Primeiramente, nos perdoe. Se não conseguir nos perdoar, que não nos odeie. Se duvidar que tudo o que fizemos foi em seu bem, aceitaremos seu julgamento. Mesmo que nunca saibamos a resposta, queremos acreditar que fizemos a melhor escolha possível. Poderíamos listar todos os sacrifícios e todas as dores que carregamos para que você pudesse ler esta carta algum dia mas nada seria mais terrível se você não pudesse lê-la.
Nós não estamos mais aqui. Nos despedimos há dez, talvez cem, talvez mil anos atrás. Era impossível explicar para você o contexto e as motivações naquela época. Se você, Vega, está lendo isso, é porque chegou a hora de justificarmos.
Inicialmente, nada disso estava planejado. Por uma série de conexões acabamos conhecendo um ao outro, em circunstâncias menos que ideais. Nossa vida era difícil e árdua, desconfiando de tudo e de todos, vivendo em casas destelhadas e ganhando a vida com certos tipos de sucata. Ainda assim, quando nos conhecemos, descobrimos um laço cujo nó era impossível desatar. Juntos, nos tornamos muito mais fortes do que sozinhos e demos forças um ao outro, na pobreza e na riqueza, na alegria e na tristeza. Sobrevivemos a traições de amigos e emboscadas de inimigos. A vida nas vielas cinzas e úmidas tinha se tornado mais colorida, o sol já não se punha mais com tristeza.
Muito mais importante do que bens materiais, nós estávamos completos. Cada manhã nós acordávamos energizados, apoiando um ao outro conforme nosso comércio de sucatas deslanchava. Passamos a fazer negócios em várias partes da cidade, criamos confiança nas pessoas, respeitávamos clientes e fornecedores. Porque nossa ética deixava tudo mais difícil, às vezes éramos passados para trás, mas nosso otimismo não nos deixava abater. Porém, se há uma lição que gostaria de te ensinar é, quanto mais alto se está, mais violenta é a queda.
Quando a Proibição foi anunciada, sabíamos que estávamos com problemas. Tínhamos dois caminhos a seguir, fechar nosso negócio que nos sustentava ou partir para o submundo do crime, com altos riscos e altas recompensas. Estávamos destroçados. O mundo poluído e cinza, opressivo e angustiante tinha batido à nossa porta. Iríamos a falência. Nosso orgulho nos torturava, visões da antiga vida nos assustava.
Então, enquanto apoiávamos um ao outro, você, Vega, foi concebida. A verdade é que, inicialmente, tínhamos achado um grande erro. Tínhamos passado dos limites, cometido um lapso de julgamento. Mas, aos poucos, conforme a barriga da sua mãe crescia, percebemos que nossas angústias estavam perdendo espaço para um novo tipo de otimismo. Uma esperança. Em uma noite recheada de dúvidas, nós olhamos para o céu melancólico e vimos brilhando uma estrela bem no meio da constelação de Lira. Uma estrela guia que nos manteria sãos e um perto do outro.
Por isso nós te chamamos Vega. Mas com a gravidez e nossos negócios arruinados, precisávamos sobreviver. Sua mãe precisava se alimentar bem, de ter um lugar confortável. Por isso, e novamente, peço que nos perdoe, nós decidimos enfrentar a Proibição e entramos no submundo do crime. Nos tornamos traficantes de componentes eletrônicos e chips de inteligência artificial.
Não foi sem consequências. O mundo do crime é cruel e traíra. Novamente, não podíamos confiar em ninguém, mas ao mesmo tempo, tínhamos que arriscar. Divergências e competição eram resolvidas na violência. A ameaça de prisão sempre nos rondava. Para proteger sua mãe, fui ameaçado, roubado, agredido e quase assassinado. Entretanto, cada negócio fechado dava mais conforto para sua mãe e criava uma reserva para quando você nascesse. Nos tornamos cada vez mais gananciosos, cada vez mais agressivos. Tudo era justificado para darmos a melhor vida possível para você. Sem percebermos, nos tornamos escravos do dinheiro.
Poucos antes de você nascer, eu encrenquei com gente barra pesada. Sua mãe e eu fomos jurados de morte. Não conseguia mais dormir, tinha pesadelos e acordava suando, sua mãe não conseguia mais levar uma vida normal tendo extremas crises de ansiedade. Mudamos de cidade mas fomos seguidos, nos escondemos nas montanhas mas mensagens ameaçadoras diziam saber onde estávamos. Em um mundo completamente vigiado, quando os pagamentos dos subornos secavam, era muito difícil nos retraírmos para o anonimato.
Em um dia chuvoso e frio, em um casebre de montanha, sua mãe começou a ter as primeiras contrações. No caminho para o hospital, notícias pipocavam nos hologramas públicos anunciando que uma infecção de nanobots estava se espalhando nos países do leste. Metade das pessoas não sobreviviam. Restrições de viagem foram anunciadas. No meio desse tumulto, quando as pessoas estavam começando a se desesperar e o pânico tomou conta da cidade, você, Vega, nasceu. Em um mundo que se desfazia diante dos nossos próprios olhos, sua mãe tinha dado a luz a um símbolo de esperança.
Estávamos felizes por você ter nascido, mas aflitos com a infecção dos nanobots. Se a infecção chegasse, não tínhamos outra escolha a não ser rezar. Não havia antídotos ou vacinas contra eles. Decidimos que faríamos de tudo para te proteger, mesmo que isso significasse nosso sacrifício.
Foi quando descobrimos que havia uma saída. Um plano que já estava sendo preparado há algum tempo, mas que se acelerou quando os rumores da infecção chegou aos ouvidos dos manda-chuvas. O Projeto Placenta. Um projeto do governo, restrito, secreto, que só descobri através de contatos com corruptos do governo que criei no submundo do crime. Uma nave automatizada e preparada para carregar mil bebês humanos em hibernação, para que possa recriar a espécie humana em outros cantos da galáxia. Com meus contatos e gastando cada centavo que tínhamos em subornos e taxas, compramos um lugar para você nesta nave, provavelmente tirando a vaga de outra criança. Ficamos completamente zerados, somente com a roupa do corpo.
Por isso, Vega, você está neste lugar. Podemos não ter feito a melhor escolha, mas tudo que fizemos por você foi porque nós te amamos. Você talvez ainda não entenda o que significa este sentimento, mas ele é a emoção mais verdadeira e poderosa que existe. Humanos fazem coisas belas e terríveis quando estão motivadas por amor. Quando o amor é à pátria, inventam guerras. Quando o amor é à medicina, salvam vidas. Quando o amor é ao dinheiro, ficam gananciosos. Quando o amor é a outra pessoa, concebem vidas como você.
A única coisa que nos deixaram te entregar foi esta carta. Espero que depois de tanto tempo, o papel ainda esteja inteiro e a tinta ainda seja legível. Mesmo que milhares de anos tenham se passado, onde quer que você esteja, onde quer que nós estejamos, sua mãe e eu vamos sempre, sempre, te amar.
Se não conseguir nos perdoar, que pelo menos não nos odeie.
Com amor,
seu pai, Richard Gandoff, e sua mãe, Milena Gandoff.
Para Vega Gandoff.
16 de outubro de 2096.