O sino de vento pendurado no teto da varanda tilintava, anunciando o ar morno da primavera batendo à porta. Um degrau de concreto levava à entrada da casa, a porta judiada pelo tempo, se abrindo com um rangido. Quando dei o primeiro passo para dentro, virei para trás, como se sentisse alguém me observar, mas só encontrei as montanhas que rodeavam o pequeno vilarejo, se erguendo a algumas centenas de metros de altura. Vila dos Açoitados, o lugar nos cafundós de Judas onde tinha passado toda minha vida até então. Até então.

Era um domingo, o final da tarde sorria com os últimos raios dourados. A melancolia tinha me atingido em cheio, aquele frio na barriga de voltar à rotina um tanto chata, um tanto monótona. Estava voltando da casa de Mariana, minha melhor amiga. Tinha almoçado com ela e seus pais, depois tiramos um breve cochilo, em seguida caminhando ao longo do rio que cortava o vilarejo, e na volta ainda deu tempo de ela me ensinar um look diferente no cabelo, que odiei por sinal. Diferente de mim, Mariana emanava uma beleza natural, tudo que ela tentava de diferente de maquiagem ou roupas ou de acessórios pareciam lhe cair como uma luva. Tinha uma pequena inveja do quão bonita ela era, embora tivesse vergonha de dizer isso a ela. Mas Mari era minha melhor, minha única amiga. Agradecia o esforço que ela fazia para levantar minha autoestima.

Entrei na sala, a TV desligada, um cheiro de sopa de legumes flutuava no ar. Esperava encontrar meu vô Joaquim na cozinha preparando o jantar. Nosso costume era comer às sete em ponto e raramente dava desfeita. Para meu avô, ser consistente e pontual era uma qualidade que deveria ser “básica de qualquer trabalhador”, nas suas palavras. Fazia algum sentido para ele. A vida toda trabalhando na roça como agricultor lhe moldou uma ética um tanto rígida para os meus padrões. Ainda que eu não concordasse com tudo, eu respeitava o seu jeito de viver. Todo dia levantava às seis, junto com o sol, e às dez já estava em sono profundo. Ele ficava irritado se algo o tirasse desta rotina, e ainda que eu tivesse alguma liberdade para fazer meu próprio horário, tentava não sair muito disso. Se eu o acordasse no meio da noite por algum barulho besta iria ouvir sermão até o amanhecer.

Virei à direita em direção à cozinha e o que vi perto da mesa foi seu corpo esparramado no chão. Corri para perto dele gritando em desespero:

— Vô Joaquim! Vô! Vô!

Ao ver seu corpo imóvel não sabia se estava vivo ou não. O momento que a gente não sabe o que fazer e fica olhando ao redor, procurando um culpado. O coração pulou à garganta e senti queimar o estômago. Em seguida, a adrenalina correu pelas minhas veias. Cheguei ao seu lado e o vi com os olhos arregalados, olhando para o teto, ofegante. Claramente vivo, o que me fez sentir um alívio imediato, mas não significava que a situação estava sob controle.

— Me escuta, vô? É a Manu, sou eu! Tá me escutando, vô?

Ele continuava a olhar o teto, se não fosse seu peito subindo e descendo, parecia congelado como uma pedra. Era um derrame, uma crise epiléptica, um ataque cardíaco? Eu não sabia de nada além de que ele precisava de ajuda. Não teria nem forças para o colocar de pé, meu vô era um homem forte e pesado, apesar da idade. Sem que ele reagisse aos meus chamados, a única coisa que sabia fazer era ligar para a emergência. Corri para a mesinha do telefone ao lado do sofá e estava a ponto de discar o número quando lembrei que morávamos em um vilarejo no fim do mundo. Demoraria trinta ou quarenta minutos para uma ambulância chegar. Talvez mais. Já tinha ouvido história de uma ambulância que demorou duas horas para chegar e aí tinha sido tarde demais. Então, pensei rápido. Abri a agenda de contatos que ficava ao lado do telefone e na letra E achei o nome que todos no vilarejo conheciam: o Doutor Eiji Ishihara.

O doutor prontamente atendeu. A primeira coisa que fiz foi pedir desculpas pelo incômodo, por algum motivo. Expliquei a ele do estado que encontrei o meu vô mas não soube responder quanto tempo ele estava assim. Me garantiu que em cinco minutos estaria em casa e pediu para que também chamasse uma ambulância, coisa que fiz assim que desliguei a ligação. Me aproximei de Joaquim novamente, angustiada em não saber se ele estava sofrendo ou não. Quanto mais reparava na sua posição congelada, mais eu ficava assustada. Sua cabeça estava fixa, olhando para o teto, os olhos arregalados. Era como se ele tivesse enxergando algo muito além do teto da nossa velha casa. Segurei sua mão, que estava fria. Ele não reagiu. A única coisa que mexia era seu peito, hiperventilando.

Ah. Percebi algo. Sua expressão. Finalmente entendi sua expressão.

Vô Joaquim estava aterrorizado. O corpo poderia estar paralisado mas sua mente poderia estar a mil. Ele parecia ter sido pego em uma paralisia do sono, um dos meus pavores, mas ele realmente estava dormindo? Não, não fazia sentido. Imaginando que ele estivesse sendo afligido por algum tipo de medo profundo, eu também comecei a ficar aterrorizada. Tinha que o acordar de qualquer jeito. Chacoalhei seu corpo, dei leves socos em seu peito, gritei, passei as mãos sobre seus olhos, coloquei minha cara entre sua cara e o teto, para que me percebesse, mas nada, nada fazia com que ele reagisse. Até mesmo peguei um copo d’água fria e joguei nele, mas vô Joaquim não esboçou nenhuma reação. Eu estava perdendo o controle, fazendo estas coisas estúpidas e potencialmente perigosas com meu velho. Uma eternidade se sucedeu, esperando de forma angustiada que o Doutor Eiji aparecesse logo, ou a ambulância, ou quem quer que fosse. Eu ia ter um treco se a ajuda não chegasse a tempo.

A campanha tocou e saltei de susto. Em galope, corri em direção à porta, torcendo para que fosse o médico. Quando abri…

— Me leve até ele — disse Eiji, sem nem mesmo cumprimentar. Não era por mal, pensei, era uma emergência afinal.

O médico estava de bermudas e camisa de time de futebol, eu provavelmente tinha ligado no meio de um jogo do campeonato. Trazia uma maleta médica consigo e seu rosto rechonchudo estava sério. Demos alguns passos e pulei de susto quando vi a figura flutuando na cozinha.

Eu esperava que meu avô estivesse deitado, mas não. Ele tinha se posto em pé, apoiado nas costas de uma cadeira, com a expressão confusa. Não só ele, Doutor Eiji e eu nos entreolhamos, desconcertados. Quanto tempo eu tinha levado até atender a porta? Cinco segundos? O médico se aproximou do meu avô, colocando a maleta no chão.

— Senta, por favor. Conte como está o senhor — Eiji perguntou, guiando meu vô para que se sentasse na cadeira que apoiava. Assim que ele se sentou, o doutor tirou um estetoscópio da maleta e pressionou contra seu peito.

Meu vô olhou para mim, coçando a cabeça. Eu não estava mentindo! Eu realmente o tinha encontrado catatônico no chão, paralisado! Ao mesmo tempo que estava aliviada em o ver de pé, fiquei preocupada em ser vista como uma mentirosa. Pelo menos, ele demonstrava visivelmente que algo tinha acontecido.

— Eu? O que eu tava fazendo mesmo? — Vô Joaquim demorou para responder. Olhou em volta, confuso, tentando se localizar. Sua fala estava mais lenta que o normal, mas perfeitamente compreensível. — Eu estava… a panela no fogo, desliga pra mim, minha neta?

Olhei para o fogão e tinha sim uma panela borbulhando. Apressei em desligar a válvula, confusa com a situação. Era eu quem estava imaginando coisas?

— Vô, o que aconteceu? Você tava todo desmaiado aí, você não lembra disso?

O médico enrolou um aparelho de pressão no seu braço e começou a apertar o balão. Eiji perguntava coisas para meu avô para testar seu estado mental: qual seu nome, onde estava, que horas eram, o que se lembra, entre outros tipos de coisas que os médicos fazem. Vô Joaquim respondia tudo com clareza, apesar de parecer dizer cada sílaba de forma um tanto pausada. Segundo ele, ele tinha posto o caldo para cozinhar, logo deu vontade de ir ao banheiro e aí… já estava com o Doutor Eiji na sua frente. O médico continuou examinando, apertando nódulos, jogando uma lanterna em seus olhos, medindo tempo de reação. Depois de um longo checklist, o médico se virou para mim e disse:

— Olha, Manuela, os parâmetros do Seu Joaquim estão normais, tirando a frequência cardíaca e respiratória um pouco aumentada. Seu avô tem histórico de ataques de pânico ou ataques de epilepsia?

— Nada, doutor, nada. A menos que ele estivesse escondendo de mim, não lembro de nada.

— Tá dizendo que tô escondendo coisa de você, Manu? — meu avô rebateu, um pouco ranzinza.

— Que? Não é isso vô, é só o jeito de dizer que nunca vi nada — tentei me esquivar da bala.

Antes que ele pudesse responder de volta, o médio interveio:

— Tem alguma dor? Tem algo diferente que está sentindo?

— Nada, não, doutor. Apenas…

Ele virou a cabeça olhando para o teto, para a lâmpada fluorescente circular no meio da cozinha. Uma mariposa voava ao redor, atraída pela luz. Não completou a frase, me deixando um ponta de ansiedade.

— Apenas…? — o médico tentou continuar.

Meu vô não respondeu. Eiji olhou para mim, como se procurasse a resposta do meu lado, mas apenas ofereci um balançar negativo de cabeça.

Subitamente, meu avô se pôs de pé como se nada tivesse acontecido. Tentou demonstrar ao médico de que estava tudo bem com ele que não deveríamos nos preocupar, balançando os braços e sapateando. O doutor observava com estranheza, como se nunca tivesse visto este tipo de coisa.

— A Manuela até mesmo chamou uma ambulância quando encontrou o senhor. Recomendo o senhor ir ao hospital para uma análise mais detalhada das suas condições. O hospital de Lucena tem bons equipamentos e médicos, até mesmo a essa hora. Vou avisar meu colega, o doutor Couto, ele é um ótimo médico, e está de plantão lá nesse momento.

— Ambulância? Não preciso de nada disso, doutor — Joaquim balançou as mãos na frente da cara do médico. — Estou me sentindo muito bem, se for até Lucena como vou voltar?

— Eu posso acompanhar de carro e depois o trago de volta — o médico respondeu, parecendo genuinamente preocupado com meu vô.

— Doutor, muito generoso de sua parte, mas não quero incomodar ninguém.

— Recomendo fortemente um exame mais aprofundado para ter certeza que não é princípio de AVC ou epilepsia. Isso é coisa séria, seu Joaquim. Recomendo que o senhor vá.

Vô Joaquim ficou em silêncio. Por mim, que ele fizesse todos os exames que precisava e mais um pouco, para ter completamente certeza que ele estava bem. Mas meu vô sempre foi cabeça-dura para essas coisas de médico e hospitais. Para mim, era uma mistura de desconfiança, arrogância e pitadas de trauma por ter gasto muitas e muitas horas levando minha vó Teresa no hospital para o tratamento de sua doença e no final não conseguir vencer a batalha contra o câncer. Lembro de ele reclamar que os hospitais e médicos só querem ganhar dinheiro passando tratamentos ineficazes e de se vangloriar de quase nunca precisar ir a médico porque tinha uma alimentação saudável e o corpo sempre estava em movimento. Podia até ser verdade, meu vô raramente ficava doente e sempre foi muito energético para trabalhar, mas depois de vó Teresa ter decidido abandonar os tratamentos porque nada funcionava e mais trazia sofrimento do que outra coisa, ele deve ter ficado bem desiludido com a medicina em geral. Não tenho como o culpar.

Naturalmente, ele recusou o pedido do médico, que mesmo assim fez algumas guias para mais exames, me entregando alguns papéis. Quando a ambulância chegou, foi uma confusão à parte: Joaquim esperneou, se recusou a ser atendido por eles, dizendo que não precisava, por mais que insistissem. As caras dos paramédicos eram uma mistura cansaço e irritação. No fim, Eiji acabou repassando os parâmetros vitais do meu vô para a equipe da ambulância que anotou em algumas fichas. Eu, que tinha chamado a emergência, aproximei dos paramédicos e pedi desculpas por ter gastado o tempo deles, o que fez pelo menos simpatizarem comigo. Ainda disseram que se recusar a ser atendido é mais comum do que parece, principalmente com idosos. Como meu avô estava lúcido e fora de situação de emergência, eles não poderiam forçar o paciente para dentro da ambulância e dez minutos depois foram embora.

Assim que a ambulância tinha sumido de vista, antes de entrar em seu carro, Eiji se virou para mim e disse:

— Olha, Manuela, não tenho certeza do que aconteceu com ele, mas tirando a perda de memória e a fala lenta, fisiologicamente tudo parecia normal. A hipótese de um AVC ou coisa parecida pode ainda existir, mas como ele mantém os movimentos e a lucidez fico menos preocupado. Pode ser algum problema psicológico, entretanto. Peço que fique de olho e ligue caso ocorra alguma coisa de novo.

— Vou fazer isso, doutor. Sabe, meu vô odeia hospitais, não gosta muito de médicos, acho que você sabe um pouco da história.

— Sei sim, sei sim. Ele é um paciente difícil de se lidar.

— É mesmo. Desculpa por te chamar a essa hora. Você tava vendo jogo, não tava?

— Tava perdendo de dois a zero — ele riu. — Até melhor que você me tirou da TV senão eu quem iria ter um infarto — eu ri de volta.

Eiji entrou no carro, fechou a porta e deu a partida. Antes de sair, abriu a janela e me disse:

— Tenta convencer seu Joaquim que ele não tem mais trinta ou quarenta anos de idade. Quando se chega na idade que ele está, nossa saúde tem uma queda abrupta. É normal. A gente que é muito orgulhoso pra aceitar. A gente precisa se cuidar.

— Vou tentar, doutor Eiji, mas sabe que com ele vai ser difícil. Beeem difícil.

— Isso com certeza é. Boa noite Manuela, já sabe, liga se precisar.

— Obrigado, doutor.

O carro do doutor Eiji Ishihara desapareceu na escuridão da rua de terra sem iluminação.

***

Vô Joaquim repousou a colher na cumbuca já vazia, parecendo satisfeito com a sopa de legumes, e se levantou carregando a louça suja para lavar na pia. Ele agia estranhamente normal, como se ele quase não tivesse sido levado em uma maca até o hospital, uma hora atrás. Ao dar o primeiro passo em direção a pia, ele colocou a mão na lateral da lombar e exclamou um palavrão.

— Está tudo bem, vô? — perguntei ao reparar sua postura torta, já pensando que seu desmaio tinha deixado algum efeito colateral.

— Tô sim… é só uma dor nas costas, neta, tem hora que tá bom, tem hora que tá ruim, pensei que ia melhorar com o movimento ao longo do dia — ele disse com a louça na mão.

Franzi a testa. Sua voz tinha voltado a velocidade normal.

— Pera aí, você trabalhou hoje também? Não é domingo, seu dia de descanso? — questionei, já sabendo da resposta.

— Assim, Manu, a garagem tava uma bagunça que só, se visse… tudo espalhado no chão, então aproveitei e dei uma lavada daquelas — ele jogou a louça dentro da pia. — E lembra daquelas mangueiras de irrigação? Troquei elas, tavam gastando uma água que nossa senhora, tava apodrecendo tudo os pés de repolho.

Tinha feito bastante sol aquele dia, era bem possível que tivesse tomado uma insolação, que juntou com a idade, que pode ter juntado com falta de hidratação, e o fez desabar. O médico estava certo, tinha que convencer meu avô que era hora de desacelerar do trabalho. Muitos anos se esforçando desse jeito, não seria surpresa o corpo estar reclamando. Pensei um pouco. Se ele não me deixaria fazer trabalho pesado de roça, alguém de fora poderia fazer, por que não?

— Vô, não quero dizer nada, mas não tá na hora de arrumar alguém para te ajudar?

— Vem cá minha neta, tá me chamando de velho? Além disso, você? Está doida, menina, tem que estudar. A roça não é pra você.

— Não é disso que tô falando. Trazer alguém de verdade pra trabalhar com você. Um ajudante.

Ele ligou a torneira e começou a ensaboar a porcelana suja. Bolhas de sabão flutuaram no ar.

— Bom, a ideia não é ruim — ele inclinou a cabeça pensativo enquanto passava a esponja. Eu conseguia ver a silhueta de seu rosto refletida na janela logo acima da pia. — O problema é achar alguém que faz do jeito que me agrade.

— Aí vai ser um problema. Quem pode já deu no pé deste buraco de mundo. Mas temos que tentar.

— Neta, não fala assim do vilarejo.

— Desculpe.

Às vezes escapava o que eu realmente pensava da Vila dos Açoitados. Meu vô ainda nutria alguma simpatia com o lugar, apesar de tudo que passou.

— Olha, não tenho muita esperança de achar alguém muito bom… mas se tiver disposta a aprender, a sujar as mãos de terra pra levar este país pra frente tá bom.

— Se pagar bem, né?

— Vou pagar o justo — concluiu, colocando a louça no escorredor.

A gente não tinha condições de ter alguém em tempo integral. O trabalho era cansativo e meu vô era detalhista, mas pior ainda, ele era muito exigente, com os outros e consigo mesmo, a ponto de deixar acontecer o que aconteceu. Aos setenta anos o corpo não é mais o mesmo. A dor na lombar era um claro sinal de seu organismo avisando que já tinha passado dos limites. A cobrança autoimposta era pesada, e a mesma diligência que ele tinha como agricultor, ele tinha comigo na hora dos afazeres domésticos, sendo implacável com serviços porcos e mal feitos. Ironicamente, revirava terra o dia inteiro mas odiava sujeira, um prato sujo, um banheiro fétido. Claro, terra não é sujeira da mesma forma que gordura amanhecida grudada no prato. E me cobrava da mesma forma que se cobrava. De vez em quando, ele dizia que Teresa não abriria a porta do céu se não fosse um homem ajeitado. Ao contrário de mim, tão irresponsável como uma adolescente, meu vô levava a sério a organização da casa. O único lugar da casa que ele não tocava era meu quarto , onde eu podia deixar do jeito que eu quisesse. “Quem vai dormir com as baratas é você”, dizia.

— Se eu ver uma única colher suja mais tarde vou dar a sua mesada pro ajudante — disse, olhando nos meus olhos, jocosamente. Ou não. Melhor não arriscar.

Antes de deixar a cozinha, ele abriu o armário, tirou um comprimido de uma caixa de remédios e tomou com água. Me deu boa noite e partiu para seu quarto. Eu fiquei ainda lá, terminando os últimos pedaços de batata da sopa. Não me furtei de deixar a cozinha em ordem, afinal, eu estava bem avisada. Tomei um banho morno, li algumas páginas de uma revista adolescente em como fazer tranças coloridas e já deitada na cama antes de dormir peguei meu Tamagotchi amarelo. Tive a surpresa de descobrir que Kurt Cobain tinha morrido de inanição, me deixando levemente frustrada. Prometi a mim que eu não fosse tão incompetente assim quando eu tivesse um filho de verdade. Criei um novo bichinho, o nomeando com Lord Kelvin, a 273° encarnação, que surgiu em formato de ovo. Brinquei por alguns minutos até desabar com o brinquedo em mãos.

***

O sono foi profundo. Era sete e meia da manhã quando o rádio-relógio despertou. Minha rotina matinal sempre incluía um impulável café da manhã com uma xícara de café. Depois, minha higiene pessoal, me deixando preparada para vestir o uniforme escolar: uma camisa branca de manga curta e uma saia que ia até os joelhos. Naquele dia passei uma leve maquiagem apenas para eliminar as olheiras, prendi o cabelo em um rabo de cavalo e botei a mochila nas costas. Calcei os sapatos e coloquei os pés na rua.

Nossa rua era de terra, assim como boa parte das ruas do vilarejo. Era uma região rural, o que significava grandes espaços entre as casas de vizinhos, intercalados por hortas, plantações ou terrenos baldios com mato mal cuidado. A região era conhecida por produzir diversos tipos de hortaliças, então era comum ver plantações de tomate, beterraba, cenoura, alface, repolho, couve, rúcula, agrião e o que mais imaginar que fosse verde e tivesse folhas. Por causa desses espaços, nossa vizinha mais próxima ficava a uma centena de metros. Era a dona Dalva, uma senhorinha que morava em uma casa simples de madeira com paredes vermelhas, ninhos de vespas sob o telhado e objetos aleatórios enferrujados guardados sob pequenos puxadinhos de telhas de amianto na lateral da casa. Um pequeno jardim ficava na parte da frente, o lugar onde encontrei a senhora regando alguns potes de planta bem logo na entrada do terreno.

— Bom dia, dona Dalva — a cumprimentei através do muro rasteiro que separava a rua da propriedade.

— Bom dia Manuela, como está seu avô? — ela tinha uma voz fraca, era um pouco corcunda, usava óculos e sempre foi muito bem educada e receptiva. O que chamávamos de um amor de pessoa.

— Obrigada por perguntar, ele está bem. Na verdade, ele já chegou na época de reclamar de dores nas costas, mas fora isso está bem, sim.

— Ah, uma hora a dor chega para todos, e olha que ele é fortão. Eu mesmo já tenho uma aqui nas costas, um bico de papagaio, já faz dez anos, dez anos, o que me salva um pouco é essa carqueja aqui, para dor é excelente, você coloca uma folhas na panela, deixa ferver e toma todo dia. Vem cá, eu te dou um pouco pra você levar pro seu Joaquim. Ele gosta de gengibre? Tenho gengibre também, esse é o meu preferido. Se quiser te faço para você agora, se não tiver com muita pressa, querida. Aliás, faz algum tempo que ele não passa por aqui, deve estar bem ocupado agora que chegou a primavera…

Dona Dalva era uma senhora tão receptiva e bondosa que se desse corda ela levaria você para casa, traria o almoço, te daria banho, fazia a janta e ainda te botava para dormir. Ou talvez fosse porque vivesse sozinha e não tinha muita gente para conversar. Ela andava bem devagar então ir até o centro da cidade sentar no banco da praça para socializar demorava muito tempo e era um esforço considerável. O que sabia era que seu filho, Júlio, que morava fora do vilarejo, estava frequentemente por aí trazendo compras e cuidando da mãe, já que via seu carro estacionado em frente com alguma frequência. Mas ele tinha sua vida com filhos e tudo e não podia ficar vinte e quatro horas com ela, o que resultava provavelmente em dona Dalva ficar sozinha quase o tempo todo. Era um pouco triste. Um dos meus maiores medos era de ficar solitária no mundo. O coração humano não foi feito para ficar isolado.

— Muito obrigada, dona Dalva, só que eu estou indo para escola agora então não vou conseguir. Mas eu vou avisar meu vô para vir buscar com a senhora depois — me partia o coração recusar a oferta da dona Dalva mas se ficasse ali só ia chegar na escola na hora do almoço.

— Tá bem, menina, não há problema. Olha, por que não passa aqui na volta? Vou separar para ele, melhor, já vou deixar ali num pote ali na janela, no potinho de plástico branco, é só você entrar, o portão tá sempre aberto, porque às vezes estou deitada na cama e demoro um pouco levantar, mas se quiser entrar um pouco não tem problema, tenho algumas bolachas que você talvez goste, seu vô também pode entrar, porque já conheço ele há vários anos e vocês são boas pessoas…

— Entendido dona Dalva — senti mal de interromper sua fala, porém tive que fazer. Ela pareceu um pouco desapontada, o que cortou meu coração. Mantive firme, agradeci e segui meu caminho.

A rua fez uma curva à esquerda, revelando um grande planície onde se plantava mais verduras e uma placa dizendo “Vende-se hortaliças”. Logo em seguida, depois da plantação, surgiu uma das poucas casas de alvenaria do vilarejo, um pouco mais arrumada que a nossa, pertencendo a um funcionário da prefeitura chamado Humberto, um homem de meia idade que lidava com as partes burocráticas e de manutenção do vilarejo. Era ele nosso ponto de contato quando tínhamos demandas de reparos nos equipamentos e terrenos públicos, quando reclamávamos da falta de insumos no posto de saúde, os buracos nas ruas, entre outras coisas. Quase um síndico. Ao menos essa era a teoria, pois embora fosse um homem cordial e simpático, dando o melhor de seu trabalho, os mandachuvas na prefeitura tinham uma tendência em ignorar boa parte das demandas do povoado ou prometerem e não cumprirem. Exceto em época de eleição, a única vez que os políticos vinham lá do centro do município onde o vilarejo estava incorporado, a quarenta quilômetros, para fazer campanha, como ratos surgindo dos bueiros para pegar a luz do sol e depois desaparecendo nos esgotos antes do anoitecer. Humberto morava junto com esposa que nunca lembrava o nome e seu filho que estava na oitava série e se chamava Heitor.

Heitor era… peculiar. Usava uns óculos estranhos, ele ficava abrindo e fechando os punhos toda hora, tinha uma voz mais aguda do que de menina, sempre tirava notas ruins e parecia ser uns dois anos atrasado, mentalmente. Por causa disso, tinha uma época que fazia comentários dizendo que ele só passava de ano porque o pai era amigo do prefeito. Não que falássemos isso para ele, mas é o tipo de coisa que também não mantínhamos segredo. Por uma sacanagem do destino, depois eu passei a ser alvo de comentários maldosos e senti na pele o outro lado da moeda. Se não fosse Mari para me salvar, eu teria… Bem, talvez fosse alguma punição divina ou algo assim, no melhor estilo aqui se faz aqui se paga.

Seguindo à esquerda da casa de Humberto, árvores surgiam de ambos os lado da rua antes de dar na Ponte dos Arcos. Porém, alguns metros antes da ponte que dava para o centro do vilarejo, um solitário casebre ficava em cima de um barranco. O telhado escorria para os lados de forma curva, as pilastras de madeiras precisavam de um novo verniz, as lanternas de papel penduradas no teto de uma pequena varanda estavam sujas e assim que passei na frente uma leve brisa tocou os sinos de vento na entrada da pequena lojinha: o famoso bar Kisaragi, do senhor Morimoto, como indicava uma placa torta no topo do fachada com os caracteres esculpidos na madeira. Todos os dias, às oito horas em ponto, ali estava ele, detrás de um balcão vendendo as tranqueiras preferidas das crianças e adultos pecadores: doces, mochi, salgadinhos, melonpan, pão de queijo, bebidas açucaradas, cerveja, pinga, sake e a droga mais forte de todas, café. Uma conspiração para compensar a produção de verduras e legumes na região e aumentar o nível de obesidade da população. Sem falar nas noites de sexta e sábado, quando Seu Morimoto vendia espetinhos. Era um dos poucos pontos de encontro para os habitantes do vilarejo, que puxavam umas cadeiras de bar na frente e gastavam tempo batendo papo. Mas naquele horário da manhã o movimento era praticamente nulo. Nunca entendi porque ele acordava tão cedo para vender suas tranqueiras.

— Olha quem vem, bom dia dona Manuela — ele acenou ao me ver.

— Olá, Seu Morimoto, como está?

— Depois daquela gripe da semana passada estou melhor — ele apoiou o braço na bancada e acendeu um cigarro, dando a primeira tragada. — Pensei que seria minha vez, tremia que nem vara verde. Aliás, como está seu Joaquim? Faz tempo que não vejo ele, né?

Por algum motivo os mais velhos gostavam de falar de doença. Não sabia a idade dele, mas me parecia uns dez anos mais novo que meu avô, embora com bem menos cabelo. O topo da cabeça era desnudo de fios, restando apenas uma coroa branca a rodear, como aqueles frades das pinturas medievais. Sua voz era um pouco rouca, talvez por fumar muito cigarro, que claro, também vendia na sua loja. Ele mesmo talvez fosse a personificação de um dos sete pecados, gula, se fosse chutar. Mas o produto que ele mais vendia não era cigarro ou bebida, era fofoca. O Kisaragi era, acima de tudo, uma estação de rádio. Dramas, brigas, namoros, detalhes íntimos. Como seu boteco era um ponto de encontro, seu Morimoto estava sempre de ouvidos afiados para as histórias que o povo contava, afinal, muita gente comprava uma gelada e ficava fazendo hora na frente do balcão. Segundo vô Joaquim, Morimoto foi responsável por três casamentos, quatro divórcios e cinco vias de fato, por fazer nada mais que abrir o bico quando lhe perguntavam. Se dizia que quanto mais se deixava dinheiro no balcão, mais o bico abria. Não sei como ele não tinha ficado rico.

— Que bom que melhorou. Meu vô está bem, começou reclamar de dor nas costas, mas o que era de esperar, né? Vive batendo enxada o dia inteiro. Olha, disse a ele que já não dá mais pra essas coisas, ele tá precisando de alguém pra ajudar ele a trabalhar na horta. Sabe dizer se conhece alguém interessado em trabalhar com meu vô? — fui direta, sem muita enrolação.

Senhor Morimoto franziu a testa e soltou um clique com a língua. A resposta não parecia animadora.

— Olha, por aqui no máximo só vai achar gente velha que nem ele, né? — e gargalhou. A fumaça do cigarro desaparecia no ar. — Posso ficar de olho, se aparecer alguém por aqui comentando de querer um emprego. É pra plantar, arar, carpir, roçar, esse tipo de coisa, né?

— Isso mesmo.

— Entendido, senhorita. Mas não tenha muita esperança, tá? Acredito que vai ser difícil.

— Melhor que nada, já ajuda.

Disse a ele que estava atrasada, agradeci sua ajuda e fui em frente.

Já no meio da ponte, aproximei do para-peito de pedra e observei a água do rio abaixo transparente e limpíssima. Cardumes de pequenos peixes nadavam habilidosos na correnteza, as laterais do rio salpicadas de pedras com variados tons de cinza e de vários formatos. O sol naquele manhã brilhava intensamente, ainda que tivesse um pouco frio, e o céu emanava um azul intenso. Apoiei na lateral da ponte e olhei para cima, para as montanhas que compunham a paisagem da Vila dos Açoitados. Meus olhos fisgaram pássaros voando de árvore em árvore, balançando gentilmente os galhos. Um casal de tucanos rasgou o céu de forma majestosa, os bicos longos e laranjas contrastando com suas penas negras. Lá no fundo da paisagem, entre os morros altos, se destacando entre o mar de tons verdes, chamando a atenção para si com seu copa enorme acima das outras árvores, estava ela.

A cerejeira.

Não era um árvore normal. Seu tamanho se sobrepunha a mata ao redor, os galhos se esticavam para muito além do tronco principal, como um enorme guarda-chuva. Com a chegada da primavera, logo ela estaria desabrochando em uma espetacular mancha rosa em contraste ao verde selvagem sem fim das montanhas. Vista de longe, era uma popular atração turística dos conhecidos da região, que adoravam tirar fotos. Sua figura imponente era também devido ao fenômeno curioso que nunca foi bem explicado: em um raio de cinquenta metros ao seu redor, nada mais crescia, nem mesmo grama, como se ela sugasse todos os nutrientes do solo e matasse qualquer vegetal que ousasse se desenvolver perto dela. Claro, a falta de grama não dava para ver daquela distância, mas era bem visível a falta de outras plantas perto de si. Por isso ela ficava exuberante quando todas suas flores finalmente saíssem. Não tinha mais ninguém para competir com ela.

De qualquer forma, para os habitantes do vilarejo ver a cerejeira todos os dias era algo banal. De longe. Todos os moradores conheciam a árvore, todos eles admiravam sua beleza, mas havia uma regra, ecoada há muito, muito tempo. Jamais se aproxime da cerejeira. Nem que sua vida dependesse disto. Pior. Mais ainda se sua vida dependesse disto*.*

Cheguei do outro lado da margem. Era um típico centro de vilarejo rural, uma pacata pracinha para os senhores jogarem dominó ou mahjong ou truco enquanto tomavam uma breja comprada no Kisaragi. Bancos de praça e equipamentos de exercício eram a principal mobília, e claro, não havia nada para as crianças. Árvores encobriam a pracinha dando uma sombra razoável. Em um dos lados da praça estava anexada uma pequena igreja cristã com arquitetura milenar, de pedra, com um grande vitral colorido no meio de duas torres. Estreitas ruas de paralelepípedo circundavam a praça em um retângulo, onde ficavam pequenos comércios que atendiam o dia a dia da população: alguns botecos, o posto de saúde, uma casa para uso da prefeitura, uma loja de roupas, uma farmácia, um pequeno restaurante, um pequeno estacionamento, uma loja de bugigangas. Nada muito sofisticado. Tirando o posto de saúde, os demais comércios não tinham muito horário para abrir ou fechar, e nem precisavam, se alguém precisasse de alguma coisa era só bater nas portas das casas dos donos que provavelmente atendiam já que muitas lojas eram grudadas às casas dos moradores. Ou ao contrário, se encontrasse alguma loja vazia talvez precisasse tocar uma campainha para alguém vir atender. Ao menos, essa era umas das vantagens de cidades no cu do mundo. As pessoas se conheciam e confiavam uma nas outras de tal forma que raramente crimes pequenos como furtos aconteciam.

Naturalmente, sendo nem nove da manhã, alguns senhores já estavam sentados nos bancos da praça ou usando os equipamentos. Alguns deles me cumprimentaram, afinal, em cidade pequena todo mundo conhece todo mundo, e assim que passei da pracinha a parte movimentada do vilarejo havia acabado. Finalmente botei os pés na estrada de terra que levava até a escola. Para um novato, o morro logo na minha frente podia ser intimidador, mas depois de dez anos fazendo o mesmo caminho todos os dias era que nem lavar a louça, incomoda mas se acostuma. Quase chegando na parte de cima do morro, sob as sombras de algumas árvores, uma voz entusiasmada veio detrás de mim.

— Manuelaaaaaaa.

O “a” ecoou. Girei e vi uma garota de pele bronzeada, o cabelo castanho cuidadosamente ondulado destacado com mechas loiras, os braços enrolados em bijuterias coloridas, os cílios longos e postiços, o rosto retocado com maquiagem evidente porém sem exagerar, os lábios cor de rosa. Um símbolo da beleza extravagante interiorana. Coincidentemente, também era a minha melhor amiga, Mariana.

O uniforme escolar caía muito bem nela, dava um aspecto bem informal. Ela tinha encurtado a saia o suficiente para revelar a parte de baixo da coxa mas não tão curto o suficiente para receber uma advertência. A camisa era levemente folgada para lidar com o calor. Sua mochila escolar era tão customizada quanto seu corpo, colorida e cheia de adereços que fazia pesar o dobro, embora nunca a tenha ouvido reclamar de dor na costas — talvez quando chegasse aos setenta anos de idade. Se aproximou de mim com a energia de sempre, indiferente à minha falta de vaidade naquela manhã.

— Ué, estava atrás de mim o tempo todo? — tive que forçar a voz porque ela estava ainda distante.

— Sim, sou sua perseguidora maníaca. De mim não escapa mais — e deu uma piscadela, se apressando e vencendo o morro.

Mariana não era uma garota fútil, muito pelo contrário. Além de ser esperta e versátil em sair de situações difíceis, eu considerava ela bem mais inteligente e madura do que eu, muito mais focada e obstinada. Sua maior arma era uma metralhadora verbal cheia de balas prontas para atirar. Aliás, nossa amizade começou exatamente por causa dessa metralhadora.

Lá pela sétima série, meu jeito retraído e bobinho tinha se tornado minha grande fraqueza, atraindo uns tipos que pareciam me odiar. Não conseguia reagir muito bem aos insultos e me sentia indefesa quando zoavam com minha cara. Um certo dia, lembrei da minha vó que tinha morrido um tempo antes e comecei a chorar sozinha num canto qualquer da escola. Um grupo de moleques me viu de canto e vieram para cima de mim para encher o saco, apontando o dedo e me chamando de bebezona, fracote, criança que faz xixi na cama e outros insultos infantis. Do meu ponto de vista, eles eram gigantes, três monstros enormes fazendo sombra bem na minha frente. Estava com medo. Mas, do nada, surgiu uma silhueta demoníaca de olhos fulminantes atrás deles, ajeitando os punhos. Num piscar de olhos dois dos moleques já estavam caídos no chão, implorando por suas mamãezinhas, enquanto o terceiro cambaleou em direção à porta da sala, trombicando com carteiras. A sombra ameaçadora estendeu a mão para que eu me levantasse, mas assim que me coloquei de pé ela me disse algo que nunca esqueci:

— Quer saber, tô cansada de ter ver você se amedrontar com eles. Dá próxima ou dá um murro neles ou eu quem vai te dar um murro.

Estávamos indo embora do centro da confusão quando os moleques soltaram uma torrente de insultos contra Mariana e eu. Além de devolver as ofensas, ela ainda ameaçou com a boa e velha violência física. Depois disso, me deixaram em paz e nunca mais mexeram comigo. Misteriosamente, no ano seguinte, eles saíram da escola. Se houve algum dedo de Mariana nisso, nunca fiquei sabendo e preferi não perguntar.

— Tem horas que você me dá medo.

— Melhor eu te perseguindo do que um cara aleatório.

— É exatamente disso que estou falando…

Ela riu e puxou minha mão. Não sei porquê mas olhei para trás, como se algo tivesse chamado minha atenção. Ainda faltava quinze minutos até a escola e logo, logo passaríamos em frente ao caminho que levava até a cerejeira: a Trilha dos Desenganados.