Aquela era uma quente noite de junho. O ventilador de teto não dava conta de amenizar a temperatura do ambiente, abrir as janelas de vidro blindado com moldura de aço de construção não era uma solução porque eles teriam que suportar mosquitos zumbindo e picando a noite inteira, e ainda tinha o barulho das ventoinhas dos computadores que não podiam ser desligados. De qualquer forma, seria uma longa noite, no qual eles iriam trabalhar madrugada adentro, construindo e programando um jammer eletromagnético camuflado. Esse era o serviço deles, e estavam sendo pagos para isso.

A campanhia tocou e a câmera instalada no interfone automaticamente mostrava quem estava à porta numa tela na parede. Ele então bateu três vezes à porta, esperou um segundo, e bateu outras três vezes. Ela ficou observando a tela do interfone enquanto ele digitava a senha de 10 dígitos na fechadura eletrônica. Embora normalmente a fechadura só aceitava 8 dígitos no máximo, eles modificaram e reprogramaram o aparelho para aumentar o tamanho da senha no máximo que a memória interna conseguia e para evitar que alguém descobrisse a senha da porta por força bruta. A fechadura emitiu seu bipe característico e se destravou. O garoto abriu a porta e trazia consigo uma sacola com duas bandejas de bentou de uma konbini próxima. Afinal, era em torno da uma da manhã e eles precisariam comer para varar a noite inteira.

Em silêncio ele deixou o tênis na entrada e colocou a sacola em cima da pia.

— Trouxe kara age e tonkatsu. Qual que você prefere?

Ela, sem virar os olhos da tela do computador, respondeu:

— Kara age.

A garota, de fones de ouvido, vestindo uma camiseta preta de gola cortada e sem mangas escrito “I [coração] TYO”, digitava freneticamente no teclado que estava em cima de uma mesa baixa. Uma das duas telas à sua frente estava preenchida de código de programação enquanto a outra estava aberta em um vídeo musical qualquer da internet.

O garoto desembalou a comida e colocou dentro do micro-ondas para esquentar. Enquanto o aparelho aquecia o bentou ele voltou para sua mesa, tão baixa quanto a dela, mas agora com apenas um notebook, rodeado por diversos componentes eletrônicos e pelo jammer que estava em fase final de construção, e agora analisava se todas as ligações elétricas no pequeno processador estavam corretas. Ele conectou a placa de circuito a uma bateria e em sua tela começou a ver números se atualizando: aquilo eram as coordenadas. O jammer podia ser programado para ser ativado sem intervenção humana dentro de um intervalo de coordenadas ou em determinado tempo, e ainda podia controlar a potência, e conseqüentemente, seu raio de ação. Enquanto isso a garota escrevia o código do programa que permitia programar o dispositivo de acordo com as necessidades do comprador. O jammer tinha que ser entregue em três dias, e por isso os trabalhos deles iriam noite adentro.

O micro-ondas apitou, trocou a bandeja, e voltou a sua mesa. Logo que apitou de novo, a garota se levantou e retirou sua comida do aparelho. Com as mãos, empurrou os diversos componentes eletrônicos da mesa para o lado e sentou ao lado dele. Ambos começaram a comer diante da luz dos monitores.

— Hoje está infernal. Não consigo me concentrar — o garoto reclamou.

— Aqui é muito mais quente que lá. Não esperava — ela comentou.

— Só três meses que estamos aqui, uma hora a gente se acostuma — e engoliu um pedaço de tonkatsu.

— Ao menos vamos ficar aqui tempo suficiente para o inverno — ela disse, rindo, enquanto colocava na boca um pouco de arroz.

— Ao menos, né.

Os dois continuaram comendo, conversando casualmente. Até que um tempo depois uma chamada via internet começou a piscar na tela do computador dela.

— Tem alguém chamando — o garoto disse, observando o monitor.

— Deve ser nosso cliente mandando a gente se apressar.

Então ele percebeu que aquela tela era um pouco diferente.

— É o canal de emergências!

— Como assim?

Ambos largaram suas bandejas e correram para o computador. O garoto atendeu a chamada

— Que foi Delta-1?

— Socorro… estão atrás de mim… — uma voz feminina estava ofegante, o som alterava de volume como se a pessoa tivesse correndo. — Entrega… mal-sucedida!

— Ativa o rastreamento no canal criptografado!

— Ahh, pera… — o garoto ouviu barulho de tiros e vozes ao fundo.

— Delta-1!

— Vou.. ativ… — um barulho forte, como se fosse uma pancada foi ouvido e a ligação caiu. O garoto tentou ligar de volta para Delta-1, mas a ligação não era completada.

— O que foi? — a menina perguntou, ao perceber a expressão assustada na face dele.

— Delta-1 está MIA [missing in action].

— Não pode ser!

Eles sabiam que se Delta-1 fosse capturada eles estariam em sérios problemas. Mesmo que tivessem do outro lado do mundo.



***





A garota carregava um pacote de cor marrom dentro de sua mochila. O local de entrega era longe de sua casa, mas tinha que ser feito até às duas horas da tarde daquele nublado e frio dia de inverno. Ela estava agasalhada com uma blusa de capuz e sua mochila repousava no banco do passageiro enquanto o carro adentrava uma rodovia de grande movimento. O som do carro tocava alguma música em língua estrangeira, que ela conhecia a melodia mas desconhecia sua letra. Pegou um acesso à direita entrando em uma estrada de mão dupla e em um acesso sem placa de indicação adentrou em uma rua esburacada de terra. O carro balançava pelos buracos e assim prosseguiu pelos próximos treze minutos.

Seguindo o GPS offline, especialmente modificado para ela, finalmente encontrou um paredão que cercava parte da estrada de terra. Era um muro alto, com arame farpado eletrificado e câmera de vigilância, e um portão metálico fechado de cor cinza escuro. Parou o carro paralelo em frente ao portão, de forma proposital. Desceu do carro, deu a volta, e pegou a mochila com o pacote. O barulho característico do interfone fez que uma voz surgisse do outro lado da linha:

— Quem é?

— Entrega — ela respondeu secamente. Tirou o pacote da mochila e mostrou para a câmera do interfone. No pacote estava escrito “RT46”. Não era nada mais que um código aleatório para que o destinatário tivesse certeza de que não era uma cilada.

— Espere.

Colocou de volta dentro da mochila o pacote, colocou nas costas, enfiou a mão no bolso da frente da blusa e ficou esperando. Dois minutos depois o portão automaticamente se abriu lateralmente em torno de um metro. A voz no interfone pediu para que ela entrasse. Ela entrou e o portão atrás se fechou. Agora podia ver uma casa grande, como se fosse uma mansão, com uma arquitetura moderna. Aquela casa devia valer uns 2 milhões, ela pensou. Dois homens carregando pistolas mais um detector de metal se aproximaram da garota. Eles observaram curiosos a pequena estatura da moça, e o que estava com o detector de metal começou a se aproximar dela. O outro então, pressentindo que não havia perigo nenhum, ordenou ao primeiro:

— Não precisa. O código da entrega está certo.

— Ok.

Eles então colocaram as armas de volta na cintura. Pediram para que a garota entrasse e fecharam a porta sem trancar.

— Suba as escadas. Ele está te esperando lá em cima.

Uma longa escadaria de piso de madeira e corrimão de metal levava até o segundo andar da casa, onde, logo na saída da escada, estava um longo vidro translúcido que permitia uma iluminação acinzentanda banhar o ambiente.

— Esse vidro estava transparente, não é? — a garota perguntou sem pretensões para os homens. Um deles se aproximou até uma parede ao lado do vidro e apertou um botão. O vidro mudou de translúcido para transparente.

— Vidro eletrônico. Que interessante.

Os dois homens se entreolharam sem entender muito.

— Prossiga até a sala.

Eles a levaram para uma porta ao fundo do corredor. Uma sala grande surgiu em sua frente onde estava mais dois homens e duas mulheres sentados em poltronas que pareciam muito confortáveis, ao redor de uma mesa de centro, onde estava um computador. Um dos homens vestia terno e se levantou para cumprimentá-la:

— Quem és?

— Me chame apenas de entregadora — retirou o pacote da mochila —. Aqui está.

A porta atrás se fechou, e os dois homens que a haviam acompanhado agora escoltavam a porta pelo lado de fora.

A menina entregou o pacote para o homem que começou a desembrulhar. Uma caixa de papelão, e dentro, os equipamentos que ele havia encomendado: um keylogger sem fio e um clonador de rede celular, o primeiro lê os campos elétricos emitidos por teclas de teclado para capturar dados e senhas e o segundo um dispositivo que simula uma antena de rede celular comum, retransmitindo o sinal para uma antena real, mas capturando qualquer dado ou voz de celular que trafegue por ele. O primeiro era uma caixa do tamanho de um celular grosso e o segundo era uma caixa do tamanho de um livro.

— Me ensine a usá-los — o homem disse.

— As instruções estão aqui — ela tirou da mochila um papel impresso com as instruções de uso —. Agora o pagamento.

— Me refresque a memória.

— 15000 em dinheiro e 15000 em bitcoins.

Uma das mulheres ali na sala pegou um envelope que parecia cheio e lhe entregou. Ele então repassou a menina.

— Conte.

Ela abriu o envelope, tirou as notas e colocou contra a luz da janela. Começou a olhar várias, por amostragem. — Elas são verdadeiras — o homem disse.

— Conferência padrão.

Após olhar umas dez notas de cem e duas de cinquenta ela colocou de volta no envelope e guardou o dinheiro dentro da mochila.

— Os bitcoins — ela falou.

— Claro — o homem trouxe o computador até perto dela, para que ela digitasse o código da carteira de bitcoins no programa. Ao terminar, devolveu para o homem.

— Está certo? — ele perguntou.

— Está. O homem apertou Enter.

— Bom fazer negócios com vocês. Com licença.

Ela então foi em direção a porta e girou a maçaneta. A porta se abriu e os seguranças estavam ali e olharam para ela, sem dizer nada. A garota passou por eles e foi seguindo pelo corredor em direção a escada. O homem de terno de lá de dentro disse ao segurança:

— Acompanhe ela até a saída — e seu olhou piscou. Os guardas tinham entendido o que era para ser feito. Enquanto a menina avançava em direção a escada um deles disse:

— Vamos acompanhar você até a saída.

— Não precisa — ela respondeu.

— Acredite, será melhor para você.

A garota havia compreendido o que se passava. Ela acelerou o passo e estava diante da escada. Os guardas então começaram a correr atrás dela. A garota entrou no modo de fuga e começou a pular os degraus, indo em direção ao térreo, para a porta. Um dos guardas tirou a arma da cintura, engatilhou e gritou:

— Pare ou eu atiro!

Ela não respondeu, mas agora precisava usar a arma que ela guardava: uma M9 escondida por debaixo da blusa com capuz, num compartimento logo à frente da barriga. Ela colocou a mão por baixo da blusa quando já estava próximo da porta, e o segurança que estava já na parte de baixo da escada, vendo o movimento dela, atirou duas vezes. A garota deu um salto para o lado um pouco antes da saída, rolando no chão. Os projéteis atingiram a parede atrás dela, seu coração estava disparado e apesar de ser entregadora não tinha um bom vigor físico. Ela revidou os tirou, atirando de volta. O segurança subiu as escadas para evitar que entrasse na visão dela. A garota então correu até a cozinha onde havia uma porta que dava para fora. Abriu a porta e sentiu o vento gelado de inverno em seu rosto. Os seguranças, de forma burra, foram atrás dela pela cozinha, cuja porta dava para a lateral da casa, esquecendo da parte da frente. Os quatro que estavam lá em cima agora foram em direção ao grande vidro eletrônico, vendo a menina correr em direção ao portão.

— Ela não vai conseguir abrir o porão — o homem de terno pensou, ao ver a situação.

Mas logo que ela chegou no portão, colocou a mão no bolso da blusa e ele se abriu. Ela carregava consigo um clonador de sinal de portão, um dispositivo bem simples, pois sabia que a segurança de portões eletrônicos era bem fraca. Os quatro que observavam da janela desceram correndo para a parte de baixo da casa em direção à garagem. Os dois guardas mais os dois caras de terno agora estavam dentro de um carro de luxo, enquanto a garota ligava seu veículo. Ela então, sabendo que seria arriscado, não tentou retornar o carro de volta para a rodovia. Em vez disso, saiu derrapando seguindo para o interior da estrada de terra. O carro de luxo tinha acabado de sair do portão e agora ela os via pelo retrovisor.

— Prepare para atirar! A garota viu a arma saindo do vidro do passageiro do carro de trás. Ela então pegou sua arma e apontando para o próprio vidro traseiro e começou a atirar. Os cacos de vidros se espalhavam pelo carro enquanto o carro de trás fazia zigue-zague pela estrada de terra esburacada.

— Mais rápido! — o homem de terno dizia para um dos seguranças que dirigia.

— Vai arrebentar a suspensão!

— Não interessa, vai!

O outro segurança, no banco do passageiro, começou a atirar. Um dos tiros acertou o retrovisor direito, o outro a laterna esquerda e o outro perfurou a placa do carro dela. A garota fazia zigue-zague com o carro, a estrada de terra levantava uma nuvem de poeira. Até que em um certo momento seu pneu traseiro foi acertado por um dos tiros. O carro balançou para um lado e para o outro, perdeu o controle e bateu com uma árvore na beira da pista. Ela, ainda atordoada, se desvencilhou do airbag e começou a correr para dentro do mato lateral, depois da árvore. O carro de luxo aproximou da árvore e os quatro homens saíram. A garota então pegou seu celular e usando um aplicativo de voz criptografado ligou para um certo número: — Socorro… estão atrás de mim… Entrega… mal-sucedida.

— Ativa o rastreamento do canal criptografado! — ela tentava entender o que ele dizia, enquanto ainda corria. Os caras corriam atrás dela e atiravam em sua direção.

— Ah, pera! Ela então girou para trás e viu os homens se aproximando. Com o celular ainda na orelha, correu para trás de uma árvore e começou a mirar nos homens.

— Você já era! — eles disseram.

— Não vai ser hoje — ela pensou. Apontou a arma para eles e atirou. Uma, duas, três, quatro vezes. O tiro atingiu os três homens que ela tinha de vista, e eles caíram gritando de dor. Sua arma agora estava quente e restava apenas uma bala no tambor.

— Vou… ativ… — nesse momento, ela sentiu um impacto na altura da cabeça. A pressão contra seu crânio era intensa, ela não podia acredita que tinha sido atingida. Seu telefone escorregou de suas mãos e caiu no chão, com a tela completamente rachada. No reflexo, calculando de onde partiu o disparo pela posição que estava, ela virou e atirou. O projétil atingiu exatamente o meio da testa do último homem, o engravatado. Sua arma caía no chão enquanto seu corpo se inclinava para trás. Sua orelha estava vermelha, pela pressão que o celular fez nele quando ele foi atingido pelo tiro. Ela olhou para o aparelho no chão e disse: — Bem, você já estava velho mesmo.

Mesmo cansada, passou pelos corpos e foi em direção ao carro furado de disparos. Entrou no carro, abriu o porta-luvas e dentro havia um recipiente pequeno e fechado, com uma caixa de fósforos ao lado. Ela recolheu a mochila com o dinheiro, jogou o líquido pelos bancos e acendeu o fósforo. O carro agora queimaria por um bom tempo, destruindo suas digitais pelo caminho.

— Acho que terei que caminhar por um bom tempo — disse consigo mesma, com o coração ainda acelerado, mas satisfeita de a entrega ter sido um sucesso.