isso, você não quer decepcionar quem tá te apoiando, não é mesmo?

Mais uma vez Mari mostrava o quão mais madura era em relação a mim. Se eu arranjasse trabalho, eu não seria mais sustentada pelo meu vô porque eu não precisaria. Mari não queria.

— Se eu conseguir trabalho na capital… hmm, podemos alugar uma casa juntas e dividir o aluguel — soltei uma ideia sem compromisso pensada na hora. — A gente pode ajudar uma a outra, sabe, se achar trabalho indicar a outra, esse tipo de coisa. Aí você não teria que viver com seus tios e poderia morar comigo.

— A ideia não é ruim, mas… — eu inspirei bem fundo esperando o contra-argumento — primeiro precisamos arranjar emprego, e eu estando na casa dos meus tios é bem mais fácil do que não ter onde ficar, como é seu caso. Tem também que quando se mora junto é bem mais fácil sair brigas, temos que estar preparadas para isso. E o aluguel na capital é bem caro, então teríamos que trabalhar muito mesmo para dividir as contas. Você vai aguentar trabalhar todo dia o dia todo? — ela sorriu, provocando.

— Veja, tenho escolha? A alternativa é mofar nesse minúsculo vilarejo. Quero montar minha vida em outro lugar. Só ainda não sei quem vai cuidar do meu vô, ele já tem setenta anos — eu disse, cabisbaixa. Era meu grande temor. De vô Joaquim ficar sozinho quando suas forças cedessem.

— Manu?

— Diga.

— Há muito tempo queria dizer isso. Você é minha melhor amiga. A pessoa com quem mais convivi além dos meus pais. Mas, nós vamos se formar, cada um vai achar o caminho que é melhor pra si. Promete que vai fazer isso também? Pro bem ou pro mal, nós vamos no separar. O importante é a gente nunca perder o contato, ok?

Senti um aperto no peito. Mariana não estava errada, estava me preparando para quando ela se mudasse. Sua visão era muito clara, ela tinha um plano, tinha um objetivo. Mas para mim, só de pensar que teríamos que nos separar me deixava acordada durante a noite. Eu só tinha a ela e ao vô Joaquim, todo o resto era apenas colegas. Porém, Mari tinha todo o direito de seguir o próprio caminho e eu não tinha nenhum direito em ser uma âncora para seus sonhos. No final, eu sabia que eventualmente superaria estar centenas de quilômetros longe dela. Mesmo que fosse pequena, eu acabei superando a ausência dos meus pais.

— Então me promete isso: — eu disse, pegando o dedinho dela e enrolando no meu — quando você se casar, promete que vai me chamar para ser sua madrinha?

— Que isso, Manu? — ela riu. Então abriu um sorriso, balançando o dedinho firmemente. — Promete você também?

— Com certeza.

— Está prometido.

***

Passava das quatro horas da tarde e a casa estava em silêncio, apenas o canto dos pássaros do lado de fora. Não tinha encontrado meu avô desde a hora que tinha chegado, então me antecipei e resolvi preparar um café. Enchi a chaleira e coloquei no fogo. Em poucos minutos, o vapor subia em direção ao teto enquanto a chaleira assobiava. Logo em seguida, escutei o sino de vento tocar ao mesmo tempo que ouvi um ranger de porta se abrindo. Me virei para a sala, esperando surgir a figura do meu avô ali mas apenas vi a porta se abrindo bem devagar, empurrada pelo vento. Estranhei um pouco, pois tinha certeza que tinha deixado ela fechada. Fechei a porta e voltei ao fogão, desligando a chaleira. Deixei descansar por um minuto antes de virar a água sobre o monte de café no filtro de papel, montado em cima de uma garrafa térmica. Um delicioso aroma subiu no ar, o vapor se dissipando na frente dos olhos, estava ansiosa para dar um gole. Quando terminei o ritual, enchei uma xícara, o líquido escuro me enfeitiçando como uma poção mágica.

Um sopro de vento correu atrás de mim. Meu corpo espasmou com um calafrio, soltei um grunhido curto e contido e girei subitamente para trás. Café espirrou em minha camisa, senti o calor chegar na minha pele. Passando a mão na roupa, observei tanto a cozinha quanto a sala vazias, imaginando de novo encontrar meu vô. Imaginação minha. Repousei a xícara na pia enquanto procurava um pano para me limpar.

Um peso repousou sobre meu ombro.

— Meu Deus! — gritei, de novo.

Encontrei os olhos arregalados atrás de mim. Meu vô estava surpreso com minha reação e rapidamente tirou a mão dos meus ombros.

— O que foi, Manu?

Meu coração batia na garganta. Fiquei estática, processando a surpresa. Um longo momento se passou até que eu conseguisse dizer alguma coisa.

— Meu Deus, vô, não faz uma coisa dessas comigo!

— Eu fiz o quê? Você que se assustou à toa.

— Avisa quando entrar em casa, né.

— Agora sou obrigado…

Suspirei e retornei a atenção para tirar a mancha da camisa, mas a sujeira apenas espalhou ainda mais. Para a máquina de lavar iria logo mais.

— O senhor estava onde? — interroguei que nem uma policial.

— Uai, fui lá pregar o anúncio no quadro, encontrei uns amigos, fiquei conversando. Nem só de enxada vive o homem.

— Diz o anúncio de emprego?

— Isso mesmo, neta — ele percebeu a garrafa de café e foi em sua direção.

— Hoje de manhã acabei falando com seu Morimoto sobre isso.

— Eu sei, conversei com ele. Inclusive, botei um cartaz lá na loja dele. Acho que é o que tem mais chance de ser visto. Aliás, Manu, é de agora? — Joaquim perguntou, apontando para a garrafa. Assenti com a cabeça. Ele começou a encher a xícara e fui em direção à mesa da cozinha de quatro lugares, me sentando na cadeira. — Como foi na escola hoje?

Abri um pote metálico de bolachas que ficava bem no centro da mesa, peguei uma delas e mordi em um sono crec, espalhando farelo pela toalha de mesa.

— Hoye foe…

— Não te ensinei a não falar de boca cheia?

Ele não perdoava nada. Terminei de mastigar antes de responder.

— Hoje foi normal. Não, quero dizer, tem uma coisa sim. O senhor conhece o Festival da Lua?

A xícara que estava a meio caminho da sua boca paralisou no ar. O vapor que saía dela era uma cortina na frente de sua face, seus olhos fixados bem no fundo dos meus. O dedo que segurava a asa da xícara apertou, os tendões no seu antebraço se sobressaíram e sua mão começou a tremer. Sua face enrijeceu, não era espanto, não era supresa, não era alegria. Uma boca semiaberta. Meu vô estava começando a ter a mesma crise do outro dia, previ ele desabando no chão e atingindo em cheio a cabeça na pia.

— Vô, vô?

Levantei de súbito, a cadeira arranhando no chão. Mas, assim que levantei, ele repousou a xícara sobre a pia, sua face relaxou de novo e um bem-te-vi cantou do lado de fora da janela. No final, a crise não veio.

— O senhor está bem?

— Eu? Por que não estaria? — ele abriu um sorriso estranho. Parecia forçado.

Retornei à cadeira, tensa. Ele pegou novamente a xícara e deu um gole no café como se nada tivesse acontecido.

— Eu tava falando do…

— Do festival, claro, minha neta. Era o evento anual do vilarejo, reunia gente de tudo quanto é canto. Foi lá que conheci sua vó. Até o dia em que o inferno desceu na Terra…

Sua voz vibrava ao responder. Ele nunca tinha me contado sobre o festival, nem que tinha sido onde encontrou sua futura esposa. Nunca foi um assunto que surgiu entre nós, nunca tinha perguntado nada sobre isso. Porém, isso explicaria sua reação inesperada. O evento pareceu acontecer todo ano até o ano do grande incêndio da Vila dos Açoitados. Vô Joaquim certamente carregava um carinho especial pelo Festival da Lua, e ver o evento sendo interrompido de forma tão trágica deve ter evocado dolorosas memórias.

— O incêndio… Desculpa, não queria te fazer lembrar daquilo.

— Não tem problema.

— Por que nunca me contou sobre o festival? — tentei perguntar sem ser inquisitiva. Precisava ser delicada com o assunto.

— Nunca pensei muito nisso, Manu, apenas isso. Assim, neta, depois do incêndio, ninguém mais quis nada com festa e o festival acabou morrendo.

— O senhor trabalhava nele?

Limpei o canto dos lábios com o dedo. A bolacha estava bem doce.

— Trabalhava sim, nas barracas de comida, a montar as brincadeiras, na limpeza. Embora fosse um festival um bocado pequeno dava bastante trabalho. Foi num desses dias, de montagem, que acabei engraçando com a Teresa. Depois sua mãe nasceu e ela passou a participar também, a brincar, a ficar com a gente na pescaria.

— Bem, o professor Peixoto perguntou se queria que eu participasse, que montasse qualquer coisa com a gente do terceiro ano. O que acha?

A leveza com que ele contava da época que trabalhava no evento se desmanchou e deu lugar a uma atmosfera pesada. De novo, seu olhar sério me encarou, seu canto da boca tremulou como se quisesse dizer algo. Esse não era o vô Joaquim que conhecia, ele raramente tinha mudanças bruscas de humor. Acreditei que tinha a ver com as lembranças de uma época que minha vó e minha mãe eram vivas. Que conforme Joaquim envelhecia, ficava mais difícil de controlar suas emoções. Ele largou a xícara de café na pia e com a voz mais grave e rouca do que o normal, quase que como um sussurro, ele me disse:

— Não cometa o mesmo erro que eu cometi.

Então, Vô Joaquim abriu a porta da cozinha e saiu para o terreno, se afastando em direção à horta.

Eu fiquei sem reação. O café tinha ficado bem amargo em minha boca.