O céu estava encoberto. As nuvens variavam em tons de cinza, mais escuros e mais claros, sempre achando todos os tons feios. Uma leve garoa molhava o para-brisa do carro enquanto o limpador já desgastado riscava o vidro com um ruído irritante. O carro desacelerou e assim que estacionamos Vô Joaquim saiu do lado do motorista, abriu minha porta e me retirou da cadeirinha, me colocando em seu colo. Vó Teresa saiu do lado do passageiro e acessou o porta-malas, retirando uma coroa de colorida de flores em formato de rosquinha. Meu vô me carregou, atravessamos um portão e ficamos esperando em um gramado meio sem graça e mal cuidado onde lá no fundo tinha uma construção de telhado verde arqueado, apontando para o céu. Vidros coloridos decoravam a parede abaixo do telhado. As portas da construção estavam abertas com uma pequena multidão nos olhando como se nos esperassem. Meu vô aguardou a vó trazer a coroa de flores e quando ela chegou, andamos juntos até a capela e em sua porta ele me colocou no chão, cansado de me carregar. As pessoas cumprimentavam eles com olhares cabisbaixos e apertos de mão, mas quando se aproximavam de mim abriam sorrisos esquisitos enquanto diziam que menina bonita eu era. Balbuciei algumas palavras de volta um pouco desconfortável com tanta atenção porque as faces me eram praticamente desconhecidas. Meu vô deve ter percebido que eu estava acanhada e silenciosa demais e pediu para que eu respondesse com educação as outras pessoas. Tudo que eu podia dizer era “brigada”. Eu queria estar em casa brincando de casinha ou pintando algum caderno de desenhos, mas fui arrastada para aquele lugar desagradável.
Enquanto eu assistia os meus avós trocando palavras com aquelas pessoas, um homem se aproximou de mim. Estava bem arrumado, vestindo um terno escuro sem gravata, tinha uma barba quadrada e os olhos profundos. Ao mesmo tempo, uma mulher se aproximou de Vô Joaquim e Vó Teresa, chamando sua atenção, que começaram a conversar com ele. O homem agachou na minha altura e então me perguntou:
— Como se chama?
Olhei para o chão, tímida, me sentindo estranha. Juntei as mãos e escondi atrás de mim. Era mais uma pessoa desconhecida dentre muitos, mas tinha algo nele que me deixava inquieta. Os outros tinham me cumprimentado com um sorriso estranho, mas esse homem, seu sorriso era… diferente. Artificial. Eu não conseguia olhar para seu rosto que acabei olhando para o chão.
— Manuela — respondi. Afinal, meu vô tinha me dito para responder com educação.
— Que nome bonito. Quem te deu?
— Acho que… acho que foi minha mãe.
— Sua mãe, ela foi uma grande amiga, sabia disso? Será que você pode ser minha amiga também?
Senti um cheiro incomum. Parecia vela queimando, mas não exatamente. Era levemente doce, um aroma herbal. Incenso. Duas mãos esticaram surgiram diante de mim e o homem pediu para que eu escolhesse uma delas. O silêncio da última pergunta ainda estava no ar e fiquei pensando. Girei para meus avós, de costas, ainda conversando com a mulher. Não poderia a ajuda deles. O que aconteceria se escolhesse errado? Será que o moço ia brigar comigo?
Ohomem deve ter percebido minha indecisão e balançou a mão direita. Eu deveria seguir o sinal, pensei, e apontei para a mão, que se abriu revelando um objeto de cor rosa suave e delicado muito bonito que nunca tinha visto na vida. Uma flor. Um pouco amassada, mas era uma flor, que peguei para mim. Então, ele me disse:
— Guarde muito bem, com muito cuidado. Um dia você será tão bonita e cheirosa quanto essa flor.
Agradeci timidamente, sem levantar os olhos e coloquei no bolso da calça do macacão. Antes de se levantar o homem então aproximou do meu ouvido e me disse com uma voz pacífica:
— Essa flor significa que somos amigos.
Ele se levantou e se aproximou da mulher. Ele cumprimentou meus avós e junto da mulher saíram da capela. Levantei meu rosto a tempo de perceber que ele continuava sorrindo.
Vô Joaquim me chamou e me aproximei. Quanto mais para dentro da construção, mais frio e desconfortável ficava. O lugar era simples, tinha algumas cadeiras de madeira, algumas esculturas medonhas sobre prateleiras presas nas paredes, bonecos em formato de anjos presos às paredes. No meio do salão, uma caixa de madeira escura, retangular, que meu pequeno tamanho não me permitia ver o que tinha dentro, mas flores brancas nas bordas pareciam transbordar. Sentia um cheiro estranho sujo e enjoativo e algumas pessoas rodeavam a caixa, que parecia ser o centro das atenções. Quando percebi, no alto de uma parede, acima de um palco, algo pendurado me assustou: a estátua de um homem com os pés e mãos sangrando, o corpo pregado numa cruz. Ele estava pelado na parte de cima, vestindo apenas uma calça rasgada. Seu rosto era de sofrimento. Fiquei com medo e me escondi atrás de meu avô, puxando sua jaqueta já desgastada. Apontei para estátua e ele me disse que não para ter medo, tentando me explicar que aquela estátua representava Jesus, que ele era um homem muito importante para muitas pessoas, que ele representava a fé.
— Mas se ele é importante, por que ele tá sofrendo?
Perguntei, já sentindo a garganta torcer, mas engoli o choro porque fiquei com medo de ser repreendida.
— Por que ele se sacrificou por todos nós, Manu. Por isso ele é tão importante.
Não tinha entendido direito a resposta do meu avô, mas sem mais a dizer ele me pediu para que eu esperasse sentada em uma das cadeiras. Virei para fora, vendo uma chuva fina cair e molhar a grama enquanto os carros passavam ao fundo com os faróis brancos acesos. Vô Joaquim e Vó Teresa ficavam ao lado da caixa, olhando para ela, passando a mão sobre sua superfície. De novo estavam de costas para mim, como se tivessem obcecados por aquela coisa no meio do salão. Estava ficando entediada, as pernas balançando na cadeira alta para meu tamanho. Abri um enorme bocejo. Depois de um tempo, um homem vestindo uma roupa branca, parecendo uma saia bem longa, com um cachecol verde ao redor do pescoço, apareceu e subiu no pequeno palco. As pessoas que estavam no salão se sentaram nas cadeiras vazias e quando todas ficaram ocupadas se viraram de pé para o palco. O Senhor Jesus na cruz logo acima dele me assustava então não conseguia olhar direito para o homem. Ele começou a dizer várias coisas longas e complicadas, e de vez em quando as outras pessoas respondiam dizendo “amém” ou “Glória ao Senhor Jesus Cristo”. O homem segurava um livro escuro na mão com uma cruz dourada na capa. Tinha reparado que muitas coisas naquela capela tinham cruzes. Era o sinal daquele lugar estranho. O homem continuava a falar sem parar e estava com vontade de ir embora. Cheguei perto do meu vô, puxando sua jaqueta.
— Estou cansada, quero ir embora.
— Espera um pouco neta, — meu vô se abaixou — o padre está falando.
Eu apontei para o homem no palco.
— Esse cara se chama padre?
— Ele não se chama, é o padre. Fica um pouco em silêncio por enquanto, senta ali, neta.
Então o padre olhou para mim, interrompendo sua fala. Assim que percebi a cruz logo acima dele, virei o rosto, com medo.
— Você é Manuela, minha filha?
Fiquei com vergonha, não respondi e afundei meu rosto na jaqueta.
— Parece uma menina tímida — o padre continuou. — Que na benção de Deus e do vosso Senhor Jesus Cristo, Seu Joaquim e Dona Teresa possam te oferecer todo o amor para curar o seu pequeno coraçãozinho. Que eles sejam sua força para se torne um menina forte, saudável e sobretudo, iluminada pela glória de Deus. Por que as crianças, os seus filhos, serão o que levarão o vosso legado depois de serem recebidos no Reino do Céus.
O padre continuou falando, enquanto eu mantinha os olhos fechados junto do meu avô. Ele falava de Deus e de céu e de anjos e de salvação e do cara chamado Jesus, o mesmo que estava pregado e sangrando. De vida e morte e luz e pecados e carneiros e ressurreição. Então, no meio desses palavrões todos, finalmente ele disse algo que pude entender com clareza.
— …para que Jesus receba de braços abertos Meire Fujiwara dos Santos…
Meu sobrenome também era Fujiwara dos Santos. Meu vô me abraçou com mais força e percebi que tanto ele quanto minha vó estavam com os olhos avermelhados. Vó Teresa até levava um lenço branco aos olhos. Algumas pessoas estavam fungando, como se tivessem resfriadas. Quando o padre terminou de dizer as palavras difíceis, agradeceu a todos e desceu do palco. Na saída, colocou as mãos sobre minha cabeça e disse.
— Que Deus a abençoe.
E foi embora.
Não era resfriado. Minha vó estava chorando de monte e tinha se voltado para a caixa, acariciando algo cujo interior ainda era um mistério para mim. Algumas pessoas sussurravam, outras ficavam em silêncio ao redor, enxugando os olhos. Uma pessoa reacendeu algumas velas que tinha se apagado num porta-velas. Havia um silêncio de deixar vazio no estômago.
Vô Joaquim estava sério, a cara fechada, mudo quando minha vó quase deitou em cima da caixa, se debulhando em lágrimas, dizendo o quanto ela a amava e como se sentia culpada por isso. Seu tom de voz trazia um incômodo, um gelo na espinha. Tudo naquele lugar me sufocava, era desagradável, eu estava ficando emburrada e assustada e reclamei com meu avô para me levar para fora dali.
Porém, ele se agachou na minha altura, o olhar sereno e falou de um jeito macio e confortável.
— Manu, vem cá. Vamos dar tchau para a mamãe?
— Mamãe tá aqui? Ela vai pra onde? — ninguém tinha me dito nada sobre mamãe. Aliás, fazia um bom tempo que eu não a via. Já estava morando com meus avós praticamente há um ano.
— Ela está aqui. Mas ela… foi embora. Ela está dormindo. Até agora não soube como explicar isso, mas sua mãe… Ela não vai mais voltar. Sei que é muita nova, Manu, me desculpa. Não soube te dizer de outro jeito.
Ele me pegou no colo e tocou no ombro da minha vó que se afastou, continuando em prantos. Quando tive a visão de gente grande, finalmente pude enxergar com clareza o que estava naquele caixa.
Mamãe estava dormindo pacificamente. Seu rosto estava bem pálido, talvez estivesse doente. As mãos estavam apoiadas sobre o peito. A rosquinha de flores apoiada em um tripé, próxima da cabeça, como se fosse uma aura de anjo. Ela vestia uma roupa branca sem graça que não parecia em nada com um pijama. Era o rosto da minha mãe, sem dúvida, mesmo que não há a visse há um ano.
— Vovô, mamãe está dormindo? — apontei.
— Está sim — ele respondeu, sorrindo.
— Então, dar tchau pra quê?
Ele acariciou minha testa e tomou minha mão. Um silêncio de perfurar a pele antes de ele responder.
— Porque… sua mãe vai dormir pra sempre. Ela está descansando.
Minha vó soltou um urro de choro novamente, espremendo os olhos e acariciando o rosto de mamãe. Dentro de mim estava inquieta, quando tinha chegado naquele lugar havia um desconforto que tinha algo errado mas não sabia muito bem o que estava errado. O salão frio, as pessoas desconhecidas, o homem da flor, as estátuas assustadoras, o homem de saia, minha vó chorando, minha mãe dormindo numa caixa de madeira que lembrava uma cama era decorada com flores. O dia estava feio e cinza. Eu estava começando a sentir frio. Por que é que mamãe nunca mais iria acordar? Ela estava doente? Ela esqueceu de colocar o despertador? Mamãe estava presa dentro de um sonho que nunca ia acabar?
Eu observava o corpo repousando envolto em travesseiros brancos. Mais do que medo, estava confusa, curiosa, tentando entender. O que dava medo eram as cruzes que decoravam a capela. Se eu talvez encostasse em suas bochechas eu poderia fazê-la despertar. Estendi meu braço em sua direção e meu vô deve ter percebido o que eu queria fazer e me aproximou ainda mais. Meu pequeno indicador encostou em sua bochecha e senti a ponta do dedo congelar. Não era nada como uma pessoa de verdade. A pele estava rígida, ressecada, fria. Ela não se moveu um milímetro e continuou dormindo como se nada tivesse acontecido. O que entendia era que do jeito que ela dormia ali, minha mãe tinha deixado Vó Teresa bem triste e as outras pessoas também.
Minha vó segurou minha outra mão. Seus olhos estavam lacrimejados e seu rosto avermelhado. Já tinha chorado horrores até então, seus urros e soluções eram como pontadas em mim. Ela me tomou em seu colo e me abraçou, em silêncio. Um forte e morno abraço, que retribuí me envolvendo em seu pescoço. Não gostava de ver a Vó Teresa triste.
Algum tempo depois, alguns homens chegaram e colocaram uma tampa sobre a caixa que minha mãe dormia. Eu ainda tentei esticar a mão em sua direção, mas minha vó se afastou da caixa e saímos do salão, enquanto escutava o barulho dos homens fixando a tampa. As outras pessoas desconhecidas também se juntaram do lado de fora, esperando algo acontecer.
A fina chuva beliscava meu rosto. Um vento frio chato soprava, atravessando meu casaco e me fazendo tremer. Reclamei com meu vô mas ele insistiu que precisávamos esperar um pouco, que logo iríamos embora. Estava em seu colo, confortavelmente, processando o que tinha visto. Abrimos passagem e os homens que tinham entrado para fechar a caixa agora a carregavam para fora da construção, com a nossa pequena multidão seguindo atrás deles. Conforme caminhávamos, atravessamos um caminho de jardins com as flores murchas e as árvores sem folhas. Uma paisagem feia. Logo, o jardim se transformou em um campo de pedras, que se estendia a perder de vista, formando como se fosse ruas e quarteirões. Não achava muito bonito, e tinha algumas árvores espalhadas entre essas pedras, quebrando um pouco a repetição do lugar. Havia pedras cinzas, brancas e marrons em formatos retangulares, fazendo arcos, em formato de cruzes, de todo jeito, fincadas em pé no chão ou deitadas. Em cima delas, buquês, flores amassadas, garrafas de bebidas, envelopes. Em várias dessas pedras tinha fotos, nomes, data e outras coisas escritas, esculpidas. O que mais me assustavam era as pedras em formato de cruzes, geralmente de cor cinza deixando tudo ainda mais feio.
Finalmente, paramos em frente a um grande buraco no chão. Uma pequena pedra em pé, arredondada em cima, mostrava uma foto em preto e branco de uma mulher e alguma coisa escrita em baixo. A foto era da minha mãe. O mesmo homem de saia branca e cachecol que tinha falado e falado momentos antes apareceu de novo, dizendo para que nós déssemos o último adeus a Meire, enquanto os homens enrolaram algumas cordas ao redor da caixa e começaram a descer em direção ao buraco.
— Vô, por que tão descendo a mamãe? — ao mesmo tempo observei minha vó enxugar os olhos com um lenço.
— Porque ela vai descansar, como te disse.
— Então quer dizer que nunca mais vou ver ela? — meu rosto tremeu.
Vó Teresa colocou a mão em seu próprio rosto e aproximou de mim.
— Manu, um dia todos nós vamos encontrar com ela de novo… Vai demorar muito tempo, mas nós vamos, todos nós, juntos, estou certa disso — ela disse com a voz rouca, seu cabelo com mechas brancas balançando ao vento.
— Vai ser amanhã? — perguntei de volta.
— Um dia. Será em breve.
Um dia. Mesmo que fosse muito nova, “um dia” me parecia muito distante, o equivalente a mil anos, não poderia ser o mesmo que breve. Observei os homens descendo a caixa no buraco, as cordas deslizando pelas suas mãos. Um buquê de flores que foi jogado por alguém caiu em cima da caixa. Assim que chegou ao fundo, homens usaram pás para tirar terra de um monte e jogar por cima da caixa, machucando as flores.
Eu tinha vivido por menos de três anos de vida com minha mãe. Mesmo que lembre muito pouco dela, naquele momento, ao ver seu corpo sendo recoberto pela terra vermelha que me caiu a ficha. Pessoas não vivem debaixo da terra, e se ela estavam fazendo isso com ela era porque ela já estava morta. Por isso ela dormiria para sempre.
Nste momento, senti um raio me atravessar. Finalmente, soltei um grito de tristeza, meu rosto trêmulo cedeu em lágrimas e chorei como uma verdadeira criança, de forma birrenta e aguda. Não lembro de meus avós pedirem para eu me calar ou tentarem me acudir, Vó Teresa apenas apertou mais forte, me envolvendo. Eles apenas deixaram que eu chorasse e gritasse e berrasse e chorasse. Era o momento para isso. Hoje sei que não importasse o quanto eu chorasse, a dor deles tinha sido muito maior do que a minha. Afinal, naturalmente se espera que nossos pais partam antes de nós e não ao contrário. Uma dor que espero nunca ter que sentir.
Finalmente o buraco estava coberto. Homens arrastaram uma grande placa de pedra branca por cima. Somente isso, uma tampa de pedra, uma lápide de pedra. Sem cruzes ou ornamentos complicados. Era o que nós podíamos pagar que ainda sim respeitasse seu legado.
Aos poucos, o grupo de pessoas se desfez, se despedindo dos meus avós, às vezes também se despedindo de mim e desaparecendo para algum lugar. Eu já tinha chorado o suficiente e estava cansada. Minhas pálpebras estavam pesadas. Minha vó finalmente me passou para meu vô que decidiu andar comigo um pouco pelo lugar.
Eu me sentia mal, fisicamente. Meu corpo balançava apoiado no braço de meu avô que parecia incansável. Ele continuou andando à perder de vista, parecia andar a esmo pelos gramados e lápides sem fim. Garoa incessante. Vento incansável. Chegamos a um lugar que se assemelhava a um pequeno bosque com algumas árvores com folhas marrons e outras árvores cujos galhos se retorciam para cima, como um guarda-chuva ao contrário. Adentramos o bosque, eu observava as copas encobrirem o céu nublado tomando tons azulados, passando uma sensação que o dia estava virando noite. Os passos do meu avô faziam um som estranho ao pisar no chão molhado. Pelo menos, o cheiro agora era de mato e não mais aquele aroma enjoativo que tinha no salão.
Subitamente, Vô Joaquim brecou. Eu estava em seu colo, a cabeça apoiada no ombro, virada para trás. Ele sussurrou algumas palavras que não entendi direito, deu meia-volta e me disse:
— Já andamos demais. Vamos voltar.
Ele acelerou o passo. Com meu rosto virado para o outro lado eu percebi, no meio do bosque de folhas caídas e árvores tristes, que havia uma árvore completamente diferente de todas as outras. Estava sem folhas, mas ao contrário das demais, estranhamente estava florindo. Suas flores com pétalas cor rosa bem clarinho contrastava com aquele céu terrível de final de inverno. O chão ao redor de seu tronco estava recoberto pelas por pétalas caídas reviradas na lama. Uma chave virou em mim e fiquei imediatamente desperta, observando aquela árvore que nunca tinha visto antes. Uma árvore que chamava a atenção. Bela.
— Vô, vô, que árvore é aquela? — disse com a voz fraca, ainda não tinha me recuperado completamente dos berros.
Os passos apressados pararam. Ele me afastou um pouco para que pudesse ver meu rosto e pela primeira vez naquele dia ele falou com uma voz dura e ameaçadora.
— Digo uma coisa, Manu. É uma cerejeira. Nunca, jamais se aproxime de uma.
— Eles são perigosas?
— Minha neta… elas são, elas são. Levam as pessoas embora.
Reparei na cor das flores. Lembrei que tinha a mesma cor da flor que o homem de barba quadrada tinha me dado. Se esta árvore leva as pessoas embora, quer dizer que…
— Isso é dela? — tinha tirado a flor do bolso e mostrei para meu vô. Estava amassada e faltando pétalas, mas ainda era reconhecível — é a mesma flor daquela árvore? Por isso que mamãe foi embora?
Seus olhos se tornaram questionadores e arregalaram.
— Onde arrumou isso, Manu? — perguntou, bravo.
Eu estava assustada. Não era o jeito normal do Vô Joaquim de falar assim comigo.
— O moço me deu. Não fica bravo comigo, vovô…
Fiz beicinho como se fosse chorar de novo, esperando ser repreendida. Ele então apenas pegou a flor da minha mão, amassou entre os dedos e jogou longe.
— Não, Manu, não foi por culpa sua. Não foi culpa sua… — depois disso ele ficou em silêncio até retornar ao carro.
Eu tinha nem quatro anos de idade.
Era a primeira vez que tinha visto uma cerejeira.
Não só isso, estas foram minhas primeiras memórias. Pelo menos, é o que acho. Naturalmente, como faz tanto tempo e eu era pequena, não consigo nem provar que as coisas aconteceram deste jeito. Pode ser apenas minha imaginação, cobrindo lacunas de um dia traumático, já que nunca conversei sobre o dia do enterro de minha mãe Meire. Mas estas supostas recordações de vez em quando me perturbavam, me fazendo acordar no meio da noite. De qualquer forma, é pesado para uma criança que a primeira coisa que lembre de sua vida tenha sido um dia fúnebre e chuvoso. Ironicamente, nada era mais vívido do que aquela cerejeira florindo onde tudo mais estava morto, nada mais colorido onde tudo mas era preto e branco. Trazia conforto onde tudo era dor. Talvez fosse por isso que a versão criança de mim desejou tanto por aquela árvore, destoando da paisagem. Se eu soubesse, ah, se eu soubesse, eu poderia ter feito as perguntas que eu gostaria enquanto ainda dava. A resposta, no final, estava perto de mim o tempo todo. E esta ignorância me cobrou um preço alto demais.
Hoje sei a origem da maldição que permeia todas as tragédias da minha família. Algo tão sublime e delicado que ao mesmo tempo encanta milhões de pessoas e é símbolo na primavera, das belezas naturais da Terra, esconde uma cadeia de infortúnios e segredos terríveis. Hoje considero a cerejeira uma espécie invasiva que devora tudo que está à sua frente. Há quantos por aí que nem eu, também lamentando não terem conhecido antes a verdade por trás dessa árvore.
Chame do que quiser. Prunus speciosa. Prunus serrulata. Prunus japonica. Sakura. Cherry blossom. Cerejeira. Não importa. Uma vigarista alienígena semeadora de escuridão, sofrimento e fenômenos inacreditáveis. Uma entidade cujas raízes manipulam muito mais do que o mundo físico entre céu e terra. Quem se envolve com ela jamais escapa de seus ferrenhos tentáculos.
Eu me tornei mais uma vítima da maldita Cerejeira.