I
Acordei bem preguiçoso. As pálpebras se recusavam a abrir e as pernas estavam pesadas. O calor debaixo do edredom me acorrentava no colchão, macio como o fundo do mar. Um raio solar invadia o quarto e abrilhantava as paredes, só que não havia um pássaro sequer a cantar. Tive imensa dificuldade em guardar coragem suficiente para que no impulso pudesse saltar da cama. Eu tinha esse pequeno problema ao enfrentar o terrível monstro da letargia. Minha solução era rolar de um lado para outro que nem um balanço, certo que ganharia a coragem que precisava.
Funcionou. Não do jeito que queria, meu corpo flutuou no ar por frações de segundo até estrebuchar no chão duro e frio. Encolhi da dor de bater o cotovelo e soltei um xingamento. Tinha ganhado a batalha por um mero acidente, um acaso da roda do destino.
Do lado de fora, as poucas árvores ornamentando a paisagem tinham mais folhas no chão do que nos galhos. Um amontoado de prédios com as paredes de concreto sujas, trepadeiras que subiam tantos metros quanto fossem e tufos verdes que cresciam em qualquer fresta que encontravam. As vagas de estacionamento eram tantas, mas pouco ocupadas, apenas um punhado de carros espalhados bem combalidos. Não se via uma alma viva, muito menos morta, nem os latidos dos cachorros, nem o miar dos gatos, nem o barulho dos motores. Ao mesmo tempo pacífico, ao mesmo tempo melancólico.
Assim era todos os dias desde o Dia Que Tudo Mudou.
Desde então, estava preso neste lugar. Por cinco anos tive acorrentado neste canto do mundo, sozinho, me agarrando numa esperança tola de tudo voltar ao normal. Mas depois de cinco anos, quem acreditaria nisso? No início, claro, pensei que era apenas um incidente qualquer, algo que a humanidade venceria no final. Não foi assim com a peste negra, a gripe espanhola, as guerras mundias e a covid? Tudo tinha prazo de validade, só não sabíamos o quão longo. Porém, desta vez, foi diferente. Em algum ponto durante este tempo de certa forma aceitei que a minha vida, a nossa vida, jamais seria a mesma. Deixei de questionar os motivos e as explicações. Não me esforçaria mais. O que viesse era lucro. O que já foi era prejuízo realizado. Viveria baseado apenas no meu instinto primal de sobrevivência e nada mais. Algo que para muitos seria uma perspectiva cruel ou deprimente, mas na situação que estava só sobrou fazer as pazes com o destino. A partir daí tudo fica mais fácil. É como navegar em um barco sem motor, deixando as correntezas te levar ainda que em círculos. Que seja. Esta maldição, destino, sina, provação, como queira chamar, não tinha recaído só em mim. Embora fosse um bocado egoísta ao pensar isto, saber que muitos outros estavam na mesma situação dava um pouco de conforto. Um conforto meio errado, mas dava. Espero não ser muito julgado.
Ainda descarregando expletivos, me pus de pés e fiz minha primeira hora do dia uma recorrente sequência de exercícios. Pernas, braços, tronco, peito, o que eu conseguisse fazer com alguns pesos roubados e máquinas improvisadas. Os equipamentos tomavam uma boa parte da sala, mas não era como se eu fosse receber visitas. Meu maior arrependimento era não ter começado antes. Ainda que eu fosse preguiçoso pra caramba e o treino desconfortável e dolorido, o cérebro recompensava com um bem-estar pós-treino relaxante. A sensação de ter a mente afiada e esperta. Se não fosse por isto, já teria…
Retirei duas fatias de pão de uma sacola e uma fatia de queijo da geladeira, desligando o equipamento logo em seguida. Estava se aproximando da minha cota de energia do mês e de qualquer forma o blecaute duraria até o final da tarde. As bactérias adoravam esse regime, embora eu nunca tivesse passado mal comendo as coisas de geladeira armazenadas assim. Eu adorava queijo e felizmente ele resistia muito bem a temperaturas menos glaciais. Era só controlar a quantidade de vezes que abria a porta da geladeira.
Decidi dar uma longa caminhada. Três horas no mínimo. O suficiente para sentir os músculos da perna gritarem. Iria seguir a curva do rio até o seu delta, onde ele desaguava no mar. Usei meu dedo de termômetro botando para fora da janela e calculei 18,883 graus, exatamente. De café tomado, fui até o banheiro me arrumar.
O espelho tava quebrado. O canto superior direito completamente estraçalhado, como se fosse uma teia de aranha se irradiando da extremidade. Um falha geológica atravessava sua superfície, quase separando completamente em duas partes. Olhei para mim mesmo, as metades da face desalinhadas, já acostumado com essa visão. Levei os dedos às bochechas, seguindo o contorno do rosto até o queixo. Tinham sido só cinco anos mas parecia dez. A maciez da pele dava lugar a leves marcas de expressão, alguns fios de cabelos já tinha se tornado brancos. Não era somente Tudo que tinha Mudado, eu também tinha mudado. Duvidava que existisse algum ser humano que conseguiria por tanto tempo viver sob aquelas condições sem ao menos o corpo começar a cobrar. Imaginava como seriam os próximos cinco, se apenas me entregaria à sorte ou se finalmente tomaria coragem de largar meu apartamento e me aventurar pelo mundo afora. De novo. Já estava cansado de assistir ao sol nascer acima das paredes de concreto.
Inspirei profundamente. Melhor esquecer esses pensamentos, ou seria incapaz de dar começo a um novo dia.
Realmente, eu ainda me agarrava a uma esperança tola.
II
O calçadão era tão extenso quanto o rio. Uma parte de sua largura era reservada para ciclistas, mas ultimamente tinha visto muito pouco deles. Paralelo ao calçadão, uma linha de trem desativada com os trilhos enferrujados e o mato dominando os espaços entre os dormentes. Alguns fios estavam caídos sobre os trilhos e me perguntava se não davam choque nos horários que a eletricidade era reestabelecida. Do outro lado, estava o rio com quilômetros de largura, a água de cor escura refletindo o cinza do céu parcialmente nublado. A margem oposta era povoada em parte por construções decadentes e pichadas, e em parte por outras ainda funcionais, como um porto vazio e alguns silos cilíndricos. Atrás de mim, ao longe, bem ao longe, uma ponte quase vazia ligava as duas margens. De vez em quando um veículo solitário insistia em atravessar as barricadas militares. Mas estava tão longe que nem escutava som de motor algum. Um vento frio de outono me fez arrepiar, mas se essa era minha companhia, que fosse. Fiz um breve aquecimento, mexendo rapidamente as pernas e quando me senti preparado olhei os ponteiros do relógio. Três horas, no mínimo, era minha meta naquele dia.
Para dizer a verdade, somente os doidos se submetiam a tortura de uma caminhada sem sentido. Tentava me convencer que estava me preparando para um dia retornar ao meu verdadeiro lar, nem que eu precisasse andar com minhas próprias pernas pelo globo inteiro. Era uma mentira, claro, quando tinha um oceano pela frente. Tentei inventar desculpas menos esfarrapadas, do tipo, que era para meu físico não ceder, meu psicológico não degringolar, para entrar em contato com os poucos outros corredores que de vez em quando faziam o mesmo trajeto. Mas a verdade mesmo era que simplesmente buscava emular a normalidade de antes do Dia Que Tudo Mudou. Se ao menos relembrasse um pouco todas as vezes que corria naquele asfalto antes do Dia, poderia até me ajudar a não ficar louco. Um pequeno tributo que passaria batido em outras situações.
Chega de filosofar. Depois que me corpo se aqueceu, não havia nada mais a incomodar com o vento frio e senti uma energia fulminante. Minhas pernas saltavam sobre nuvens fofas, me levando para frente de forma leve. Quando as ondas do rio batiam contra os arranjos de pedras à beira do calçadão, levantava uma névoa úmida com cheiro salgado. Embora o rio fosse de água doce, eu já estava bem no seu delta e a água misturava com a do oceano. A ponte ficou para trás, o trilho de trem se enfiou em um túnel qualquer, algumas gaivotas choravam na beira do rio procurando por comida em sua superfície. O sol tímido se revelava aos poucos, irradiando uma misteriosa energia ofuscante sobre a paisagem. Poderia não ser o dia perfeito, mas era o melhor dia naquele dia.
A marina apareceu no meu campo de visão. Conforme corria em sua direção, comecei a enxergar a doca, um pequeno farol, uma biruta. Logo em frente a marina, uma antiga quadra comercial, completamente abandonada, as lojas com os vidros quebrados, as trepadeiras dando voltas pelas construções. Desde o Dia Que Tudo Mudou, muitos lugares que eram vibrantes e turísticos ficaram às moscas. Não havia mais gente suficiente no mundo para consumir seus serviços e nem mesmo para oferecê-los. Ninguém mais ficou com vontade de fazer passeios puramente turísticos. Pior, tinha se tornado bem difícil se movimentar de um lado para outro devido as restrições impostas, se não fosse por isso, eu já teria dado um jeito de retornar.
Atravessei por entre as lojas abandonadas, procurando algum lugar para sentar. Um banco de madeira desgastada surgiu na minha frente, então era ali mesmo que poderia dar uma respirada. Olhei para o relógio e percebi que tinha se passado quase uma hora desde então. Minha respiração estava pesada mas não ofegante, calculei meus batimentos em cento e dez, o suor escorria por todo lado, naturalmente, mas o vento o evaporava. Vi alguns pequenos calangos correrem de um buraco a outro dos vidros quebrados. Uma gaivota pousou em um telhado e faz aquela sujeira que se espera de uma ave. Isso não tinha mudado.
Me virei para a marina. Percebi algo estranho. Havia alguma coisa lá que não estava certa, algo que eu jurava que não tinha visto antes. Levantei e me aproximei das docas, caminhando tão tranquilamente quanto eu pude. Cheguei até um para-peito que separava o chão de concreto da água escura logo embaixo.
Pisquei os olhos. Mordi a língua. A marina, que era estacionamento de barcos detonados e abandonados, estava diferente. Um objeto branco, com a tinta descascada, de vários metros de comprimento balançava delicadamente logo ao lado da plataforma flutuante. Uma cabine se erguia sobre a superfície, os vidros escuros refletindo o céu. Dois enormes mastros apontavam ao céu, cilindros brancos ao lado pareciam lençóis enrolados. Em sua lateral estava pintado em letras garrafais serifadas “Alma”. Cordas laçavam pilastras fixas ao lado da plataforma, segurando o bicho para que não partisse sozinho.
O veleiro era enfeitiçante. A última vez tinha visto um barco funcionando de verdade na vida nem lembrava mais. A quanto tempo estava ali? Quantas pessoas estavam nele? De onde veio? Para onde vai? Quem era o dono? Como que pilotava uma coisa daquelas? Me questionava enquanto apoiei meu corpo contra o para-peito tentando identificar detalhes que me respondessem com satisfação minhas perguntas.
Se ele tivesse vindo do estrangeiro, quer dizer que havia alguma possibilidade de…
Meu pensamento não concluiu. O parapeito enferrujado cedeu. A exata sensação de gravidade zero que tinha sentido de manhã, ao cair da cama. Meu corpo flutuou no ar por décimos de segundos até colidir com a superfície não tão macia e gelada da água. Imediatamente senti faltar de ar, imaginei estar tendo um ataque cardíaco, meus braços balançavam profusamente procurando em o que agarrar mas só senti a parede de concreto que era a fundação da do piso onde estava. Tentava botar a cabeça fora da água mas parecia que uma âncora me puxava ao fundo. Quem dizia que corpo humano boia na água estava mentindo. Só se for um corpo morto.
Neste ponto, eu tenho algo a confessar. Podem rir, podem rir.
Eu não sabia nadar.
III
Senti meu corpo sendo sugado por um grande ralo no fundo do oceano. Estava completamente escuro, minhas pálpebras pareciam coladas. Havia um ruído baixo, grave e constante me aterrorizava, não, pior, me agonizando. Quanto mais me debatia, mais eu era levado em direção ao desconhecido. Era a primeira vez depois do Dia Que Tudo Mudou que senti a morte ao meu lado, pronto para descer a foice. Meu senso espacial estava tão desorientado que era incapaz de saber se meus movimentos desengonçados me levavam para cima ou para baixo. A ironia de ter sobrevivido aquele Dia mas não conseguir vencer as águas de uma marina.
Por que eu estava tão desesperado para viver, mesmo?
Não fazia muito tempo desde o dia em que quebrei o espelho. Se tivesse dado certo eu nem teria oportunidade de vivenciar os horrores de morrer afogado. Talvez, justamente por ter falhado em concluir o plano, devido a uma mera incompetência minha, diga-se de passagem, meu subconsciente tivesse aceitado que precisava continuar. Não tinha muita certeza, não era como se eu fosse um psicanalista. Ou talvez por que quando se faz intencionalmente o cérebro tenta racionalizar os motivos e conclui que as outras opções são piores, se preparando psicologicamente. Sei lá no final. Desde então passei a reparar nessas questões, não que fizesse diferença. O mundo não ia mudar não importa eu que eu fizesse.
Senti algo do meu lado. Um golfinho? Quem sabe, um tubarão? Meus olhos estavam fechados, então o que veio na minha cabeça foi a imagem de um tubarão sorrindo com os dentes afiados e o focinho manchado de sangue, esperando o momento certo para me arrancar um braço ou uma perna. Torci para que me arrancasse a cabeça, assim não precisava sentir muita dor, mas o que eu sabia sobre tubarões era que eram pouco piedosos. Quero dizer, só sabia de tubarões por causa daqueles filmes sanguinolentos, se era verdade que eles torturavam pessoas ou não eu preferiria não descobrir naquele momento. Em seguida, garras envolveram meu braço apertando com vigor e puxaram com força, a ponto de pensar que seriam arrancados na altura do ombro. Meu corpo acelerou enquanto o último gole de ar se exauria.
Com a cabeça fora d’água, as garras se soltaram e eu, quase que inconscientemente, agarrei num objeto à minha frente. Como eu sabia que o objeto estava ali era uma boa questão, porque só lembro da primeira coisa que enxerguei: o céu acinzentado logo acima. Finalmente dei um sonora puxada de ar.
Eu estava abraçado a uma boia. À minha frente, uma mulher agarrada a uma corda me puxava para a plataforma. Seus cabelos encharcados eram dourados e ela vestia uma roupa de surfista. Não, não era bem ela que puxava, ao olhar um pouco mais para cima percebi dois homens agarrados à corda me trazendo junto deles. Quando cheguei do lado da doca, a mulher se virou e me disse:
– Suba.
Um dos homens me estendeu a mão e me puxou para cima, enquanto eu me agarrava à superfície da plataforma. Ainda que a água tivesse fria, estar fora dela foi pior ainda, o vento que soprava congelava até o tutano dos meus ossos. Outro homem surgiu com uma toalha e me envolveu, perguntando se eu estava bem. Meu queixo vibrava tanto que mal consegui responder:
– Es-es-to-to-u.
Como eu era fraco. Que adiantava fazer exercícios, treinar os músculos, correr não sei tantos quilômetros para desabar depois de um pulinho na água gelada?
Aos poucos percebi que era menos por causa do frio e mais por cause do susto, de ter encarado a morte mais uma vez. Se aqueles caras não tivessem me salvado, já tinha dado adeus a este mundo sem graça e solitário. Não era uma grande perda, de qualquer forma. Não sentiríamos falta um do outro.
Enquanto eles me ajudavam a me secar e aos poucos eu me recuperava, uma figura surgiu do outro lado na plataforma, perto do veleiro. As mãos para trás, uma jaqueta alcolchoada preta sobre um vestido azul florido que ia até o joelho, uma longa trança jogada sobre o ombro, o olhar curioso, e nas mãos, um objeto que parecia uma garrafa térmica.
Sua figura… Pensei que nunca mais encontraria este momento. O momento em que algo brota dentro de si e toma o controle da mente e do corpo, como um parasita. O vento não me congelava mais porque uma corrente quente surgiu do meu núcleo e espalhava até eferverscer a superfície da minha pele. Por um momento esqueci onde estava, o que estava fazendo, que horas eram, com quem estava conversando, quem eu era.
Uma sensação perdida por tanto tempo, espalhada como cacos. No mais improvável momento, todos os pedaços se juntaram.
Nunca tinha me sentindo tão vivo desde o Dia Que Tudo Mudou.
IV
O café era delicioso. Meus pés molhados balançavam para fora da plataforma enquanto bebericava o copo metálico. O subir e descer da plataforma com as ondas dava um leve frio na barriga. Tinha retirado a camisa para evitar perder ainda mais calor e apenas uma toalha me embrulhava confortavelmente. Ao meu lado, as chaves de casa e algum dinheiro secava na superfície de madeira. Pelo menos não tinha perdido estes bens tão essenciais. Se ficasse sem chave teria que arrumar uma escada para subir pela janela ou arrumar um pé-de-cabra para arrebentar a porta, porque não conhecia nenhum chaveiro por perto. A garota que tinha trazido a garrafa térmica servia também café para os demais e por fim, a si mesma. Ela repousou a garrafa no chão e se sentou a alguns metros de mim, também balançando os pés no ar.
– Como te chamas? – perguntou a mulher que tinha me resgatado.
Ela não parecia se incomodar com o frio. Afinal, eu imaginava que aquela roupa de surfista fosse térmica, mas não era especialista no assunto. Também não ficaria surpreso se ela já tivesse acostumado a nadar por águas geladas, e pela sua cara chutaria que era de algum lugar frio do norte.
– Ícaro. Aquele mesmo que se aproximou do sol… – tentei quebrar um pouco o gelo, mas ele acabou derretendo.
– Ícaro. Olha, nome interessante. Se fostes de cera boiarias mais fácil.
Ela riu, eu também ri. Algumas desgraças só nos restam a levar na brincadeira mesmo. Ela continuou.
– Chamo-me Charlotte. Com dois Ts – deu um tchauzinho com a mão, na qual correspondi com um aceno. – O barbudo ali é o Vigo, o que tem cara de sério é o Jonas e aquela guria que finge ser comportada é a Mia.
Conforme ela apresentava seus companheiros, eu girava a cabeça procurando por eles. Vigo era troncudo, a camiseta estava rasgada, tinha um cigarro no canto da boca e certamente já passava dos sessenta. E a barba… era um show à parte, se me permite. Ia até o meio do peito e parecia muito bem conservada, esbanjando um milhão de tons cinzas. Se botasse uma perna de pau e um tapa-olha seria um exímio pirata, sem sombra de dúvidas. Levou a xícara ao alto como se brindasse assim que olhei para ele.
Jonas estava sentado numa cadeira de praia que surgiu não sei de onde. Observava a marina e os barcos abandonados sem esbanjar nenhum sorriso, sua roupa mais parecia uma farda militar com tons verde escuros, o café esfriava ao seu lado como se não tivesse muito interessado. Virou para mim quando Charlotte anunciou seu nome e apenas fez um joinha, talvez incomodado que estivesse atrapalhando o seu descanso. Era bem mais novo que Vigo e também o mais estranho de todos.
Finalmente, Mia. Ela parecia saborear o café, fechando os olhos quando entornava a xícara. Foram longos segundos apreciando a bebida quando finalmentese virou para mim, me encarando com os olhos castanhos claros. Sua trança única agora repousava sobre as costas. Ela deu um leve sorriso levantando o canto da boca e respondendo um “oi” bem tímido, quase inaudível. Que nem eu, também balançava as pernas sobre a água e parecia aproveitar a paisagem do rio e da marina. Parecia a mais nova de todos e se me dissessem que era filha de Charlotte eu acreditaria. Por falar na Charlotte, ela era alta, forte e polpuda, por assim dizer, e tinha muita cara de ser a mandona daquele grupo. Tinha uma voz potente.
– Oi – também disse timidamente para Mia. Para não perder o momentum da interação, continuei. – Este café tá bom pra caramba, de onde trouxe?
– Do barco, tonto – em seguida deu uma leve risadinha.
Uma flecha atravessou meu fígado. O choque foi tanto que simplesmente minha garganta travou, impedindo de falar qualquer coisa, enquanto eu observava sua cara bem convencida.
– Eu disse, eu disse. Tens que tomar cuidado com ela – Charlotte abriu um sorriso achando graça da situação.
Sim chefia, sim chefia… Mia continuou, não, aumentou o balanço das pernas fingindo fingar que nada tinha acontecido. Até pensei em dar uma resposta apropriada para ela, mas eles tinham acabado de me salvar de uma afogamento acidental e não queria acabar no fundo do mar com um afogamento proposital. Afinal, só conhecia eles por cinco minutos. Embora não tivessem muito cara de traficantes transoceânicos de drogas, era melhor evitar conflito. Baixei a cabeça, olhando as ondas que formavam na superfície do café.
– Assim que trata nossa visita, netinha? Deixa o rapaz em paz… – o senhor deu uma baforada cinzenta no ar, mas até sua expressão parecia se divertir.
– Já disse que não sou sua neta – ela retrucou.
– Que isso agora, sempre me tratou como vô, resolveu mudar, é?
O rosto da garota ficou vermelho. Ahá, tomou um cheque, não foi? Sabia, este tipo de gente gosta só é mexer com a vida dos mais fracos que nem eu, mas quando alguém com pulso toma as rédeas e a põe em seu lugar não sabem como reagir de forma apropr… Pera, eu era tão fraco assim?
– Tá rindo do quê? – a garota subitamente chamou minha atenção.
Eita. Não tinha percebido que meu rosto esbanjava um sorriso de lado a lado. Ainda assim, mesmo com seu comportamento um tanto escaldante, às vezes não conseguia parar de prestar atenção nela. Mia. Um nome estranho, deve ser algum apelido. Será que tem a ver com gato? Talvez porque ela alternava entre garras afiadas e busca por atenção? De qualquer forma, eu não estava ali para inventar confusão. Tentaria me comportar que nem uma pessoa decente e bem equilibrada.
– Nada não – tentei retornar a uma cara neutra. – Só perguntei de qual lugar você conseguiu esse café. Sabe, de qual região?
Apesar de ter sentido algo estranho assim que a vi, pode ter sido apenas um acaso, uma coincidência. Ela inicialmente parecia uma garota qualquer mas não demorou um minuto para mudar de personalidade. Por que eu estava me importando? Nunca a tinha visto antes, certo? Eu deveria apenas deixar passar… Tinha que me manter firme. Não ia perder o controle das minhas emoções por causa de uma pirralha.
A minha pergunta foi recebida com silêncio. Não só da Mia, mas também dos demais. Eu não tinha perguntado nada indelicado, tinha? O café era realmente bom, não muito ácido, não muito amargo, mas também não era fraco. Parecia ser grãos arábicos, um pequeno prazer que sentia falta desde o Dia. Será que eles tinham permissão para atravessar as fronteiras? Ou eles realmente fossem traficantes, mas em vez daquela substância branca e poerenta que causava vício e alterações fisiológicas eles traficavam esta substância escura e poerenta que causava vício e alterações fisiológicas? Traficantes de café, se fosse verdade, seria uma revelação impressionante e bem daora, mas se eu soubesse a verdade eu poderia realmente acabar no fundo do mar preso a um bloco de concreto. Suas faces me diziam que eu estivesse fazendo a pergunta errada no momento errado. Como aquele não era o meu dia de morrer, compreendi os sinais não-verbais e deixei o silêncio rolar. Um pouco desconfortável, não há como negar.
Entretanto… quando foi a última vez que pude ter conversa leve desse jeito? Logo depois daquele Dia me juntei a um grupo de sobreviventes, todos nós desolados pelo que tinha acabado de acontencer. Muitos de nós choravam, tentando absorver as consequência do incidente, inclusive eu. Do meu grupo de amigos original, apenas um tinha restado ao meu lado, compartilhando a dor e a ansiedade em relação ao futuro. Pra dizer a verdade, eu pensei que íriamos terminar numa anarquia com as pessoas se matando por comida e outros recursos, mas a transição foi mais pacífica do que pensei. De vez em quando escutava uns tiros e presenciei brigas com socos e chutes, mas não foi o caos generalizado que imaginei. Ao menos no início, não era difícil que grupos de apoio se formassem, tentando suportar um a outro para que a vida seguisse em frente. Mas não era a mesma coisa. Quando você vê sua família e amigos sendo levados naquele Dia, tudo muda. Os grupos de apoio foram aos poucos se desfazendo, alguns tornaram a viver uns com outros, outros se mudaram, outros resolveram que era melhor continuar sozinhos e um grande punhado decidiu que era melhor se livrar das preocupações terrenas. Eu fui daqueles que acabou ficando sozinho. Interagia com alguns vizinhos mas nunca fui muito próximo deles. Conversávamos quando nos encontrávamos na rua, às vezes passeando com seus cachorros, batíamos um papo, e a vida seguia. Aliás, até pensei em ter um cachorro, porque depois do Dia Que Tudo Mudou muitos deles ficaram abandonados. Mas se eu precisasse partir, de uma forma ou de outra, eu talvez teria que deixar ele pra trás. Então, sempre que podia, colocava um pouco de restos de comida nas calçadas do bairro, pois tinha sempre algum vira-lata morto de fome.
Cinco anos. O tempo é um foguete com combustível infinito, sempre a acelerar.
O silêncio que pareceu uma eternidade quebrou quando Charlotte disse em tom misterioso:
– Tudo tem o momento certo para descobrir. Apenas aproveite o café, que tal?
– Claro.
Mesmo sem a resposta que queria, Charlotte estava certa. Vamos aos poucos.
Se eles fossem traficantes, eram os mais legais que tinha encontrado, e nenhum mistério tiraria a delícia que estava aquele café. Só se ele tivesse envenenado.
V
Jonas me trouxe uma camiseta branca, um tanto desgastada. Mas estava seca, exatamente o que eu precisava. Vesti ela, ficou bem folgada, quase uma saia, mas era melhor que passar frio.
– Obrigado, Jonas. Prometo que vou te devolver – disse, batendo no peito.
– Não vai fazer falta – Jonas respondeu, quase sem expressão. Não, na verdade exerguei o canto da boca levantar alguns milímetros. Ou foi minha imaginação?
– Não mesmo, a gente ia usar como pano de chão – o diacho da garota comentou, dando outro gole no café. Por que diabos ela implicava comigo? Ela tinha algo contra mim?
– Mia, favor, para de ser desagradável um pouco? – Charlotte repreendeu a garota e Mia cruzou os braços, virando a cara. Então, a grandona se voltou-se para mim. – Já peço-lhe desculpas por Mia, não está muito acostumada a lidar com outras pessoas. Se ela fizer isso mais uma vez eu promoto que jogo-a ao mar – seu tom de voz era desconfortavelmente sério.
Os olhos da garota cresceram, provavelmente surpresa e amedrontada pela ameaça. Eu estava tendo uma aula ao vivo em como lidar com gente mal-educada. Parece que ameaças de mortes críveis ditas de forma séria com ar assustador funcionam. Vou até anotar no meu caderno.
Pensei que o velho iria rir ou quebrar a atmosfera pesada com algum comentário engraçado, mas não aconteceu. Senti que eles estavam desconfortáveis com o comportamento de Mia, e pensando bem, não era pra menos. Supus que eles também não tivessem contato com gente de fora do barco fazia um bom tempo e estavam tentando ser simpáticos comigo, mas a garota tinha outros planos. Quem quebrou o silêncio foi eu, meio sem jeito em estar no meio de suas discussões familiares.
– Como que vocês se juntaram?
Jonas, Vigo e Charlotte se entreolharam. Por alguns segundos, pensei ter feito mais uma pergunta proibida ao perceber eles negociando quem deveria responder. Vigo acariciou a barba enquanto Jonas se levantou e foi em direção ao veleiro. O velho tomou a cadeira que era de Jonas e sua figura me lembrou um vovô a ponto de contar as histórias de sua juventude.
– Foi apenas o destino, Ícaro, o destino. É uma história longa, está a fim mesmo de ouvir?
Confesso que o frio me incomodava um pouco, ainda que tivesse me secado e com uma camisa nova. Mas estava curioso e não podia desperdiçar a oportunidade. Talvez nunca mais encontrasse gente que nem eles para conversar.
– Siga em frente, quero saber. Não tenho contato com gente de fora já faz muito tempo… E esse barco aí, esse veleiro, como chegou aqui?
– Já aviso que quando Vigo começa a falar ele não para mais – Charlotte comentou, rindo.
– Não é mentira – ele complementou, também com um sorriso.
Jonas apareceu com mais duas cadeiras de praia em suas mãos e entregou uma para mim e uma para Charlotte. Eu olhei para o móvel, confuso.
– E pra você? – perguntei ao Jonas.
– Tenho coisas a fazer no veleiro. Pode se sentar.
Ele virou as costas e voltou para a embarcação. Aceitei de bom grado a cadeira e me sentei. Mia estava na beira da plataforma, olhando o rio.
– Como a gente se juntou… É um história longa, vou ter que começar lá do começo, lá desde o Dia Que Tudo Mudou.
– Não tem problema, quero ouvir.
O velho deu um suspiro profundo. Até Charlotte perdeu um pouco o sorriso e assumiu uma cara pesada. Não que estive descontente ou brava, apenas que ela sabia o tipo de história que estava por vir. Mia continou a balançar os pés, indiferente a nós.
– Tudo mesmo, mesmo, começou Naquele Dia, no Dia Que Tudo Mudou…
Vigo pôs seu passado a mostra. O barco era dele. Disse que perdeu a mulher e dois filhos no Dia Que Tudo Mudou. Seu outro filho, chamado Leni, estava em um país bem distante, mas com as comunicações completamente interrompidas e desesperado para entrar em contato com a última pessoa de sua família próxima, ele decidiu zarpar sozinho com seu barco através dos oceanos. Tempestades, falta de comida, falta de água, falta de combustível, piratas, militares, ele conseguiu transpor cada um dos obstáculos até que um ano depois finalmente chegou no país onde seu filho estava. Encontrou Leni vivo, com sua esposa. Apesar da imensa alegria de encontrar seu único herdeiro restante vivo, Vigo teve que contar para ele que a mãe e irmãos tinham partido no Dia. Leni, já suspeitando da possibilidade, pacificamente aceitou o destino e convidou Vigo para que morasse com eles. O velho aceitou, claro. Algumas meses depois, uma nova tragédia acometeu a família. Leni morreu vítima de alguma doença, que ele nunca soube se o filho já tinha ou se desenvolveu depois do Dia. Após ter testemunhado toda a sua família partir antes dele e já no último terço da vida, Vigo considerou que era o suficiente. Subiu ao alto de uma falésia e admirou as ondas quebrarem violentamente nas rochas dezenas de metros abaixo. Disse que o sol estava no horizonte, já na linha d’água, como se fosse uma misericórdia final. No momento decisivo, fechou os olhos e deu alguns passos em direção ao vazio. De repente, uma voz o chamou atrás de si. Inicialmente pensou que era a voz de um de seus filhos, que ele já tinha passado para o outro lado. Ao se virar, imaginou ver a figura de seu filho mas quando finalmente raciocinou viu um homem machucado, ralado e ensanguentado gritando para que Vigo parasse ali. Que não desse mais nenhum passo. Que o que Vigo estava fazendo era errado.
Era Jonas. Ele, no mesmo dia e quase no mesmo momento, tinha decidido que não aguentava mais. Pura coincidência. Resolveu subir em uma das mais altas rochas da região, admirar o pôr-do-sol e logo depois finalmente se reecontrar com sua noiva e parte da família, levados no dia do casamento, horas antes de subir ao altar. O desafio era atravessar um tortuosa e difícil trilha com paredes íngremes antes de chegar no ponto mais alto da elevação. Um lugar onde nos melhores dias conseguia ver montanhas a cem quilômetros de distância ou mais. Um lugar especial para ele, porque não era a primeira vez que fazia a trilha: era onde seus pais o tinham levado no seu décimo quinto aniversário e desde então, uma vez por ano, sempre atravessava com destreza. Porém, seu psicológico estava abalado e subestimou a dificuldade da trilha, acostumado a fazer todos os anos sem incidentes. Um passo em falso o fez rolar dezenas de metros pela parede rochosa e inclinada até parar sobre vegetação rasteira. Segundo Vigo, durante a queda, Jonas sentiu medo. Sentiu pavor. Sentiu solidão. Ele tinha subido a trilha exatamente para dar um ponto final, mas não era pra ser daquele jeito. Porém, Jonas percebeu que havia dentro de si uma chama viva, quase se apagando, mas que não tinha se extinguido totalmente. Retornou a si, incrédulo que estava vivo e consciente. Só havia um motivo para estar vivo, tinha sido uma intervenção divina. Agradeceu a Deus, pois Ele tinha lhe dado um sinal de que Jonas estava seguindo o caminho errado. Tinha recebido mais uma chance para continuar, e desta vez não iria pôr a perder. Ele estava bem machucado, porém consciente e andando, e sem motivo nenhumo apenas decidiu caminhar em direção a falésia, ver o pôr-do-sol e admirar a criação que Ele fez e então retornar para casa.
Foi quando Jonas viu Vigo tentando fazer a mesma coisa que o jovem tinha tentado fazer, se não tivesse sofrido o acidente. Se existisse um motivo para que Deus tivesse lhe dado uma segunda chance, tinha sido para isso. Gritou para o velho, para que retornasse, argumento que não era o jeito certo de resolver as coisas. Teria dito para Vigo que o mundo ainda era belo, apesar de tudo, apesar da dor. O velho parou a centímetros da beira, a ponto de observar pequenas pedras rolarem mar abaixo. Jonas tentava convencê-lo a recuar, a retornar, e enfatizou o sinal que havia recebido minutos atrás. Que não era coincidência que Jonas estivesse ali, o encontro deles naquele exato momento só podia ser um milagre, não havia outra explicação. Aproveitando da indecisão de Vigo, Jonas agilmente o agarrou pela barriga e o puxou para trás.
Não era uma história fácil de digerir. Minha garganta ficou apertada o tempo todo, sem saber o que dizer. Pude ver os olhos de Vigo se avermelharem enquanto contava a história, mas não eram olhos tristes, pelo contrário. Eram de felicidade, de agradecimento, de quando tomamos a decisão correta lá no final. Mia não fez um comentário sequer, talvez por respeito, talvez porque já tinha ouvido essa história tantas e tantas vezes. Charlotte tinha surgido com um cigarro não sei de onde e estava virada para o rio, em silêncio. Mas Vigo sorria. Desde então, a amizade dos dois tinha perdurado e como troca por ter lhe salvado, ensinou a Jonas tudo sobre barcos e navegação, e quando o jovem fosse bom o suficiente, Vigo se aposentaria do posto de capitão e passaria o cargo para Jonas.
Anos depois, assim foi feito, Jonas tinha se tornado oficialmente o capitão do Alma.
Ao final entendi por que Jonas tinha retornado ao barco antes da história. Talvez ele não fosse tão insensível quanto eu pensava.
VI
Depois do relato de Vigo, passamos a comentar outras coisas. Me perguntaram o por quê estava ali, como tinha vivido nos últimos anos, o que fazia para não ficar louco. Contavam aventuras que fizeram ao redor do mundo, as cargas que levavam, como evadiam os checkpoints militares, as tempestades que encontravam, as noites congelantes no Atlântico norte, o dia que o barco quase tombou no meio do oceano. Criativamente eu pensava que eles eram traficantes de drogas, mas na verdade eram… traficantes. Não de drogas, mas principalmente de cartas e o que mais lhe pagassem bem para levarem.
– Pera lá, então tão dizendo que todas as cartas que mandei para minha família foram confiscadas? – perguntei surpreso, ao ouvir a história deles.
– Muito provavelmente, jovem – Vigo respondeu. – A ordem não oficial é limitar o máximo o contato com o exterior. E não é só aqui, todo lugar tá assim.
– Mas por quê? Por que eles fariam isso? – minha voz se levantou, sem eu perceber, pois tinha ficado um tanto bravo.
– Não sabemos direito – Charlotte cruzou as pernas. – Já ouvimos desde que é para impedir que as pessoas comparem o padrão de vida em diversos países até para evitar uma revolução global coordenada. Eu tenho uma diferente teoria.
– Qual é?
– Para isolar as sociedades. Acredito que o objetivo é que cada sociedade não tenha mais contato com a outra para evitar novos conflitos. Com a maior parte da população eliminada, o risco da espécie humana ser extinta é tão alto que acharam melhor cada um ficar em seu canto. Não que eu concorde, mas acho que é isso.
Senti um peso enorme no estômago. Então todos esses anos sem restaurar as comunicações tinha sido proposital? Também era por isso que não existia mais aviões?
– Você tá dizendo… que é uma volta propostial à idade média? Se for, não faz sentido, até na idade média as pessoas se matavam! – Mia olhou intensamente para mim ao perceber que eu tinha me exaltado um pouco. Pedi desculpas, levemente.
– Se matavam porque se encontravam umas com as outras. Se ninguém falar com ninguém nem se encontrar com ninguém… Além disso, é apenas uma teoria minha, não tenho certeza – ela cutucou o cigarro e cinzas voaram com o vento.
A roupa de surfista, apesar de cobrir quase todo o corpo, a deixava extremamente atraente ao demarcar a silhueta do corpo. Charlotte tinha um grande desenvoltura ao falar, certamente trabalhava com alguma coisa que envolvia com falar publicamente. Era equilibrada, consciente, e alternava elegantemente entre ser durona com a Mia e gentil com os demais. Provavelmente seguia a máxima “trato da mesma forma que gostaria ser tratado”.
– Uma coisa, Charlotte, como você se juntou a este grupo? – perguntei.
– Que tal deixarmos esta pergunta para outro dia, ok? Não tem nada de especial na minha, foi só sorte, ou azar mesmo – soltou uma baforada de fumaça logo depois.
Fiquei um pouco decepcionado pela resposta evasiva. Poderia ser que tivesse um passado doloroso como de Vigo e Jonas e não estava com boa cabeça para contar ou não queria se expor para um estranho que nem eu. Restava então apenas mais um tripulante para contar como se juntou aos marinheiros…
– Eu não vou dizer!
Eu nem tinha perguntado nada, apenas me virei para Mia sabendo que não iria me contar mesmo. Ela apenas se antecipou a um futuro que não ia existir de qualquer jeito.
– Mia! – Charlotte a repreendeu, de novo.
– Ha-ha-ha, ela tá diferente hoje, não está? Geralmente não é tão respondona assim, pode ser deficiência de manganês… – o velho riu, enquanto secava os olhos com um lenço.
– Novamente, Ícaro, peço desculpas pelo comportamento de Mia – a mulher disse.
– Antigamente, se a gente fosse mal educado assim a gente recebia umas chineladas… – respondi rindo, esperando ser atacado de alguma forma pela garota, mas ela não se comoveu. Vigo e Charlotte riram, entretanto.
Uma trovoado reverberou ao longe, nuvens negras se moviam sobre o mar. Percebi a água do rio mais agitada do que antes e um vento mais frio ainda começou a soprar, me incomodando bastante. Os três olharam para o céu e com a experiência que tinham sacaram imediatamente que precisavam se preparar.
– Me dá licença, jovem, precisamos ver se o veleiro está bem atracado porque parece que uma boa chuva está por vir – Vigo disse enquanto se levantava da cadeira. – Vamos zarpar logo amanhã. Foi ótimo falar com você, garoto.
– Claro, também preciso ir. Agradeça ao Jonas pela camisa.
– Cuide-se, Ícaro. Foi bom conversar com você. Espero encontrar-te de novo algum dia – Charlotte se despediu enquanto dobrava a cadeira.
– Também espero – respondi, me levantei e entreguei a cadeira dobrada a eles.
– Mia, seja educada, por favor – a mulher pediu a garota.
Mia se levantou da beira de plataforma, recolheu a xícara de café, olhou para mim e disse com um tchauzinho:
– Tcha-u, Ícaro.
– Bom, tchau pra você também – disse, confuso.
Ela se virou e seguiu em direção ao barco. Até então Mia tinha me tratado de forma rude e do nada ela resolve ser meiga e educada? O que tava acontecendo? Acompanhei ela com os olhos até chegar no veleiro e desaparecer cabine a dentro. Enquanto o restante se recolhiam para o Alma, eu juntei minhas coisas e começar a andar de volta pra casa.
Tinha sido o melhor dia de todos os dias. E por algum motivo, Mia não saía da minha cabeça.
VII
Quando cheguei, me joguei para debaixo do chuveiro e fui tomar um banho bem… morno. Nossa cota de gás também era bem reduzida, então não poderia me perder em pensamentos que nem nos velhos tempos. Era tão morno que quase não se podia ver o vapor de água turvando o ar do banheiro. O encontro com o bando de piratas tinha sido completamente inesperado. Conheci quatro pessoas novas de uma vez só e se ainda não pudesse chamá-los de amigos tinha conseguido confiança o suficiente para considerá-los colegas. Charlotte me tratou como uma mãe, Vigo como um vô, Jonas como um pai e Mia como… uma irmã mais nova um tanto birrenta que parecia me odiar. Ainda não entendia o que aquela garota tinha contra mim. Podia até não gostar da minha cara – não me achava um galã e nem um cão chupando manga; médio, médio pra mais – poderia ao menos fingir me tratar bem, sabe, etiqueta, educação. Só que… em vez de eu apenas ignorar ela e deixar ela quieta no seu canto, seu comportamento me deixava curioso. Era como se eu me desafiasse a lidar com alguém díficil, como se precisasse provar para alguém que tinha capacidade de lidar até com as piores pessoas. Uma competição de uma pessoa só sem direito a biscoito no final.
Ou era outra coisa.
Deixa ela pra lá. Depois de todos esse anos isolado, eu precisava de caras diferentes, um confronto, uma emoção, qualquer coisa para me preocupar que não fosse a monotonia diária.
O ruído do chuveiro, a água batendo na pele. Recordar o bate-papo de antes, ouvindo as aventuras desde o Dia Que Tudo Mudou, me fez lembra a minha própria experiência. O Dia em que perdi tudo.
Estava em um parque. Árvores, grama, sombras, lago, cachorros latindo, crianças brincando, bolas sendo lançadas de um lado para outro. Estava de pernas cruzadas, sentado a frente de uma toalha xadrez com linhas azuis, cobrindo uma parte do gramado. O sol atravessava os espaços entre as folhas de uma árvore, formando padrões claros e escuros que dançavam sobre o piquenique. Um punhado de gente, inclusive eu, esticavam os braços esfomeados. Bolos, sanduíches, chocolates, salgadinhos. Garrafas de refrigerante e vinho, latas de cerveja, um caixa com gelo.
O tempo estava quente, mas não insuportavelmente quente. Agradável como um início de verão deveria ser. Um zumbido de conversas agitadas e gargalhadas ecoavam como uma música de fundo. Era um dia perfeito para apenas ser feliz, sem preocupações, nem nada do tipo. Apenas relaxar na companhia de bons amigos em um parque, assim como outros grupos faziam ao redor de nós. Claro, antes de decidirmos o dia e local, houve um intenso debate regado a álcool e altercações verbais, mas nada muito grave, todos saíram mortos (de rir) ao final.
A vista do nosso lugar do parque era privilegiada. A paisagem era uma eclética mistura de árvores, prédios, carros, monumentos centenários contrastando com o enorme rio ao fundo e curvas montanhosas mais ao fundo ainda, quase mesclando com o céu azul de tão longe que estavam. O parque estava cheio, mas não lotado, não éramos os únicos a ter a ideia de um piquenique em um dia de semana. Um dia perfeito.
Perfeito demais. Sabe, aquela sensação quando as coisas dão supercerto e fica aquela pontinha de medo, ali, no cantinho, de que algo aconteça e estrague o dia perfeito. Era isso que sentia. Uma coisa totalmente maluca, confesso, mas já nasci com problemas de confiança e quando tudo estava certo era porque deveria existir alguma coisa negativa em troca. Algo assim. Uma inquietação, uma ansiedade. Não era dor de barriga, felizmente muito raramente tinha problemas com isso. Tentava ignorar o sentimento mas estava sempre ali. Abri uma lata de cerveja e continuei a comer e a beber e a conversar e a rir e a cantar e a sorrir. Dane-se, não ia deixar meu psicológico problemático estragar o dia.
Alguém tocou meu ombro. Virei para trás e vi uma face… Parecia que alguém tinha riscado o seu rosto, como uma colagem artística. Não, parecia mais uma tarja de censura, preta e quadrada. Não, na verdade estava embaçada, não conseguia distinguir as feições, um efeito de embaçamento. Pera, se era pra ser um rosto, cadê o nariz, os olhos, a boca? Quem era mesmo?
Não importa, a pessoa tinha tocado meu ombro e soube o que tinha que fazer. Deixei minha lata de cerveja, me levantei e segui a pessoa, caminhando descalço pela mistura de grama e terra sem me preocupar em sujar meus pés. Afinal, o dia estava perfeito. Era confortável caminhar sobre o solo macio, parecia flutuar.
Subimos uma pequena colina, um lugar mais alto do que onde estávamos. Também era mais intimista, envolto por vários arbustos. O chão era todo demarcado com trilhas feitas pelas pessoas que passavam por ali. A vista da cidade continuou magnifíca, embora não conseguisse mais enxergar o local do piquenique. Pássaros coloridos pousavam nos galhos das árvores e cantavam uma majestosa orquestra aviária.
Então, a pessoa me disse algo. As palavras estavam embaralhadas, como se as sílabas trocassem de lugar e parecessem fazer algum sentido, mas sentido não havia. Lembro que apenas assenti minha cabeça, e nesse momento, um calor surgiu de dentro de mim, um vulcão em erupção, pois eu sabia que estava pronto de fazer algo importante. Meu coração acelerou e aquela pontinha de nervosismo começou a tomar conta de mim. Estava quente mas estava trêmulo. Era realmente um vulcão jorrando lava e seus terremotos.
O dia estava perfeito.
Nossos olhos se encontraram. Não, a pessoa não tinha olhos. Tinha sim, só que estavamos sobre uma tarja escura. Não, eram olhos, mas quem era? Com a suavidade da brisa do mar, nossas mãos se tocaram e nossos dedos entrelaçaram. Seus lábios se aproximaram dos meus e doces palavras emanaram, pude até mesmo sentir o cheiro de uva. Talvez fosse vinho, não tinha certeza. Um aroma doce me envolveu, mas este já estava muito bem acostumado. Era baunilha, fui eu que escolhi. Acostumado não, estava viciado, não queria jamais largar esse cheio e nem o corpo que o emanava. Quando seus lábios encostaram nos meus, fechei os meus olhos. Tudo ficou escuro.
Voltei à realidade assustado. A água ainda batia nas minhas costas, o banheiro tinha virado um breu. Cacei a torneira com as mãos e fechei o chuveiro, totalmente perdido ao procurar a toalha no meio da escuridão. Tinha esquecido dos horários de blecaute programado.
A parte mais estranha era que nunca tinha sonhado em pé, muito menos tomando banho.
VIII
Naquela noite, sonhei com José.
José era o nome do meu amigo que sobreviveu comigo ao Dia Que Tudo Mudou. Passamos meses nos perguntando o porquê de apenas nós termos restado e não os demais. Não tínhamos nada de especial que pudesse justificar ficar nesse mundo. No início era eu e ele, ajudando um a outro a superior o fatídico Dia. Caçamos por comida, contatamos outros sobreviventes, aprendemos a fazer armas caseiras, fizemos escambo, improvisamos equipamentos, roubamos objetos úteis. Nos preparávamos para uma possível horda de zumbis, criando nosso forte em meu apartamento e fazendo planos A, B, C e todas as outras letras do alfabeto. O objetivo era sobreviver, obviamente. Mas então percebemos que a horda de zumbis nunca viria. Esperávamos um colapso civilizacional que nunca veio. Havia algumas brigas e mortes aqui e ali, mas no geral a pessoas se comportaram bem civilizadas diante da crise. Deixamos de ter acesso a coisas de luxo mas a comida ainda aparecia nos – mais raros, mas existentes – supermercados e a água ainda chegava nas torneiras, ainda que racionada. Era como se toda a sociedade ficasse mais enxuta, cortando os excessos. Porém, José tinha parte da família em uma cidade do interior. Com a internet, linhas de telefone e celulares inoperantes, só havia um jeito de ele tentar descobrir se ainda existiam e era ir pessoalmente até a cidade. Uma jornada que levaria semanas a pé, mas mesmo assim ele foi.
Assim, apenas sobrou eu. Desde então, nunca mais tive contato com José. Ele pode ter reencontrado sua família, ou, na pior das hipóteses, ter sucumbido a algum grupo violento. Para mim, a pior consequência do Dia Que Tudo Mudou – depois de ter perdido amigos e familiares – era a falta de comunicação de longa distância. Cartas se tornaram populares novamente e algumas estações de rádio também funcionavam, mas apenas sob a direção do governo, que ainda existia. Mas nunca tive retorno das que enviei para o outro lado do oceano. Se fosse verdade que o governo bloqueava cartas enviadas ao exterior era menos preocupante de saber que meus destinatários… não queria nem pensar nisso.
Sentia uma saudade imensa da minha família e amigos em outra parte do planeta.
Acordei. A luz da manhã clareava o quarto. Me virei de barriga para cima, olhando o teto. O formato do veleiro Alma surgiu em minha cabeça. Eu estava separado do lugar onde nasci por milhares de quilômetros de água sem fim. Quanto tempo levaria num barco daqueles? Um mês? Dois meses? Não entendia nada sobre as correntes de vento muito menos as marítimas para ter essa noção. E de que serviria, não era como se eles quisessem me dar uma carona no seu brinquedo. Nem sabia qual era o próximo destino, não chegaram a dizer.
Mas a ideia continuava a ferver. Olhei ao redor no meu apartamento, procurando por algo que pudesse lhes dar em troca. Dinheiro, será que aceitariam? Quantas notas precisavam? Abri uma caixa de madeira no fundo do guardarroupa mas o tanto que contei só dava uns trocados. Uns tempos depois do Dia, o governo teve que dar auxílio financeiro para quase tudo mundo, porque quase todos os registros digitais tinham sido apagados. Eu mesmo tinha uma boa economia nos bancos e um razoável portfólio de investimentos. Tudo evaparou junto com o Dia. O que tinha naquela caixa era o acumulado de poucas reservas que fiz ao longo dos anos. Se parasse de receber o auxílio estava ferrado, extremamente ferrado. Talvez pudesse dar o dinheiro mais a minha bicicleta, pensei. Tonto, não tinha espaço para uma bike naquele barco e iam pedalar onde, no mar? Quem sabe se implorasse muito e me oferecesse de ajudante, abaixando a cabeça e me permitir ser tratado como uma escravo pela duração da viagem? Talvez levaria um ano, ou dois, ou mais, dependendo de quantas paradas faziam. Dei um salto da cama, procurando por coisas no meu apartamento que poderia dar. Computadores, celulares, roteador, video game, TV, tudo empilhado num canto coberto com uma lençol cheio de poeira. Aliás, por que tinha aquelas coisas mesmo? Acho que eu ainda tinha uma pequena esperança que as coisas voltaria a funcionar, que a energia seria reestabelecida de forma normal, que a internet retornaria. No final, anos se passaram e nada voltou. Se não tinha mais valor pra mim, não teria para eles.
Até as fotos da minha família estavam guardadas nos computadores, nos discos rígidos e na “nuvem”, como se diz. A foto dela tinha desaparecido junto também.
Só podia relembrá-los fechando os olhos.
Um aperto no coração. A garganta se fechando.
Não seria a primeira vez. Saudade que se chama, não é mesmo? Aquela vontade de vê-los o mais depressa possível, sem saber se estavam vivos. Percebi que nada que pudesse oferecer seria tão valioso quanto encontrá-los novamente. Daria não só todos meus bens materiais, mas daria um rim se fosse necessário. Trabalharia limpando privada. Lamberia as botas de quem quer que fosse se me levassem até eles. Cinco maldito anos desperdiçados! Naquele Dia tinha perdido a pessoa que mais amava, mas ainda amava minha família. Quando tudo dá errado, nós sempre voltamos para lares conhecidos. Olhei para fora da janela, assistindo as nuvens fluírem devagar diante de um céu parcialmente encoberto. Qual era a chance de um barco aparecer na minha frente, qual era a chance de conversar e interagir com seus marinheiros? Eu precisava atravessar um oceano. Eles tinham o veículo. Depois do Dia Que Tudo Mudou, aviões não voavam mais. Só podia ser um sinal, tentava me convencer. Quase que literalmente um bote salva-vidas. Ou uma coincidência incrível. Tanto faz.
Então lembrei de Vigo, assim que me afastava da doca.
“Vamos zarpar logo amanhã. Foi ótimo falar com você, garoto.”
Eles não tinham me dito as horas. Eles poderiam jã estar em alto-mar… Ou não, poderiam estar se preparando.
Só tinha uma chance.
Iria morrer de arrependimento se ao menos não arriscasse.
Peguei uma mochila e taquei algumas peças de roupa de qualquer jeito. Foquei bastantes nas cuecas, a parte mais essencial. Tirei o dinheiro da caixa e enfiei tudo o que tinha numa carteira. No espaço que sobrou da mochila toda gorda coloquei alguns itens de higiene pessoal, calcei os sapatos o mais rápido que pude e peguei as chaves. Deveria trancar as janelas ou não? Se chovesse, meu apartamento viraria uma poça. Mas se minha intenção era nunca voltar… Corri e fechei as janelas e percebi a geladeira no canto da cozinha. Se a comida estragasse ia encher de bichos e provocar um fedor desgramado. Limpei rapidamente a geladeira, juntei com o lixo da cozinha e fechei em um saco preto. Desliguei os disjuntores, o registro de água e o de gás. Seria terrível se um incêndio acontecesse. Coloquei o lixo pra fora, empurrei a bicicleta e estava a ponto de fechar a porta quando olhei para trás.
Vi minha sala, a entrada da cozinha, a porta do quarto. Quanto tempo tinha vivido ali no total? Sete anos? Dez por cento da minha vida gastos naquele meu cantinho. O apartamento poderia não ser muito espaçoso, mas era meu lugar que chamava de lar doce lar. Encarei o espaço com melancolia, não querendo dizer adeus, mas precisava sacrificar o meu passado para seguir em frente. Virar a página e começar um novo capítulo.
Lembrei que tinha esquecido de uma coisa importante.
Corri até uma gaveta no guardarroupa e puxei de dentro uma caixinha, azul e aveludada. Eu estava com ela no Dia Que Tudo Mudou. Tinha preparado tudo, mas o incidente a levou antes. Enfiei o objeto no bolso da calça e saí de casa.
O Dia Que Tudo Mudou tirou quase tudo de mim. O que sobrou foi apenas algumas paredes de concreto e bens quebrados. Não havia mais vida naquele lugar.
Não havia mais vida dentro de mim.
Fechei a porta com um baque. Coloquei o condão com a chave ao redor do pescoço e saí do prédio com o lixo e a bicicleta, tão rápido quanto o The Flash.
Só precisava ter um pouco de sorte e ainda encontrar a Alma na marina.
IX
O caminho até a marina parecia mais distante que o normal. A ansiedade queria transbordar, cada pedalada parecia que estava empurrando chumbo. Estava ofegante e suando bicas, nunca tinha feito tanto esforço assim. A mochila nas costas balançava que nem um pêndulo invertido, quase me tirando do equilíbrio diversas vezes. A brisa era salgada e se tentasse descobrir o horário olhando o céu não conseguiria porque estava tudo nublado.
Pela primeira vez na vida, orei a Deus para que Ele me concedesse um milagre.
A marina surgiu, os barcos abandonados, o centro comercial. Meus olhos procuravam pelo barco com mesmo formato de antes, um veleiro, com as velas recolhidas, os mastros a dezenas de metros de altura. Onde estava ele, meu Deus?!
Ele tem que estar ali, tem que estar ali. Quase caí quando a bike encontrou um buraco no chão, me fazendo saltar em cima do selim. Entrei no centro comercial e atravessei correndo, mirando nas plataformas, buscando por Alma entre as embarcações quebradas e corroídas.
Reparei na seção do parapeito faltante e fiz uma curva à direita, me aproximando da plataforma flutuante. Freei minha bicicleta com tudo, quase me tirando do equilíbrio, minhas pernas batendo com o pedal livre.
Senti um vazio cósmico congelar minha barriga quando não vi o veleiro no lugar. O motivo era simples. Tinha chegado muito tarde. Eles já tinha partido em direção ao infinito do mar.
Em retrospecto, era óbvio que ia dar errado. Eles não deviam nada a mim, só estavam sendo simpáticos, apenas conversando livremente. Não sei porquê assumi que eram meus amigos, só porque fiquei algumas horas com eles? Eu iria parecer um sanguessuga se no dia anterior tivesse perguntado se poderia embarcar com eles, um cara estranho perguntando do nada se poderia se juntar a família. Não era absurdo imaginar que em todo lugar que fossem iria ter gente implorando para se juntar, não era só eu que estava desesperado para voltar para casa. Certamente tinham o “não” na ponta da língua, as armas travadas e carregadas para afastar os mais insistentes. Além disso, que horas eram? Marinheiros gostavam de partir de manhã bem cedo, na alvorada, para aproveitar o máximo dia solar. Burro, burro, burro, mil vezes. Agi por impulso, criei grandes expectativas e agora eu desmoronava com meu próprio peso ao perceber a falha do meu plano.
Ao descer da bicicleta enrosquei no pedal e caí no chão. Não tive forças para levantar. Poderia ficar ali no chão frio, a mochila pesada nas costas me afundando como uma âncora. Me arrastei até a beirada da plataforma, meu peito queimando de decepção. Pus minha cabeça para fora, observando a água logo abaixo ondulando perto da minha face. Tentei encontrar meu reflexo, mas só enxerguei uma silhueta escura sem definir os detalhes faciais. Senti o cheiro de maresia, relembrando como agulhas todos os dias que solitariamente corria e caminhava e pedalava ao lado do rio. Tinha perdido a única chance de sair deste lugar que me acorrentava a tanto tempo. Poderia ter oferecido meu corpo e alma para eles em troca de carona, não tinha mais nada a perder. Mas não fiz isso, não pensei nisso. Ou era medo? Medo de ser rejeitado, medo de fazer uma coisa diferente e sair do cotidiano tão entendiante mas confortável? Droga, eu tive apenas mera desilusão momentânea. Porém o arrependimento de nem mesmo ter tentado não tinha como ser pior do que se tentasse e fosse respondido a socos e pontapés. Poderiam até me jogar de volta na água gelada. A decepção me inundava, o medo de ficar ali sozinho para sempre tomava controle do meu corpo. A agonizante dor que me dominava não era física. De repente, uma onda violenta e inesperada bateu em um dos pilares que segurava a plataforma flutuante no lugar, levantando uma nuvem salgada no ar e umidecendo meu rosto.
Foi quando reparei na pequena caixinha ao meu lado, aberta, ejetada do bolso da calça quando caí no chão. O interior era branco perolado. Presos em ranhuras na almofada, dois objetos metálicos reluziam levemente sob o tempo nublado. Eu não precisava mais daquilo, mas quem disse que conseguia largar deles? Era uma pequena reminescência de que ela existiu, uma prova do quanto eu a amava. Temia que se não carregasse, não só não lembraria mais de sua face mas que eu a esqueceria completamente. Se tivesse apenas um minuto, um minuto a mais antes do Incidente…
A água salgada que sentia nos lábios não era da água do mar e por longos minutos me perguntei se não tinha sido eu mesmo a enchê-lo.