A primeira impressão que Paris marcou aos seus olhos foi a imponência. Grandiosas construções históricas com delicadas e detalhadas esculturas em suas faces foi o que mais lhe chamou atenção, ainda que os prédios não fossem altos e a vegetação e musgos tomassem conta das paredes e telhados. Alguns prédios tinham enormes rachaduras, tornando-se um risco iminente para quem passasse debaixo de suas marquises. Não que houvesse muita gente morando naquela cidade, evidentemente. A extensa megalópole aos poucos decaía em um deserto de gente, tendo como principais moradores gatos solitários e corvos, muitos corvos, que cantavam um tom sombrio. Gregório caminhava solitariamente naquele início de novembro, sua pesada e equipada mochila em suas costas, o seu sapato rasgado pelo uso excessivo, o cachecol verde envolto no pescoço lhe aquecia dos ventos frios que sopravam na nublada manhã. Não que ele tivesse algum interesse em Paris especificamente, mas a cidade fazia parte da rota que traçara em direção ao Leste.
Gregório andou mais e mais, as panturrilhas doloridas de tanto caminhar, se encontrando com o sinuoso rio Sena diversas vezes, que calmamente corria em direção ao mar. Não demorou mais que algumas horas quando começou a avistar por entre as baixas nuvens o marco principal da cidade, umas das construções mais famosas da humanidade: a Torre Eiffel. Ou melhor, parte do que restou do monumento metálico.
— Finalmente descobri que não era um boato — pensou, assim que viu que o terço superior da torre havia desaparecido, provavelmente agora entulhado ao seu pé, exatamente como haviam lhe contado. Que força poderosa havia destruído a pesada estrutura de aço?, perguntava a si mesmo sem uma resposta. Mas olhando novamente ao redor e vendo os prédios abandonados, janelas quebradas, fachadas enegrecidas, as plantas fazendo raízes no concreto, os carros empoeirados com os pneus totalmente murchos, as calçadas e bueiros infestadas por ratos e baratas, o lixo apodrecido de origem humana nas latas de lixo. Não era uma visão agradável, com certeza, mas por outro lado, tirando o som das árvores balançando ao vento e dos corvos, o silêncio dominava por toda a cidade.
Usando a Torre de referência, seguiu em sua direção para saciar a curiosidade, e realmente confirmou que a parte de metal que faltava estava retorcida no solo, uma imensa e pesada sucata com sinais de ferrugem. Não poderia deixar passar este momento. Achou um banco de praça qualquer para se sentar, sacou o lápis e seu caderno de desenho e começou a rascunhar a paisagem. Era um hobby para passar o tempo quando estivesse fisicamente cansado, ao mesmo tempo que registrava nas folhas de caderno os lugares que havia passado.
Um jeito de passar as memórias, caso não tivesse escolha.
Satisfeito com o desenho, Gregório pegou um barra de cereal já vencida que havia achado em um mercado abandonado, comeu até o fim e se levantou. Ainda poderia caminhar mais uns quilômetros enquanto fosse dia, e quanto mais próximo do Leste, melhor.
Sem planejar, atravessou a praça onde ficava as pirâmides do Louvre, com boa parte dos painéis de vidro quebrados. A piscina da fonte estava seca, revelando um fundo esverdeado de algas. A enorme praça vazia sem um respingo humano parecia muito maior para Gregório do que realmente era. Se aproximou de uma das pirâmides e olhou para baixo, entre as colunas metálicas sem vidro.
— Miau?
Tentou chamar a atenção de um gato preto que passava calmamente no chão abaixo, mas o animal o ignorou completamente. Gregório ficou desapontado.
— Vou falar com um corvo então.
Na falta de interação humana, qualquer outro animal poderia servir como companheiro de conversa.
Mas o Leste. Seu objetivo era o Leste, então esqueceu o que fazia ali e seguiu seu caminho. E seguiu, e andou e andou, o céu branco de nuvens agora se tornava azulado conforme o fim da tarde se aproximava.
Sentiu um fluxo de ar localizado a direita de sua cabeça, a parede que estava logo atrás explodiu em uma nuvem de poeira. E logo em seguida, um estrondo. Automaticamente se abaixou e caçou um lugar para se proteger. Não tinha ideia do que estava acontecendo. Atordado, olhou rapidamente ao redor, procurando por alguma barreira física. Viu um carro abandonado e deitou-se no chão ao seu lado, mas não tinha certeza do que estava se protegendo. O vidro do carro então explodiu em mil pedaços, espalhando cacos por todo lado, e então o estrondo novamente. Seja o quer que fosse, não seria uma lataria velha que lhe protegeria. Observou ao redor desesperado e viu uma mureta que separava a calçada da margem de um rio, talvez fosse o Sena, talvez não, mas o que importava é que parecia forte o suficiente para aguentar os impactos. Levantou-se e correu para atrás da mureta, quando um nuvem de pó se levantou logo à sua frente e em seguida outro estrondo. Aquela barreira de concreto tinha salvo sua vida.
— Mas que diabos!?
Naquele ponto estava óbvio que era tiros vindo de algum lugar. Assim que levantasse um centímetro sua cabeça explodiria, então ainda deitado pegou seu caderno da mochila, abriu numa página em branco qualquer e escreveu em letras garrafais:
NÃO ATIRE, ESTOU DE PASSAGEM
Levantou o caderno acima da mureta para a direção que ele achava que seria visto. Ficou com apenas a mão exposta, tremendo na base, esperando alguma reação.
Mas não aconteceu nada. Gregório teria convencido o atirador a parar?
Estava tão nervoso e assustado que não percebeu a figura humana que apareceu em sua frente, empunhando um longuíssimo rifle apontando diretamente para si, a poucos metros. Quem empunhava a arma era uma garota de baixa estatura vestindo roupas escuras, os cabelos negros com as pontas coloridas em roxo. Ela se aproximou sem dizer nada, o cano encostou em sua testa, o caderno caiu no chão, seus olhos esbugalharam. A garota observou Gregório, analisou seus pertences, olhou para trás e decidiu: girou a arma e lhe deu uma coronhada.
***
— Ai, ai… — Gregório levantou as pálpebras devagar, a visão focando-se ao redor, uma dor de cabeça terrível. Se perguntou onde estava, conforme a paisagem revelava um cômodo escuro, como se fosse um quarto, sendo iluminado apenas por uma vela amarelada em uma mesa. Encostado em uma das paredes havia uma cama mal arrumada, logo ao lado uma mesa de madeira com alguns papéis, livros, alguns equipamentos de sobrevivência, um rádio amador e partes de uma sniper. Também havia um grande mapa da França colado na parede logo atrás, e à direita, na parede do lado, uma janela que dava vista ao finalzinho de tarde, o céu já azul escuro, quase totalmente negro.
Então, Gregório tentou se levantar, sem perceber que estava em uma cadeira com as suas mãos amarradas no encosto e os pés amarrados entre si. Se desequilibrou e caiu, provocando um forte baque. Mais que uma situação de perigo, ele estava se sentindo humilhado.
— Gostou da hospitalidade, Sr. Gregório?
Sem perceber, a garota entrou por uma porta que ele não tinha visto.
— Realmente agradável, só que a poltrona poderia ser mais confortável. 4 estrelas — respondeu ironicamente.
— Você me parece muito petulante para quem não pode se mexer, não acha? — a garota agora surgiu diante dele.
— 3 estrelas, a atendente da recepção poderia ser mais simpát… — ela deu um chute na boca do estômago, fazendo com que Gregório sentisse vontade de vomitar. Ele soltou um grunhido de dor.
— Idiota — ela reclamou.
— Tá bom, tá bom — tentava reunir forças para falar —, o que queres de mim? Não sou bandido, e além disso, o meu nome, como sabes?
Ela andou em direção a mesa e pegou um dos cadernos, apontando com o dedo.
— Por que tá escrito aqui. Aliás, seus desenhos são tão belos, seria uma pena se… — e aproximou o caderno da vela, em tom de ameaça.
— Já perguntei, o que queres de mim? Por que me prendeu? — deitado de lado, observava de forma angustiada o caderno balançar ao redor da chama.
— O que faz na cidade e pra onde vai? — fixou nos olhos tensos de Gregório.
— Estou de passagem apenas. Minha intenção era ficar aqui uma noite ou duas, pegar alguns mantimentos e seguir viagem. Estou indo para o Leste, não vim aqui criar briga.
— E o que tem lá?
— Não posso dizer. Realmente.
A resposta não agradou a garota, que voltou a aproximar o caderno do fogo.
— Eu realmente não posso dizer. Mas por favor, não deixe este caderno queimar. É um segredo. Talvez ambos sejam mais importantes que minha vida. Eu imploro que me deixe ir, por favor.
A mão da garota parou de se movimentar, ela ficou pensativa em o que iria fazer. Já tinha humilhado mais do que suficiente o visitante, e além disso ela também tinha lido as anotações que Gregório carregava consigo. Não havia também em seus pertences nada que seria realmente perigoso para ela, as duas únicas coisas que carregava de mais ameaçador era um facão de mato e uma faca retrátil. Sem armas de fogo.
— Para quem tem um missão tão importante assim você parece bem desarmado.
— Eu nem sei como opera um revólver.
Enquanto ela ainda pensava no que fazer, uma voz em francês vinda do rádio ecoou no ambiente. Gregório não entendia muito bem, uma palavra ou outra, mas a garota compreendia completamente, largando o caderno e pegando o microfone do rádio, respondendo em francês:
— Nove está na escuta, Nove está na escuta. Compreende?
A voz do rádio continuou repetindo, como se fosse uma gravação telefônica, mas claramente era ao vivo, porque os ruídos de fundo eram diferentes e a cadência da voz também se alterava. Ela tentou novamente contato.
— Nove está escutando! Respondam por favor! — ao mesmo tempo caçou um lápis qualquer em cima da mesa e escrevou no caderno de Gregório alguns números. O que interlocutor transmitia era uma coordenada geográfica de onde ele estava naquele momento, perguntando se ainda existia alguém capaz de ouvir sua transmissão e de conseguir chegar até lá. Mas Nove era incapaz de responder, pois seu transmissor montado de forma improvisada era muito menos potente do que poderia ser, e o gerador a gasolina ligado em um cômodo distante também não conseguia suprir muita energia.
Ela ainda tentou contato mais vezes, enquanto a voz não parava de repetir as coordenadas. Mas abruptamente o interlocutor ficou em silêncio e um ruído branco tomou seu lugar. Nove desligou o rádio. Gregório apenas observava do chão, pois não haveria muito o que ele pudesse fazer amarrado daquele jeito. A garota se aproximou do mapa da França e com os dedos caminhou sobre o papel, cruzando duas linhas imaginárias.
— Eram coordenadas? — Gregório intuiu ao perceber que ela seguia os números na borda do mapa. A garota não respondeu —. Se forem, posso ajudar a chegar até lá.
Nove virou a cabeça para trás e disse seco:
— Eu não pedi sua ajuda.
“Que menina petulante”, Gregório quase expeliu estas palavras mas conseguiu segurar o movimento da boca. Precisaria engolir o desaforo caso quisesse mais algumas horas de vida e seu caderno intacto.
Nove ficou ainda mais alguns minutos observando o mapa, como se fizesse cálculos e pensando profundamente. Sua maior dúvida era se valeria a pena partir de Paris e ir até aquele lugar porque já fazia meses que ela estava sozinha naquele prédio, e embora já tenha quase se acostumado com aquela rotina tendo explorado suficientemente a região para saber onde poderia pegar comida, água e combustível, já estava entediada daquele dia a dia de apenas sobrevivência. Apesar dos riscos, um pouco de aventura poderia ser saudável para seu psicológico.
Mas olhou para trás e viu aquele desconhecido com as mãos e pernas amarradas na cadeira caído no chão. Talvez tivesse exagerado na recepção do garoto, mas enquanto não pudesse confiar nele, ou estivesse preparada para uma facada pelas costas, preferia a segurança. Depois pediria desculpas, pensou. Nove então saiu do cômodo e fechou a porta. Sem nada que pudesse fazer, Gregório fechou os olhos e caiu no sono.
***
Gregório sentiu uma sensação estranha ao acordar. Uma leve luz iluminava o cômodo, mas a vela já tinha se apagado. Era manhã, bem cedo, e estava sentindo frio. A sensação estranha era que seus membros podiam se mover livremente, ele tinha sido desamarrado, embora não tivesse percebido que horas Nove tinha cortado as amarras.
— Que seja — pensou —, agora vou pegar minhas coisas e dar no pé.
Viu sua mochila jogada no chão, recolheu os objetos que Nove tinha removido para investigar e pegou seu caderno que estava do lado da vela apagada. Empacotou tudo rapidamente do jeito que fosse e ainda meio cambaleando recém-acordado abriu a porta do cômodo em direção a saída, que ele não sabia exatamente onde era, mas eventualmente encontrou uma porta com vidro revelando a paisagem matinal. Assim que saiu para rua e avistou a floresta de prédios em sua frente, Nove lhe chamou logo ao lado:
— Gregório.
— Aaaaah! — gritou de susto.
— Desculpe por ontem. Estava com medo.
— Ah… ok. Estou indo — Gregório ignorou as desculpas e começou a andar.
— Pera, você… — ele então pausou as pernas sem se virar para trás. Nove estava encostada na parede logo ao lado da porta, um tambor metálico com cinzas ainda incandescentes aquecia levemente a calçada — quer ir comigo?
— Quê? Pra onde?
— Normandia. Era esse o lugar das coordenadas — ela virou o rosto para o lado, um pouco envergonhada do jeito que havia tratado ele.
— Tentaste me matar. Agora quer que eu vá com ti, como confiarei?
Silêncio. Nove não tinha o que dar em garantia, embora realmente estivesse levemente (apenas levemente) arrependida do que fez. Era apenas seu instinto de auto-preservação, tentou justificar para si mesma. Melhor alguém morto do que ela, obviamente. Mas agora já não se sentia tão ameaçada por aquele desconhecido, ainda que ele se recussasse a revelar para onde estava indo exatamente.
Gregório ainda ficou plantado mais alguns segundos embora não esperasse nenhuma resposta convincente. Ele ainda estava com medo de Nove, que aliás só tinha descoberto seu nome por acaso. Sem se satisfazer, recomeçou a caminhada.
— Adeus — e balançou as mãos em despedida.
Nove começou a recitar:
— “Daqui a alguns meses não estarei aqui. Partirei pra uma longa jornada e não vou saber como serão as coisas. Não saberei como será minha vida. Será que encontrarei alguns amigos? Encontrarei um lugar que chamarei de casa?”
— Você leu até isso? — Gregório se virou em tom de surpresa.
— Sim. Não tinha nada o que fazer. “Queria que do pó da destruição. Um novo mundo renascesse. Ter em mim o poder da reconstrução. Para que ninguém mais sofresse”. Ou algo assim. Não lembro.
— Errastes várias palavras. Mas o grosso é por aí mesmo.
— E então?
Gregório estava um pouco envergonhado por Nove ter descoberto também as folhas com poemas que tinha escrito ao longo dos últimos meses. Alguns tinham algumas ilustrações a lápis que complementavam a paisagens dos textos. Neste mundo solitário e pós-civilização, quem quer que tinha sobrevivido precisava achar meios de manter a sanidade mental. Se ela tinha usado seus textos para criar pelo menos uma tênua relação de confiança, parece que a tática funcionou. Gregório respirou fundo e disse:
— Ok, mas tenho uma condição. Vais me ajudar a chegar no Leste. E não posso ficar muito tempo na Normandia.
— Tá, e como vou poder te ajudar?
— Você vai saber quando eu pedir. Não pode dizer não.
A garota balançou a cabeça um pouco em dúvida. Pensou alguns instantes e disse:
— Desde que não seja nada perigoso.
Gregório soltou uma ruidosa gargalhada no lugar, deixando Nove desconfortável. Mas já era muito tarde para voltar atrás…
***
A cidade ia ficando para trás conforme os dois caminhavam em direção ao noroeste. A densidade da mancha urbana ia diminuindo, com mais e mais casas térreas preenchendo a paisagem. Tentavam seguir pelas estradas menores por dentro das cidades em vez das rodovias de grande porte, pois a qualquer momento poderiam encontrar uma casa qualquer ou supermercado abandonado para se abrigarem, mesmo que aumentassem o risco de encontros com pessoas mal-intencionadas. Mas considerando que até então tinham cruzado com um total de zero pessoas, eles ficavam cada vez menos esperançosos de encontrarem alguém conforme se afastavam da cidade grande.
Nove carregava em suas costas sua sniper devidamente carregada e pronta para uso, além de uma mochila com objetos de sobrevivência. Uma bússola estava amarrada no braço direto enquanto um relógio ficava no pulso esquerdo. Gregório não parava de analisar e observar aquele armamento que nunca tinha visto de perto. Era pesado, desengonçado, complexo e quase tão alto quanto a própria Nove, e certamente teria um recuo forte o suficiente para deslocar um braço e quebrar alguns dedos. Não aguentou guardar a curiosidade para si e perguntou:
— Nove — as orelhas dela arrepiaram quando Gregório quebrou o silêncio —, como tu conseguistes isso daí? — e apontou para a arma.
— Digamos que foi um presente. Incomum, entretanto — respondeu. Os dois continuavam caminhando pelas estradas desertas no meio da tarde nublada.
— De quem?
— Ai, ai, é uma longa história. Não precisa saber.
— Tá — e virou a cara emburrado —. Mas alguém te treinou, certo? Dá pra perder os olhos nisso.
— Sim, tive um pouco de treinamento. Só uso quando realmente preciso porque não tenho muita munição sobrando.
E mesmo assim havia gastado 3 balas tentando acertar ele, Gregório pensou inconformado. De qualquer forma, continuaram andando, andando e andando. Passaram por carros abandonados, latas de lixo reviradas, casas e prédios destroçados ou tomados por vegetação, gatos abandonados que os encaravam quando se encontravam, cães selvagens, postes de energia derrubados, móveis queimados. De barulho, apenas quando as copas das árvores balançavam ao vento e o esfregar de suas roupas.
De novo, Gregório quebrou o silêncio com uma pergunta:
— Por que se chama Nove? Não tem nome de verdade?
— Deve ser porque tenho nove vidas — respondeu em tom jocoso.
— Mas tu és uma gata, por acaso?
O rosto de Nove ficou vermelho, ela cerrou os punhos, abaixou a cabeça e gritou:
— Idiota! — e apressou o passo.
Gregório ficou observando incrédulo, sem entender o que tinha acontecido. Ele não havia percebido o duplo significado do seu comentário. Pior ainda se ele tivesse comentado o oposto, Nove certamente morreria de constrangimento e ficaria irritada, e era bem capaz de descarregar sua sniper no pobre rapaz.
Ainda confuso continou caminhando, mas bem atrás e tomando distância de Nove. Os dois continuariam calados até o anoitecer.
Acharam uma casa aberta e relativamente bem conservada na beira da estrada. Os vidros das janelas estavam quebrados, a porta estava com o trinco arrebentado, indicando que alguém já tinha arrombado, mas haviam duas camas em bom estado, e seriam suficiente para passar a noite que ficava cada vez mais gelada. A casa térrea estava completamente vazia de comida e faltava alguns móveis e equipamentos. Ela realmente tinha sido invadida em algum momento, mas a falta destas coisas era irrelevante para os dois que só precisavam descansar para continuar a viagem.
Nove acendeu uma vela, abriu o mapa no chão e deslizou seus dedos por cima do papel, fazendo cálculos mentais. Gregório observava, como se fizesse uma checagem dupla.
— Andamos 35 quilômetros até aqui, seguindo este caminho. Então, se o objetivo é aqui… hmm… 6 ou 7 dias. Nada mal. Até que você anda rápido.
— Andando normal apenas. Do mesmo jeito que cheguei a Paris. Aliás, quem vai começar de guarda? Eu não sei mexer nessa tua arma. Te acordarei se ouvir algo, tá?
— Começa você. Lá pelas uma da manhã a gente troca.
— Ok.
Gregório então gastou o início da noite fazendo nada, apenas atento a possíveis barulhos suspeitos e olhando incessantemente pela janela quebrada que mostrava apenas a assustadora escuridão da noite nublada sem luz da lua. As únicas coisas que ouvia constantemente era o roçar das árvores ao longe conforme o vento balançava seus ramos e o ronco de Nove, que não era desprezível. Morrendo de tédio, pegou o caderno e começou a desenhar sob a tênua luz de vela o quarto onde estava. Nove dormia tranquilamente em uma das camas alheia ao seu próprio ronco.
Às uma da manhã, Gregório acordou Nove para trocar de função. Ela ainda reclamou um pouco fazendo manha para se levantar.
— Se não quiser levantar tudo bem, vou dormir e se vier alguém vai morrer nós dois!
— Você é muito trágico… deixa eu despertar… — respondeu com a voz sonolenta, bocejou e vagarosamente se sentou. Gregório entendeu como um sinal de troca de função e logo deitou em sua cama. Antes de mesmo de perceber, já estava dormindo.
E assim os dois seguiriam a mesma rotina pelos próximos dias até aquele específico lugar na Normandia. Andavam de manhã, paravam para comer e descansar, prosseguiam de tarde, quando a noite caía se recolhiam para alguma construção abandonada, revezavam de madrugada e tudo recomeçava de novo.
Em um dos dias, o sol finalmente resolveu aparecer detrás das nuvens. Seus tons dourados iluminavam a paisagem e aquecia levemente a pele dos viajantes. Eles caminhavam sobre um viaduto que passava sobre uma rodovia e perceberam um amontoado de tanques de guerra destruídos ou carbonizados na estrada abaixo, partes mecânicas espalhadas por todo lado que brilhavam sob a luz do sol, bloqueando completamente os dois sentidos da rodovia. Gregório parou para observar aquela paisagem pós-apocalíptica, não que não tivesse visto outras semelhantes durante sua longa jornada para o Leste. Mas algo parecia ter clicado nele, seus olhos fixados nas carcaças destruídas.
— O que foi? — Nove percebeu que o rapaz estava fixo olhando para os veículos abaixo.
— Como que chegamos aqui? — perguntou sem virar o rosto para ela.
— Andando?
— Não, quero dizer, como que chegamos nesta situação? Meses atrás eu estava em Portugal levando minha vida, e aí do nada… Bem, deveríamos ter percebido…
Nove suspirou.
— Eu nem era para estar na França, mas aí meu trabalho pediu para ficar alguns dias. Mas… era impossível ter imaginado.
Desolação. Ruptura civilizatória. Não havia como os dois terem se preparado para o destino do mundo. Ou melhor, ninguém dos bilhões que outrora existiam estavam preparados. Os dois foram apenas parte de um punhado de gente que tiraram a sorte grande no lance de dados da morte. Eles não tinham ideia de quantos ainda haviam sobrado no mundo.
— Foi chance? Ou tem algum motivo para estarmos aqui?
— Já passei da fase filosófica emotiva. Tô viva e quero continuar, isso que importa.
— Isso, com certeza — concordou. Gregório então pegou o caderno da mochila e um lápis e começou a rabiscar aquela paisagem. A fileira de tanques destroçados. O pôr-do-sol. O vazio daquele lugar. Borboletas no estômago. Andando quilômetros e quilômetros e não tinham encontrado uma alma viva. Ele só encontrou meia dúzia de indivíduos no caminho entre Portugal e França, e recusou com firmeza todas as propostas de se juntar em um grupo, porque ele tinha um destino inalienável em sua cabeça, ir para o Leste conforme indicava os “escritos”.
Então porque ele havia aceitado de se juntar a Nove? Algo mexeu com ele quando pela primeira vez escutou a transmissão de rádio. Mesmo que não tivesse entendido a voz em francês tinha percebido ruídos ao fundo, pessoas conversando, um tom que não era de derrota, mas de olhar para frente. Diferente de todos os indivíduos que havia encontrado, que não tinham outro propósito além de vagarem livremente lutando pela própria sobrevivência, se ali na fonte da transmissão existisse uma proto-sociedade se reerguendo, um reinício da civilização, ele queria testemunhar este nascimento. Se um grupo suficientemente grande de pessoas estivessem se reunindo naquele local, havia uma esperança de que a humanidade ia voltar a ser o que era, e ele gostaria de ser parte disso. Ou melhor, ser melhor do que era, recomeçar corrigindo os erros do passado. Fazia muito tempo que ele não sentia uma emoção tão otimisita e positiva.
Mas o objetivo de chegar no Leste, ainda que fosse atrasado, não poderia ser interrompida.
Os dois caminharam, e andaram e prosseguiram. Uma hora a paisagem se tornou repetitiva, enormes campos de vegetação descuidada com um ou outro casebre no meio do mato. A estrada se tornava cada vez mais erma, pista simples, as marcações no asfalto já um tanto apagadas pelas intempéries. Nove abriu o mapa para se localizar e assentiu com a cabeça.
— Chegaremos amanhã se esticarmos nossa caminhado até o pôr-do-sol.
— Não há nenhum lugar para se abrigar por aqui mesmo.
Um longa, reta e infinita estrada iluminada pelo clarão do meio dia. O sol estava bloqueado pelas nuvens, mas alguns raios conseguiam atravessar os buracos no céu formando manchas distintas ao longe. A ansiedade de Gregório havia aumentado assim que ouviu que não faltava muito, e sugeriu a Nove que só parassem quando tivessem exaustos. Embora o tanto que os dois já tivessem caminhado depois da catástrofe, já estavam acostumados a vagaram por horas a fio.
Ao final da tarde, sob o céu azul escuro, os dois encontraram um abandonado posto de combustível na beira da estrada. As bombas obviamente não funcionavam, mas a grande área coberta e a loja de conveniência poderiam oferecer abrigo para aquela noite que aparentava ser mais fria que o normal. Assim que a tarde caiu, um vento soprava continuamente fazendo com que seus dedos ficassem gelados.
Os dois entraram na loja, mas as prateleiras de comida estavam completamente vazias e uma mancha de sangue já seco estava grudada no chão ao lado do caixa. Estava claro que alguém já tinha passado por ali, poderia ser um mês ou um ano atrás. Chegaram a vasculhar o banheiro, a sala de limpeza, sala de estoque e a gerência, mas encontraram nada além que vassouras, embalagens vazias de produtos de limpeza, cinzeiros usados, uma cadeira rasgada e outra coisas menos importantes.
Vedaram as frestas da porta com uma fita adesiva que carregavam para bloquear um pouco a entrada do vento e estenderam as colchonetes. Uma tênua luz azulada passava pelas paredes de vidro.
— Sem fogo hoje, parece — Gregório comentou.
— A menos que queira morrer sufocado.
Sentaram nas colchonetes e no escuro mesmo dividiram um pacote de granola. Era a janta do dia, e a sobremesa era apenas alguns goles de água. Por falta de um novo suprimento de comida naquele dia, teriam que racionar um pouco para terem o suficiente para o próximo dia.
Gregório deitou-se e perguntou:
— Depois que a gente chegar lá, o que você vai fazer? Vai ficar lá?
Nove não sabia muito bem também, levou alguns momentos para encontrar as palavras.
— Acho que, bom, se eu gostar de lá, eu devo ficar. Não tenho para onde ir mesmo. E aliás… onde que é o Leste? Alemanha? Bulgária? Romênia?
— Já disse. Não posso dizer. Tu podes morrer se eu te contar. Acho que estamos quites, você não me diz de onde vem “Nove” mesmo.
— Era um apelido. Parte de um apelido. “Nove” vem de “Ku” de “Kuroneko”, que significa…
— “Ku”? — entonou com malícia, interrompendo ela.
Gregório não poderia enxergar, mas Nove ficou com o resto vermelho pela piada sem graça.
— Seu idiota! Que vontade de explodir sua cabeça! — e deitou-se em seu colchonete, com a cara fechada virada para o lado. Gregório engoliu seco com a ameaça, que poderia ser abstrata ou real.
O que estava certo é que ele havia acabado com a conversa da noite, estando realmente preocupado de não acordar vivo. Em poucos minutos Nove cairia no sono, e a mistura de ansiedade mais temor mais o dever de ser sentinela fez com que Gregório ficasse de olhos abertos, se segurando para não dormir, enquanto olhava o teto escuro. Porém, não conseguiu ir muito longe e logo caiu no sono.
***
Finalmente avistavam o aglomerado de construções. Conforme se aproximavam percebiam que as casas daquela vila estavam mais conservadas do que qualquer uma das construções que viram pelo caminho. Não tinha vegetação crescendo por cima dos telhados, que estavam bem conservados, a quantidade de mofo era bem restrita, as paredes eram predominantemente brancas, mas uma ou outra construção tinha tons azuis, laranjas ou verdes. A cada passo os detalhes ficavam mais marcados, as placas de sinalização estavam limpas, percebiam pequenos portões de madeira, grama bem aparada e até ouviam latidos de cachorro. Finalmente encontraram alguma mancha de população.
— Nove, é aqui mesmo?
Ela olhou para o céu que agora estava claro, com poucas nuvens, o sol refletindo no papel fosco do mapa, e depois olhou ao redor, observando a paisagem.
— A gente seguiu esta estrada aqui e depois viramos para a direita, né? Pela minha régua são 12 quilômetros, então, tudo parece que sim…
Foi quando perceberam já um grupo de pessoas vindo na direção deles, portando nada mais que ferramentas de arado, facões e até uma shotgun. Gregório foi o primeiro a levantar as mãos ao perceber a movimentação, ainda que a expressão deles não fosse de agressividade.
— Recomendo jogar sua sniper. Rápido.
— De jeito nenhum, ela vai ficar comigo! — desafiou. Dobrou o mapa o quanto pôde e balançou ele em mãos.
Nove então começou a gritar em francês:
— Somos visitantes. Ouvimos a chamada no rádio. Somos visitantes. Ouvimos no rádio as coordenadas — apontando com a outra mão o mapa.
Se fossem eles mesmos que tinham transmitido, era óbvio que deveriam esperar visitantes. O problema é se fosse outro grupo humano.
O grupo de 8 pessoas se aproximaram dos dois e analisavam suas aparências e pertences. Ficaram extremamente curiosos com aquela sniper quase da altura da Nove que ela carregava nas costas.
— São de onde? — um deles perguntou.
— Paris.
— O que tem de armas?
— Eu, você tá vendo aí. Ele… — e lembrou quando tinha fuçado a mochila de Gregório — um facão de mato e um canivete.
O grupo rodeava a dupla, fechando o cerco completamente. Era um misto de desconfiança e surpresa, como se não esperassem visitantes. Teriam sido eles mesmos a origem da transmissão?
— Ah, então temos mais estrangeiros aqui… Xamã vai gostar deles — um homem do grupo comentou.
Não demorou muito para que um homem alto, de cabelos escuros porém crescidos e barba por fazer, vestindo uma jaqueta marrom clara, apareceu detrás do grupo dizendo com sua voz potente:
— Mas não é possível! Temos visitantes!? — seu rosto expressava alegria e satisfação, se tornando levemente ruborizado, para a surpresa da dupla que ainda estavam de mãos levantadas, como se tivessem em um assalto.
— Eu escutei sua transmissão no rádio em Paris e vim. Parece que somos os primeiros, correto?
— Podem abaixar os braços. Sim, são os primeiros, não esperava aparecer alguém tão rápido. Pessoal — se dirigiu ao grupo —, podem relaxar, são apenas visitantes. Foi para isso mesmo que transmitimos — e então se voltou para a Nove —. Como se chama?
— Meu nome é Nove, e o dele é Gregório.
Gregório cumprimentou com a cabeça sem dizer nada. Não era por maldade, ele sabia muito pouco francês.
— Não sejam tímidos. Prazer — o homem alto estendeu a mão —, podem me chamar de Xamã. Eu sou o líder desta vila.
Ambos cumprimentaram Xamã, que chacoalhou o aperto de mão mais violentamente do que era realmente necessário. Gregório quase pôde sentir seus ossos se desfazendo. O homem também observava curiosamente aquele arma gigante nas costas de Nove.
— SCAR-SSR? — perguntou.
— Sim. Mais munição. Raríssimo de encontrar.
— Espero que não tenha gastado muito ainda.
Ela olhou para Gregório discretamente, sorrindo maliciosamente para ele. Ele virou a cara para evitar uma briga.
— Muito boa para nosso arsenal.
— “Nosso arsenal”? Ela vai ficar comigo, tá?
— Mil perdões — colocou a mão no abdômen e se curvou em um gesto extremamente formal —. Não foi essa a intenção. Mas vamos lá, quero mostrar para vocês nossa vila.
Gregório apenas observava sem entender nada. Mas Xamã explicava a história básica daquela pequena vila na Normandia. Desde quando começou a catástrofe, ele e sua esposa vagaram pelo interior da França fugindo das ameaças, mas conforme cada pequena cidade também ia sendo dizimada, foram empurrados para locais cada vez mais ermos, até que a catástrofe terminou. Tinham se assentado numa pequena vila semi-abandonada, com um punhado de moradores restantes, faz quase 2 anos. Desde então, conseguiu ser sociável e político o suficiente para ser o líder da vila, quase como um prefeito, e conseguiu organizar o lugar para que fosse um local possível de se morar. A vila de Le Champs tinha plantações de subsistência, uma pequena escola, um posto médico, casas mais que suficiente para todos, água de poço, conseguindo reunir as dezenas de moradores para conservar aquele pequeno pedaço de civilização. Algumas pessoas chegaram depois, levando a população local para exatamente 100 pessoas, mas percebeu que este número era insuficiente para manter tudo funcionando quando uma doença atingiu quase metade deles ao mesmo tempo, atrapalhando a colheita e outros serviços. Por isso decidiu chamar pelo rádio que quem pudesse e quisesse se juntar a eles que poderia vir.
Gregório só soube de tudo isso depois que Nove explicou a Xamã que ele não falava francês.
— Então você é de onde? — Xamã perguntou em inglês.
— Eu vim de Portugal mas antes — e foi interrompido pelo líder da vila.
— Meu Deus! Não é possível! Que coincidência do caramba! — e disse em português ao perceber o sotaque.
— Eita — esta foi a reação de Gregório —. Não esperava também, né, neste fim do mundo. Mas se até as baratas sobrevivem a uma bomba atômica…
Xamã soltou uma barulhenta gargalhada.
— Como agora estamos todos se entendendo, deixe-me apresentar minha esposa, Melissa — apontou para uma garota que surgiu logo atrás dele, de cabelos levemente cacheados e sorriso dócil.
— Olá, sou Melissa — se apresentou. Nove e Gregório a cumprimentaram em reciprocidade.
Após traduzir a longa explicação para a vila para o visitante, conversarem brevemente sobre o estado das coisas, detalhes do dia a dia e a escassez de visitantes, Xamã acompanhou eles até uma das casas. A fachada era branca recém-pintada, as janelas de madeira eram quadradas com moldura em tom escuro, uma lâmpada funcional iluminava a porta brilhante de verniz. Ao entrarem, Xamã tocou no interruptor e uma outra lâmpada no teto iluminou a sala com uma mesa redonda no centro, rodeada por algumas cadeiras.
— Vocês tem energia! — Gregório estava maravilhado ao saber que havia eletricidade. Já fazia anos que ele não testemunhava este tipo de tecnologia.
— Mas eu tinha também! — Nove disse.
— Mas não tinha lâmpada, isso que queria dizer — falou em tom baixo, um pouco envergonhado por ter esquecido do gerador em Paris.
— Existe um gerador a diesel num casebre na rua de trás. Temos um bom estoque de diesel, mas usamos só pra coisas básicas, como pro rádio, pros fornos elétricos para fazer comida, e para as lâmpadas — Xamã explicou.
Os quatro se sentaram ao redor da mesa. Gregório observava aquele cômodo com detalhes. Embora a lâmpada estivesse acesa, a janela iluminava o ambiente com uma luz esbranquiçada. Alguns quadros mostrando Xamã e Melissa juntos estavam pendurados na parede. Uma planta natural ficava em um dos cantos da sala, um sofá de cor preta ficava de frente de uma TV com a tela quebrada, e entre os dois objetos uma mesa de centro com alguns livros, cujas capas já estavam desgastadas. De repente, um gato surgiu vindo da cozinha, curioso com as novas visitas.
— Este é o Palhoça — Melissa apresentou o felino, enquanto sibilava um “pss” esfregando os dedos para ele —. Ele já era nosso quando saímos de Caen.
— Mas que fofinho — Nove disse meigamente para o gato.
— Olha lá, encontrou sua alma gêmea — Gregório disse jocosamente.
— Ha-ha! — riu ironicamente.
Xamã e Melissa riram de forma contida.
Os dois então recontaram o que Xamã havia explicado anteriormente com mais detalhes, e descreveram como Caen tinha sido completamente destruída, tão ou mais que Paris. Ser uma cidade menor não tinha isentado sua população da terrível tragédia, e somente um punhado tinha sido sortudo o suficiente para terem sobrevivido. O casal também atualizou os visitantes das notícias ao redor do mundo, porque Xamã tinha conseguido usar seu rádio transmissor para receber informações de outros sobreviventes em terras distantes.
— Final da tarde é o melhor horário — Xamã explicava —. Consigo escutar desde os Estados Unidos até o Japão se tiver nas frequências certas. Todo dia lá pelas seis horas eu começo a escanear por transmissão. Melissa foi quem projeteu e construiu a antena, pena que o receptor aqui não pega mais frequências.
— Catei o que achei de antena de televisão e cabos por aí, e aos poucos consegui montar um transmissor enorme em cima daquela casa ali — apontou para um sobrado visível pela janela —. Deu mais certo que esperava. O problema é que, bem…
Um breve silêncio inundou o ambiente. Xamã respirou fundo, com dificuldade de dizer.
— Não sobrou muita coisa. Até agora contei — foi até a mesa de centro, chacoalhou os livros até cair uma folha de papel — 7490 pessoas. No mundo inteiro. Claro, este número é somente dos grupos com radioamador, mas mesmo assim…
Nove e Gregório se chocaram. Não era possível que a humanidade estava a um passo da extinção. Mesmo que multiplicassem por mil, ter 7 milhões de pessoas quando tinha 7 bilhões era uma catástrofe terrível.
— Deve ter muito mais que isso. Encontrei várias pessoa em Lisboa antes de sair, mas ninguém com rádio — Gregório estava incrédulo.
— Mas Paris ficou deserta. Quero dizer, no início ainda tinha muita gente, mas aos poucos… foram indo… — Nove tinha dificuldade de falar e engoliu em seco.
Palhoça miou. Gregório perguntou:
— Então no Leste ainda tem povoamento?
— Leste? Japão? China? Sim, tem. Não são muitos, porém — assentiu.
A expressão de Gregório tinha ficado animada, mas não disse nada. Melissa ficou confusa com a reação e começou a acariciar o gato.
— Isso é bom? — ela perguntou.
Gregório ignorou a pergunta, sorriu e então disse:
— Vou partir amanhã. Agradeço a hospitalidade se permitiram eu dormir aqui hoje.
— Claro — Melissa respondeu —. Mas por que a pressa?
— Tenho algo a fazer. Mas agradeço novamente.
Gregório evadiu das perguntas mais incisivas dos dois sobre o que tanto ele teria que fazer. Não poderia dizer, não poderia explicar, no máximo poderia dizer a eles que estava indo para o Leste. Um segredo que teria que ser bem guardado, ao menos enquanto ele não chegasse lá. Porque se este segredo vazasse, as consequências poderiam ser terríveis tanto para a pessoa que soubesse quando para todo o restante da humanidade.
Os dois passaram o restante do dia explorando a pequena vila e conhecendo seus habitantes, estudando o modo de vida deles e entendendo o sistema de governança. Afinal, ao menos para Nove, aquela seria sua próxima morada e talvez se assentasse ali permanentemente. Os poucos moradores eram educados, simpáticos e entusiasmados em demonstrarem o quanto contribuíam para o sucesso da vila. E claro, tinham um respeito profundo por Xamã, aquele que conseguiu liderar este punhado de gente para que a vida continuasse. Porque a vida tem que continuar, não importa as adversidades.
De noite, Melissa ofereceu uma sopa deliciosa, a comida mais deliciosa que ambos tinham experimentado nos últimos dois anos, e preparou um quarto para dormirem. Finalmente teriam colchões limpos e confortáveis, com travesseiros macios e cobertas que não fediam. A lâmpada elétrica em vez de uma lamparina velha iluminava o cômodo, enquanto os dois se preparavam para dormir. Gregório pretendia sair antes do nascer do sol. Já Nove estava um pouco melancólica.
— Acha que vou dar certo aqui? — ela perguntou.
— Por que não daria? Só tente dar menos patadas, pode ser que em francês elas não funcionem bem.
— Ha-ha! — ironizou.
— Mas falando com seriedade, tu não tens outro lugar, tens? Não tens. Cento e poucos habitantes, mas autossustentável. Tem comida, casa, cama limpa, em troca vai ter que trabalhar um pouco. Mas nada mal. Melhor que aquele prédio mofado que você estava. Vida nova, aproveita.
— Só que… você vai sozinho? Você vai pro Japão sozinho? É louco? Pensava que o Leste era, sei lá, uma Alemanha, no máximo uma Romênia…
— Eu preciso ir. É uma missão.
— Não sabia que era religioso.
— Nada a ver. Não posso dizer. Eu quero dizer, porém não posso.
— Por que não?
— Aceita. Vais dormir — balançou as mãos para que Nove ficasse na dela.
— Eu vi você desenhando o Palhoça. Deixa eu ver seu caderno.
— Não! Vai dormir, caramba — Gregório estava irritado já com a insistência. Virou para o lado no colchão e fechou os olhos tentando relaxar. Mas tinha esquecido de desligar a lâmpada. Então escutou barulho de passos e alguém remexendo em sua mochila.
— Devolve! — gritou. Nove estava teimosa, insistente, desagradável. Gregório correu atrás do caderno, que ela se recusava a devolver, se agarrando firmemente —. O que você tá fazendo? Me dá esse troço!
Nove segurava forte, abraçando o objeto, enquanto Gregório tentava arrancar de seus braços. A briga parecia um cabo de guerra, ele tentando puxar violentamente o caderno, a garota indo mais para trás até enconstar na parede, se recusando a devolver. Até que nessa disputa de trações opostas, o sangue subindo à cabeça de Gregório, num puxão repentino e com força, o caderno tem suas folhas arrancadas, destruindo alguns desenhos. Neste momento…
Neste momento.
Um brilho intenso, cegante, mais claro que mil sóis, partindo do centro da testa de Gregório pintou o piso, o teto e as paredes de branco, transformando o quarto como se fosse em um vazio, um branco uniforme, adimensional, e então uma esfera negra, mais escura que a inexistência, surgiu no ar como se levitasse e começou a sugar a própria existência de Nove, como se sua forma desfigurada se espaguetificasse e orbitasse a esfera negra como um planeta que caía em sua direção, desaparecendo num análogo de horizonte de eventos, e a própria Nove estava enxergando sem ver, escutando sem ouvir, e sentindo sem sentir seu próprio passado, presente e futuro em cores distorcidas e sinergéticas como se um raio de tempestade percorresse todo seu corpo e alma sem descansar, dançando dentro de um cubo de 10 dimensões cujas faces formavam cubos de 9 dimensões e assim por diante, sobrecarregando todo o sistema nervoso da garota que estava a ponto de se desfazer em partículas subatômicas.
Mas Gregório conseguiu interromper a estratificação a tempo, antes que Nove se desfazesse. O quarto voltou a sua forma normal, o brilho e a esfera desapareceram, a garota desmaiou com o peso do próprio corpo caindo de lado no chão.
Ela estava viva. Por pouco. Muito pouco. Sua consciência quase tinha ido para o Limbo.
Gregório carregou seu corpo até o colchão ao lado, cobrindo com o cobertor. Apagou a lâmpada. Nove teria uma longuíssima noite de sono.
***
Os dois balançavam as mãos se despedindo de Xamã e Melissa, ela, segurando Palhoça nos braços e balançando sua patinha como se ele se despedisse também. Apesar de tentarem de mil maneiras convencer os visitantes a não partirem, Nove tinha decidido ir com Gregório para o Leste. Perceberam que Xamã derrubava algumas lágrimas pela emoção de ter uma visita depois de tanto tempo e um depois vê-los partir. Os dois aos poucos se distanciavam da vila, das casas, que ficavam cada vez menores e desapareceram completamente atrás de uma colina quando a estrada fez um curva.
— Entendeu porque eu disse que eu não podia dizer? Por pouco você não morreu, ou pior, poderia ter ficado eternamente no Limbo! — Gregório ainda estava bravo com a garota.
— Eu sabia que tinha algo errado. Não sabia o que era. Aquele caderno de desenhos… Eu tinha que descobri antes que você fosse embora! — apesar de tudo, ela estava orgulhosa do que tinha feito.
— Tu quase morrestes! — ele retrucou.
— Mas nunca ia saber que você é um Serafim! Para mim isto era uma lenda, histórias que inventaram na catástrofe.
— Agora tu sabes a verdade. Não foi guerra. E eu não era. Eu me tornei por puro… azar? Ainda não sei direito como funciona, não consegui compreender tudo quando me adsorveram. Se eu contasse para você, você não iria acreditar em primeiro lugar, e segundo, dependendo da tua reação você poderia desencadear a estratificação, exatamente o que desencadeou ontem. Todo mundo naquela vila poderia ter sido absorvido se eu não tivesse controlado a tempo. O caderno é o objeto que me ajuda a controlar. Cada desenho que faço é pra isso, são dimensões para dispensar a energia, por isso estou sempre desenhando.
— Não entendi quase nada.
— Já disse. Nem eu entendo direito. Eu apenas sei. Agora que você rasgou as folhas ele perdeu um pouco do efeito, ainda bem que tinham fita para colar.
Nove fez um bico com a boca e abaixou a cabeça dizendo de forma meiga porém arrependida.
— Desculpa…
Gregório olhou de lado como se reprovasse uma criança mal-educada e disse:
— Eu tô indo pro Leste porque eu sei que lá está o reversor. Dá para reconstruir uma parte do mundo e pelo menos quem está no Limbo dá pra trazer de volta. Talvez. Há uma chance… Mas quem morreu, morreu…
— Então era isso quando você disse que eu ia saber a hora de te ajudar? Que eu ia pegar o caderno, quase sofrer a espaguetificação, e então sentindo uma culpa imensa eu iria te acompanhar até o Leste? — ela perguntou.
— Eu não sei. Eu só sabia que era um certo momento, mas não exatamente o que era e quando. É assim depois que virei Serafim. Apenas sei, sem saber o porquê.
Nove então jurou que iria proteger Gregório. Ser um Serafim não lhe dava invulnerabilidade, pelo contrário, ele era tão mortal quanto qualquer outro humano e pior, poderia desencadear sem querer a estratificação e acabar por dizimar o que restou da humanidade. Ele tinha que confiar no gatilho rápido da Nove com sua sniper para protegê-lo em sua longuíssima jornada para o Leste. Sua missão atribuída ao acaso era um fardo mas também era uma motivação porque significava que apesar da catástrofe estava vivo. E passo a passo, a cada metro, a cada cidade, a cada casa abandonada, Gregório e Nove, juntos, iriam em direção à última esperança da humanidade, a última carta na manga. Não era coincidência, óbvio, porque no grande esquema das coisas a catástrofe era um teste, e eles estarem nesta jornada talvez fosse parte do plano. Os dois eram peças de um teste do universo para saber se a espécie humana estava preparada para a próxima fase da civilização.