Tic.

Tac.

Tic.

Tac.

O relógio pendurado no pilar de concreto cantava os ponteiros a cada segundo, marcando o ritmo do ambiente. O pilar retangular pintado de branco hospitalar ficava no meio de um enorme espaço aberto recheado de cubículos de escritório, com divisórias em cinza varsóvia se elevando até a altura do peito, separando cada espaço que continha uma mesa, um monitor e uma cadeira. Durante o dia, geralmente — mas não sempre — das oito até a hora que a alma se esgotava, o ambiente se efervescia de um zumbido monótono de conversas paralelas, telefones tocando, impressoras funcionando e o cla-cla-cla dos saltos altos que trafegavam pelos corredores entre os cubículos. O layout se assemelhava a um labirinto, e se alguém quisesse ir de um cubículo a outro do escritório teria de trançar entre as escrivaninhas como um minotauro farejando a saída. Os quatro lados do grande espaço retangular que formava o décimo terceiro andar eram revestidos por vidros que davam de vista para o importante bairro comercial e financeiro da cidade. Ainda que se argumentasse que o trabalho pudesse ser monótono e desinteressante, alguns diriam que a visão daquela altura era de tirar o fôlego, literalmente.

Em outras palavras, apenas um escritório open space com uma fachada moderna.

Que Samanta odiava. Não só porque sua mesa ficava exatamente de frente para o pilar de concreto, a separando por apenas uma divisória e um corredor, bloqueando a vista magnífica da cidade, como também detestava o próprio conceito de open space. “Moderno e chique”, ironizava mentalmente toda vez que a porta do elevador se abria e revelava aquele zoológico de gente de camisa social e meia calça que não dava valor ao trabalho. O espaço de trabalho era ok — apenas ok —, a cadeira lhe dava um pouco de dor na lombar, o monitor nem era full HD, e aquele cinza e branco por todo lado insinuava que estava no hospício. Mas preferia aturar aquele zoológico porque era melhor que carregar cinquenta quilos de cimentos pra lá e pra cá que nem seu pai fazia, o que lhe rendeu uma hérnia de disco terrível e câncer de pele de tanto trabalhar sob sol escaldante.

Que Deus o tenha.

Porém, hoje, era diferente. O circo havia sido desarmado e os palhaços haviam se recolhido, exceto Samanta. Já passava das dez e meia da noite de uma sexta-feira que a empregada exemplo mergulhava nas trocentas planilhas de Excel, passando e revisando parte das contas da empresa logo antes do fim do ano. As luzes tinham sido quase todas desligadas pelo sistema automático, deixando apenas sua luminária de mesa com uma lâmpada amarelada e as luzes de emergência iluminando suavemente o labirinto até a porta dos elevadores. Seu trabalho como assistente financeira lhe dava apenas um salário ok, o suficiente para os pequenos prazeres da vida, mas muito aquém para realizar o sonho da casa própria que tanto desejava. A mulher, que ainda teria algumas primaveras antes dos trinta anos, mantinha os olhares fixos nos números e nas fórmulas, escrevendo um relatório que provavelmente não dariam mais que vinte segundos de atenção, que teria que ser entregue segunda-feira de manhã sob a benção do seu chefe. Pior ainda, não era a primeira, nem a segunda, nem a terceira vez que ficava até depois do horário para agradar o saco alheio. Já havia perdido as contas de quantas vezes tinha ficado mais de doze horas com a bunda na cadeira do cubículo digitando no computador algo que só fazia sentido para as máquinas e os humanos no topo da cadeia alimentar. Inscrições rúnicas com o objetivo de fazer com que os deuses sentissem bem ao verem números bons ficarem grandes e números ruins ficarem pequenos. Óbvio que ela sabia disso, mas se submeter a essa tortura lhe punha comida na mesa e não traria câncer de pele. Sobre as hérnias de disco já não estava tão certa.

E talvez — talvez, se se esforçasse bastante — uma promoção para o título de analista financeira que lhe dava um substancial aumento de salário e a possibilidade de usar o carro da empresa. Não que ela tivesse carteira de motorista.

Lidar com números enormes o tempo todo enquanto seu salário tinha muito menos dígitos lhe trazia uma mistura de inveja, ganância e sensação de injustiça. Inveja porque nunca na vista ela teria toda aquele dinheiro que passava diante de seus olhos. Ganância porque queria uma parte daqueles números para si, embora seu freio moral ainda estivesse em ordem, e jamais pensou pela sua cabeça desviar qualquer tipo de verba. Por fim, era injusto a quantidade de riqueza que aqueles números representavam. Não que fosse uma comunista, mas a disparidade econômica que tinha que lidar todo dia lhe dava uma sensação conflitante. Não entendia — na verdade, ela era paga para não entender — do porquê não alocar um pouco mais de fundos para uma cadeira mais confortável e um monitor de maior resolução. Quem sabe um pequeno agrado de desempenho. Ah, não era hora de reclamar, estava convicta que se ela fosse produtiva o suficiente e trabalhasse para valer, quem sabe em cinco anos não estaria sendo promovida a CFO da companha. Opa, o jantar no restaurante chique com os executivos enquanto discutiam a estratégia dos próximos cinco anos da empresa não seria nada mal. As viagens a “negócios” para Paris. Quem sabe aprender a jogar golfe com os fornecedores?

Samanta varreu os pensamentos intrusos que estavam atrapalhando sua concentração. Não que depois de catorze horas de trabalho ela estivesse em plena capacidades mentais. O tic tac do relógio logo à frente, quase no topo da coluna, subitamente passou de uma agradável companhia para um chicote que a torturava. Aliás, aquele relógio sempre a incomodou, o barulho mecânico que sempre ecoava quando o escritório estava vazio. Levantou os olhos do monitor e olhou para os ponteiros, que marcava 10:32, encarando com ódio.

Tic.

Tac.

Tic.

Tac.

Cada tic e tac do ponteiro dos segundos penetrava em sua mente como agulhas, a fazendo lembrar que em vez de estar inebriada de planilhas preferia estar inebriada no álcool em algum bar com os amigos que fazia meses que não os via, sempre dando a desculpa que estava muito ocupada com o trabalho. Quem sabe até em uma dessas saídas de bar acabar flertando com um possível pretendente que se tornaria seu imaginário noivo para o seu futuro imaginário casamento. Ou, se tivesse mais cansada e apenas quisesse um aconchego, ir ver a mãe que fazia semanas que não a visitava, nem mesmo para pegar as marmitas congeladas que ela fazia para a conveniência da filha. Que seja, balançou a capeça e varreu essas meras ilusões que se intrometiam nos cálculos de Excel. Deu um leve sorriso ruborizado e voltou os olhos ao monitor, já incerta do que estava fazendo segundos atrás. Sua carreira não iria prosseguir com pensamentos bobos.

Mas estava bastante extenuada e alguns minutos depois os dedos pararam de digitar. Sentia as articulações doerem, os olhos arderem, as costas reclamarem, a cabeça gritar. Certamente precisava de uma pausa, nem se lembrava a última vez que tinha tomado um copo d’água ou ido ao banheiro. Sua barriga ronronou de fome. Samanta se deu conta das modificações ainda sem salvar e deu um habilidoso CTRL+S por todos os arquivos, embora soubesse que ainda tinha trabalho a terminar. Deslizou as mãos do teclado e relaxou os braços, que simplesmente caíram dos lados da cadeira, reclinou a cabeça para trás olhando o teto e relaxou o corpo, se esparramando de forma não ergonômica na cadeira desconfortável. Os olhos fecharam, pedindo um pouco de arrego. Debaixo das pálpebras, a escuridão de um estressante dia, acompanhados pelo incessante movimento do relógio. Os segundos passavam em ritmo intenso, se acelerando a cada passo.

Tic.

Mais rápido.

Tic tac.

Mais rápido.

Tic tac tic.

Muito mais rápido.



Tac.

Algo lhe tocou o ombro direito. Seu corpo estremeceu e contraiu, quase fazendo-a saltar da cadeira e virou o pescoço para trás. O coração estressado pulou para a boca e sentiu uma nevasca percorrer de norte a sul de sua espinha em um tremelique ao perceber o que estava atrás de si.

Vazio.

Absolutamente nada.

As luzes das saídas de emergência e de sua luminária eram suficientes para ela perceber que não havia nada ou ninguém nos cubículos, apenas as divisórias sem sal do escritório e as sombras que projetavam no chão e em outras divisórias, e ao fundo, a paisagem iluminada da cidade. Ficou observando para trás por mais alguns segundos procurando alguma coisa anormal, mexendo os olhos como o de uma mosca, mas tudo que viu foi apenas a tediosidade do zoológico sem animais. Soltou um pequeno sopro de ar pelos lábios aliviada.

— Impressão…?

Racionalizou que era a clássica sensação fantasma que as pessoas sentem de vez em quando, principalmente quando estão cansadas, da mesma forma que sentem um celular vibrar num bolso vazio de calça. Ainda deu uma pequena risada relaxando os músculos tensionados.

Virou-se de volta para a mesa, rotacionando na cadeira — que apesar de ser desconfortável, girava —. Pregou os dedos na mesa, puxando seu corpo mais próximo, afastou o teclado para trás e cruzou os braços, repousando a cabeça em cima, semelhante a um adolescente dormindo numa aula tediosa. Fechou os olhos, extenuada.

Não passou um minuto. A mesa balançou de um lado para outro. Novamente, suas pálpebras se abriram e das mesma forma que antes seu corpo se contraiu e saltou. Então, subitamente, a mesa parou.

— Que caralho, hein?

Desta vez estava menos tensa e mais curiosa, tentando entender o que havia sentido. Era aquele tipo de sonho que ocorre no limiar entre estar acordado e dormindo? Seu cansaço estava provocando alucinações? Será que sem querer chutou o pé da mesa e não se lembrava? Sem ter uma resposta concreta e já duvidando de sua sanidade, que naquele momento já perdia um pouco do controle da realidade depois de tantas horas na frente da tela contando feijões. Analisou a mesa cinzenta de cabo a rabo, verificando até mesmo embaixo da tampa, mas logo se sentiu uma idiota por não existir nada ali além de um pedaço de papel descartado, que ela recolheu e jogou no lixo.

Então, lembrou do gaveteiro de ficava logo à sua esquerda, sob a mesa. Assim que puxou a primeira gaveta, surgiu um celular com a tela iluminada. Havia dezenas de mensagens não lidas, mas a mais recente, de duas horas atrás, era de sua mãe, mostrada de forma proeminente na tela de bloqueio.

“Não volte muito tarde para casa, é perigoso. Bjs”

Concluiu duas coisas: que tinha conseguido passar mais de duas horas longe do celular — um grande feito, e o principal motivo de guardá-lo na gaveta, para evitar interrupções — e que era a mensagem que tinha feito a mesa vibrar, obviamente. Estranhou brevemente que o aparelho estava em modo silencioso com todo as notificações desligadas, mas ignorou o fato e mandou uma mensagem de volta a manhã:

“Já tô indo”

Apenas isso. Sem cumprimentos, sem saudações. Talvez teria sido melhor mentir e dizer que já estava em casa para não preocupar a mãe, mas já era, a mensagem tinha sido enviada. Direta como sempre foi. Apesar que duvidava que mais algo ia sair de seu cérebro em estado quase amorfo depois de tantas horas na frente do computador. Se sua mente estava pregando ilusões, seria perigoso se cometesse algum erro no trabalho. Apertou CTRL+S de novo no teclado para ter mais certeza que o trabalho estava salvo, afinal, sua carreira dependia daqueles pixels na tela, e começou a fechar as planilhas no X do canto superior de cada janela. Não tinha muita certeza porque estava fazendo isso, afinal, ela teria que voltar amanhã para continuar o trabalho antes de entregar segunda-feira, mas seu pequeno problema de TOC a impedia de deixar o computador “sujo” ao final do dia. Organização e limpeza em primeiro lugar.

Quando apertou o X na última janela aberta, algo estranho aconteceu. O monitor piscou, ficando completamente preto por alguns segundos, e retornou à imagem anterior. Samanta achou bizarro o comportamento, mas não deu muita bola. Apertou o X novamente, e mais uma vez a tela piscou em preto por alguns segundos, revelando a imagem da última janela que se recusava a fechar.

Era a janela do navegador. A mulher tentou ainda uma terceira vez e a mesma ocorreu. Pensou se tratar um bug qualquer e decidiu usar o que restava de sua destreza com o polegar e indicador para apertar no teclado o famoso ALT+F4, que daria um fim de uma vez por todas naquela palhaçada.

A tela ficou preta, e dessa vez por vários segundos. Samanta olhou desorientada para o monitor, socando a mesa a xingando em voz alta:

— Que bosta de computador. Essa empresa só tem essas máquinas de merda!

Decidiu dar o golpe final na pobre máquina: socou com as laterais dos punhos fechados o teclado, ejetando teclas do equipamento que rodopiaram no ar. Ao ver a bagunça que tinha feito e temendo ter estragado de verdade o computador, o que a atrapalharia em fazer o trabalho no sábado, colocou as duas mãos sobre o rosto se escondendo de vergonha.

– Sou uma idiota.

Subitamente, o monitor se acendeu, a luz branca atravessando as frestas entre os dedos de suas mãos. Ela abaixou os braços e olhou fixadamente para o monitor. A tela parecia enfeitiçada como se duas mãos fantasmagóricas emergissem do interior dos pixels puxando sua cabeça vagarosamente cada vez mais perto, até que seus olhos cansados perceberam que o computador mostrava um inesperado site de notícias que revelava em letras garrafais a seguinte chamada:

FUNCIONÁRIO DE GIGANTE MULTINACIONAL É ENCONTRADO MORTO EM SUA MESA

Colegas dizem que funcionário morto tinha trabalhado 16 horas seguidas. É o terceiro caso neste mês

As sobrancelhas de Samanta se levantaram. Não tinha ideia de como havia parado naquele site, talvez o seu soco violento tivesse digitado uma merda qualquer e caído de forma aleatória naquela página. Qualquer que fosse o motivo, os olhos se mexiam lendo cada palavra em um efeito hipnotizante que a forçava a continuar a ler. Sentia uma sensação de angústia e desrealização mas algo a impedia de desviar o olhar das letras. A curiosidade que matou o gato. Queria ler, deveria ler o artigo, e ao mesmo tempo queria fechar os olhos e ignorar.

Um homem de 33 anos foi encontrado morto sobre uma mesa de trabalho na sede da gigante multinacional KRS, em ███████, na manhã desta quarta-feira. Segundo colegas em condição de anonimato, o homem, que foi encontrado logo que os primeiros funcionários chegaram ao escritório, frequentemente fazia turnos de 16 horas na tentativa de bater metas de desempenho. Ainda, segundo eles, a pressão pela longas horas era comum caso quisessem a chance de receberem aumentos e serem promovidos.



A polícia diz que a principal causa da morte foi parada cardiorrespiratória, embora não tenha confirmado se o motivo originador teria sido o estresse das condições de trabalho. A polícia descartou um homicídio. É o terceiro caso só este mês na região, que passa por um aumento assustador no número de trabalhadores que morrem em seu local de trabalho em relação ao último ano.



Representantes da companhia se negaram a dar entrevista. Em nota, a empresa apenas lamentou o caso e disse que um comitê interno irá apurar o incidente.

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Samanta se encolheu. O mesmo gelo na espinha que tinha sentindo anteriormente retornou em uma espasmo involuntário mas parecia muito mais intenso. Os pelos eriçaram dos pés à cabeça como se a temperatura tivesse caído vinte graus. Os olhos estavam grandes e as pupilas dilatadas. O ar não estava querendo entrar para os pulmões, seu diafragma fazia movimento irregulares fora de ritmo. O tic-tac do relógio ecoando no vazio do escritório repentinamente carregava um significado mórbido, assim como um relógio na parede do hospital que anunciava a hora final.

“Samanta Olivia Cascavel, hora do óbito: vinte e duas e cinquenta e cinco.”

– O que estou pensando, meu Deus!

Ao perceber que sua imaginação tinha criado um cenário terrível, tentou tomar o controle da situação. Apesar da sua posição enrijecida, conseguiu dar um belisco na própria bochecha tentando se trazer para a realidade. Tinha sido apenas uma coincidência, certo? Apenas uma notícia que sem querer foi pesquisado durante o soco no teclado, nada mais que isso. Claro, uma tragédia para a família, um trauma para os colegas, sem dúvida. Mas assim como tanta outras notícias tristes, era apenas mais um entre tantas. Ela não tinha trabalhado tudo isso, pensou, e além disso não é como se ela fosse tão workaholic assim, há muitos outros piores que ela, se justificava. Como por exemplo, fazia pausas frequentes e evitava a todo custo trabalho aos finais de semana — exceto este. Tinha sido apenas uma coincidência. Um irônico rolar dos dados que levou aquela notícia, apenas o cérebro cansado imaginando coisas, certo?

Apenas uma coincidência, não é… mesmo?

Bizarramente, do nada, uma impressora começou a trabalhar. O ruído do papel sendo puxado da bandeja, o toner se movendo para lá e para cá, ecoando como uma britadeira naquele ambiente com péssimo tratamento acústico. Samanta girou a cabeça para a impressora, observando a máquina a trabalhar a alguns metros de si. Não era possível, só estava ela no escritório, a menos que a impressora também tivesse algum bug e alguma impressão travada na fila finalmente tinha sido liberada.

— Estou ficando louca? — se perguntou em voz alta.

Tensão. Estresse. Suor. Calafrio. Borboletas no estômago. Samanta não estava acreditando no que estava acontecendo. Estava assustada, sem entender. A impressora continuava a trabalhar sem parar, enchendo a bandeja de saída com papéis quentinhos saídos do forno.

A curiosidade matou o gato.

Se levantou da cadeira e caminhou em direção ao equipamento, temerosa, vagarosa, seu salto alto fazendo clac-clac-clac no chão frio. Cada passo fazia tremer seu corpo inteiro em contínua antecipação. Seu blazer era incapaz de aquecê-la, então cruzou os braços um em cima do outro como se tivesse entrando numa geladeira. Assim que chegou ao pé da impressora, o barulho cessou e um aviso surgiu na tela:

IMPRESSORA SEM PAPEL.

Samanta levantou a sobrancelha, confusa. Não que realmente precisasse de mais pepel. Uma resma havia se formado logo acima, na bandeja de saída, pronto para ser pego por Samanta, que esperava sentir a temperatura morna de uma impressão bem sucedida.

Apenas sentiu um frio de queimar nas pontas dos dedos.

Carregou a resma de volta para a sua mesa em passos menos vagarosos que antes e largou a pilha de papel embaixo da luz amarelada da luminária. Espalhou as cópias e percebeu que a lógica do Universo havia se esvaído: todas as folhas mostravam o artigo que ela tinha acabado de ler no computador. O mesmo título, as mesmas palavras. Não acredita que era possível, não, era impossível, que ela tivesse conseguido entrar no artigo e mandado imprimir dezenas de cópias tudo num golpe só. Levou a mão a testa tentando sentir a própria temperatura, pois talvez já estivesse tendo alucinações com uma febre acima de quarenta. Até sua testa parecia gelada. Tudo estava frio, o ar, os papéis, si mesma. Do nada, todo o calor do ambiente tinha sido sugado por um ar-condicionado extremamente potente.

Uma folha caiu no chão. Como se escorregasse sozinha de cima da mesa, melhor, como se movesse sozinha, caindo com o verso virado para cima. Samanta recolheu e levantou o papel a altura dos olhos não esperando que a impressora também tivesse imprimido na parte de trás — interessante recursos das impressoras comercias —. Colocou debaixo da luz tentando entender que porcaria era aquela que estava vendo: era uma imagem em preto e branco, extremamente borrada, como se fosse uma fotocópia da fotocópia da fotocópia e assim recursivamente, mostrando um contorno borrado que poderia ou não ser uma pessoa. Junto a essa silhueta que ficava mais ou menos no meio da página, do seu lado direito, um objeto que parecia retangular mas com bordas difusas. Do outro lado, à esquerda, um objeto longo tão alto quanto a silhueta com o topo em formato indistinguível. Acima da figura, um objeto circular com linhas de borda indefinidas partindo do centro para fora, muito parecido com um relógio em baixa definição. O fundo estava tão acinzentado e difuso que Samanta não conseguiu identificar se era um lugar ou outra coisa.

Algo se moveu. Instintivamente, Samanta girou sua cabeça para o lado esquerdo tentando seguir a coisa que havia se mexido na sua visão periférica, onde apenas residia os cubículos de open space vazios, com cadeiras de estofado preto e monitores desligados. A mulher tinha certeza que tinha visto alguma coisa, um rastro, um vulto passando de um lado para outro sem fazer som algum, como se…

Tic.

…como se uma entidade passasse correndo por entre os corredores.

Tac.

Um touro?

O relógio na parede à frente caiu no chão com um estrondo.

Samanta, que estava de pé, pulou de susto de novo, seus órgãos internos querendo sair pela boca, e soltou um grito curto, angustiada. Parecia que seu grito tinha reverberado nas paredes de vidro e voltava para si de forma estridente perfurando os tímpanos, a fazendo tapar os ouvidos com as mãos.

E então, subitamente, os papéis espalhados em sua mesa começaram a voar em uma chuva de celulose, fazendo sons de folhas vibrando ao vento. Em seguida, as dezenas de folhas no ar criaram um redemoinho como um tornado e se levantou para perto do teto, sendo ejetado para os lados e parecendo formar figuras fantasmagóricas relembrando face: olhos, nariz, boca, boca, orelhas. Samanta achou, melhor, estava certa, que nessa noite de loucura tinha visto em certa momento os contornos de um crânio retorcido se aparecer temporariamente enquanto os papéis giravam no ar a poucos metros de si.

– Meu… Deus… que porra é essa?

De novo, pela enésima vez em poucos minutos, parecia estar tendo um ataque de pânico. A adrenalina havia subido a níveis perigosos, o coração batendo a duzentos por hora, o suor frio escorrendo dos cantos da testa borrando a maquiagem já esmaecida depois de um longo dia. Foi nesse momento, a perceber que estava acontecendo um fenômeno que ela não podia explicar, que qualquer humano que se preze faria a escolha primitiva entre lutar ou correr. Samanta tentou decidiu correr. Tentou pegar sua bolsa rapidamente de cima da mesa com uma mão, derrubando papéis ao chão enquanto arrastava o item de couro duvidoso pela mesa, mas seus dedos escorreram entre a alça, derrubando o objeto no chão. Sentindo o terror sussurrar em seu ouvido, ignorou a bolsa e em galope correu em direção ao saguão dos elevadores, atravessando o mar escuro do labirinto sob o luar das luzes de emergência. Nem ela mesmo acreditava que tinha aptidão física para tal corrida, seu salto fazendo cla-cla-cla até chegar ao saguão dos elevadores que ficava bem no meio do escritório, separado por um porta de vidro.

Com controle de acesso.

Seu crachá estava na bolsa.

Um caminho sem saída em um labirinto.

Labirinto.

Minotauro.

Tic.

Tac.

Tic.

Tac.

Parecia ouvir um barulho de sapatos se aproximando de si enquanto socava a porta de vidro inutilmente tentando fazê-la abrir. Cada passo ecoava pelo escritório, mas depois daquela bizarra dança da celulosa se recusava em olhar para trás, temendo que a qualquer momento alguma coisa inexplicável iria surgir em seu campo de visão. Entretanto, ela não só ouvia como sentia algo se aproximando, o clec-clec-clec ficando cada vez mais intenso e aterrorizante, se misturando ao ruído estrondoso do vidro sendo socado que parecia vibrar o prédio inteiro.

– Meu Deus, alguém me salve, por favor, meu Deus…

Estava chorando profusamente, seu coração não estava só galopante, mas estava… destruído. Mesmo assim, lembrou das luzes de emergência que ficavam sempre acesas e pensou que aquelas portas, por motivos óbvios, sempre estava abertas pelo lado de dentro. Ela só tinha que se virar para trás e seguir os sinais de emergência. Tentou girar o corpo, sua respiração cada vez mais rápida, mas nunca, jamais, tinha sentido uma aflição tão intensa conforme…

Clec.

…o eco dos sapatos ficava cada vez mais alto e…

Clec.

…as luzes de emergência e dos elevadores se desligarem completamente e…

Clec.

…todas as impressoras do andar começarem a trabalhar e…

Clec.

…os elevadores tocaram o sinal que tinham chegado no andar e…

Clec.

…Samanta não enxergava mais nada. Total escuridão. O barulho dos sapatos havia parado, e pior, ela sabia exatamente porque agora não escutava mais nada.

As saídas de emergência não eram mais uma opção naquele breu.

Alguém estava atrás de si. Não enxergava nada mas sentia alguém atrás de si.

Espremida entre a porta de vidro e a presença misteriosa, Samanta parou de bater no vidro, silenciando o escritório. Congelou de medo. De horror. Nem em seus piores pensamentos imaginou que era possível subitamente algo assim estar acontecido. Até poderia ter pensado que era uma brincadeira sem graça pregada por algum colega escondido que a odiava, mas depois de ter visto com os próprios olhos a sequência de acontecimentos determinou que era impossível ser obra de uma alguém deste plano.

Nunca tinha acreditado nessas coisas.

Até agora.

Não precisava olhar para trás.

Não queria olhar para trás.

Não podia olhar para trás.

As mãos já doloridas de tanto bater na porta de vidro. Em estado de pânico, choque, horror e incredulidade, Samanta decidiu olhar para trás.

E viu.

Era obra do sobrenatural.

Alguém estava sim atrás de si.

Não.

Algo estava atrás de si.

O contorno cadavérico. Demoníaco. Dantesco. O que é que fosse aquilo entremeado na escuridão do andar iluminado somente pela suavíssima luz difusa do resto da cidade levantou ao alto um objeto que não pôde reconhecer, mas que tinha certeza que desceria sobre si como um martelo.

Então, Samanta soltou um grito áspero, ruidoso, terrível, destoante. O grito mais potente que tinha dado. O grito mais agudo que tinha emitido. Congelou sob a visão da alma penada e só ouviu o estrondo do vidro se explodindo em milhares de pedaços e sentiu seu corpo cair no chão rígido em um impacto violento, sem perceber que ainda estava se apoiando sobre a porta de vidro. Afiados cacos de vidros penetravam em sua pele conforme ela tentava se orientar ainda no chão, sentindo a pele rasgar em agonia terrível. Subitamente, as luzes de emergência do escritório se acenderam e o saguão dos elevadores se iluminou com duras lâmpadas fluorescentes brancas, revelando o chão recoberto de cacos de vidro. Samanta levantou cambaleante, gemendo de dor devido aos cortes na pele, as palmas vermelhas, enquanto gotas de sangue pingavam ao chão e formava um rastro carmesim. Se arrastando entre o mar de vidro, ela se dirigiu até a frente dos seis elevadores que formavam o saguão, e apertou desesperadamente o botão, deixando suas impressões digitais pela parede.

Ao mesmo tempo, a porta dos seis elevadores se abriram, três em cada parede. Sem pensar muito, entrou na primeira cabine à sua frente e apertou o botão 0, querendo sair logo daquele pesadelo.

As luzes do saguão e dos demais elevadores se apagaram, deixando apenas a própria cabine iluminada.

A porta começou a se fechar.

A poucos centímetros de se fechar completamente, um clarão que lembrava um flash de câmera fotográfica inundou o lado de fora.

Os contornos daquela entidade se desenharam brevemente conforme o clarão se esvaía na fresta momentos antes da porta selar a cabine.

Samanta deu um salto para trás, grunhindo um grito apertado, já que sua garganta havia se fechado completamente. E então, assim que o elevador deu partida e sentiu o piso pressionar seus pés, a claustrofobia a abraçou de forma sufocante. O peito estava amarrado, o ar se recusava a entrar, um gosto metálico invadiu o interior da sua boca, a nuca ardia gelada. Seu corpo estava imóvel como uma estátua enquanto seu cérebro tentava processar o que tinha visto naqueles milissegundos. Lágrimas salgadas escorriam dos cantos dos olhos se misturando ao sangue que extravasava das feridas proferidas pelos cacos de vidro em seu rosto. Sua roupa ganhava tons avermelhados, o chão era pintado pelo sangue que escorria especialmente de seus joelhos.

O botão marcava o andar zero.

Mas ela sentia o chão subir.

De canto de olho, sem conseguir se movimentar do pânico, percebeu que os números no visor aumentavam em vez de diminuir.

14. 15. 16. 17.

O botão marcava o andar zero.

Quando finalmente conseguiu se sobrepôr ao estado paralisado deu um passo para trás, apoiando as costas no espelho do elevador. Em seguida, suas pernas cederam ao estresse e seu corpo deslizou para baixo, desenhando um rastro ensanguentado no espelho. Samanta não tinha mais forças.

Ela simplesmente pensou que morreria ali.

A mulher teria encontrado seu fim.

Pensou na mãe. Relembrou de como foi sofrido os anos após a morte de seu pai, quando viu sua mãe passar por todas as fases do luto, pouco a pouco, vitória a vitória até conseguir colocar sua vida de volta no lugar, ao mesmo tempo que Samanta se dividia entre trabalhar, estudar e cuidar da mãe, sem descanso quase vinte e quatro horas por dia. Quando a mãe se recuperou, decidiu que era hora de procurar algo melhor para sua carreira e num golpe de sorte conseguiu ser contratada para ser assistente financeira na empresa atual. Para retribuir o suporte e ter algo para ocupar a mente, a mãe decidiu fazer caixas de marmitas semanais para a filha atarefada que nunca tinha tempo de fazer a própria comida nos dias de semana. Trabalhava de manhã à noite, sob livre e espontânea pressão do chefe, sendo cobrada pelos colegas, atendendo reuniões sem sentido e recebendo comentários maliciosos pela falta de senso de moda. Engolia sapo pois acreditava que um dia o seu esforço de bater o ponto das oito da manhã às oito da noite, todo dia, seria recompensado com aumentos no salário, bônus e promoção. Ao menos, era isso que pensava nos últimos três anos de sua vida, que faltava apenas um pequeno relatório que uma hora sua carreira iria deslanchar. Havia se colocado um rótulo de workaholic, dizia que adorava novos desafios, aceitava qualquer tarefa como um meio de fazer nome, vestia a camisa da empresa.

Mas por dentro, Samanta estava sendo consumida. No último ano, cada dia que chegava naquele escritório sentia uma tortura, pelos colegas que ela achava que eram folgados, pelo trabalho sem fim, pelo relógio, pelo barulho da impressora, pelo ruído dos papéis, pelo tec-tec dos teclados. O mercado de trabalho não estava muito bom para achar outro emprego, o salário que recebia pagava seu aluguel e ajudava a mãe e até permitia pequenos luxos, mas não muito mais que isso. Usava seu tempo junto aos números e relatórios como distração para fugir das conversas atravessadas, já que tinha passado a evitar os colegas não produtivos — noventa por cento ou mais. Ela achava que ela era a única que trabalhava para valer.

Seu único conforto era as planilhas de Excel.

Se entregasse um minucioso relatório, que tinha sido ordenado pelo seu chefe, sobre as condições financeiras da empresa na reunião dos sócios segunda-feira de manhã tinha certeza que sua carreira finalmente iria deslanchar. Afinal, se ela tinha capacidade de fazer o trabalho do seu chefe ela teria capacidade para ir muito mais além. Seu salário poderia até duplicar e quem sabe abrir as portas para uma diretoria. O futuro era pleno e brilhante, apenas bastava se esforçar.

E deixar de ver a família.

E deixar de sair com os amigos.

E deixar de fazer refeições.

E deixar de cuidar da própria saúde.

E deixar de cuidar da própria mente.

Três anos, na primavera da vida que é os vinte anos.

Não tinha percebido que tinha sido tornado uma zumbi, sendo mantida viva por sociopatas que apenas queriam um corpo para consumir. Jogada ao chão do elevador, quase sem forças, Samanta havia chegado a terrível conclusão que a única assombração que existia neste mundo estava ali, em estado deplorável, depois das dez da noite no elevador de uma empresa que sempre a tratou como um mero número descartável na ficha do RH. O que havia vivenciado naquela noite era apenas um reflexo da atormentação que realmente sentia lá no fundo do seu coração. Depois de ter sido subjugada e usada por tanto tempo percebeu que havia chegado ao ponto de não retorno. Agora, a vida tinha batido à porta lhe cobrar.

O elevador terminou a viagem, anunciado com um som de sino. A porta se abriu, revelando uma escuridão logo à frente. Sem ter nunca ido àquele andar, não tinha noção do layout do local.

Mas não precisou nem se mover.

Antes mesmo de saber onde estava, subitamente, a mulher desprovida de forças para se mover foi arrastada por uma força invisível que a puxava de dentro da cabine para a imensidão do escuro, formando um rastro de sangue no chão conforme seu corpo se movia por si adentro daquele mar tenebroso.

– Aaaaaah, socorro! Aaaahhhh! Alguém me ajuda! Aaaaaaaaah!

Sua garganta se abriu como uma rolha de champanhe e Samanta começou a gritar histericamente a plenos pulmões em tom agudi enquanto seu corpo deslizava por onde Deus sabe onde, cada vez mais se afastando da luz do elevador que ficava cada vez mais distante.

– Meu Deus, me ajude! Aaaaaaah!

A mulher se debatia no chão utilizando o resto de suas forças, tentando se desvencilhar do que quer que a estivesse puxando, mas não havia nada físico que a prendia nessa corda invisível. Suas palmas batiam contra o piso frio sem nenhuma chance de se agarrarem a algo que ajudasse. Não conseguia ficar de pé, nem sentada, nem agachada, nem em nenhuma posição, seu corpo se recontorcia como um verme enquanto deslizava a plena velocidade. Então sentiu seus ossos da costela se quebrarem em um musical crepitar quando seu corpo colidiu com objetos não identificados no meio do caminho. Em seguida, seu braço se contorceu para trás quando ficou momentaneamente agarrado em outro objeto. E logo depois, sua face recebeu um golpe violento que quase a deixou inconsciente, girando sua cabeça para trás a poucos centímetros de quebrar seu pescoço. Seus gritos ficavam cada mais dolorosos, já que seu peito agora se enchia de uma queimação terrível e sua mandíbula poderia estar muito bem já fora do lugar. Sentiu os dentes se soltarem e o gosto metálico invadir novamente sua boca, engasgando com o próprio sangue cerrando completamente seus gritos e a fazendo tossir morbidamente.

Quando os encontros com os objetos cessaram, seu corpo começou a receber múltiplos impactos quando passou a ser arrastado ao longo de uma escada. Cada degrau era uma lança que Samanta sentia perfurar seus órgãos, em um movimento não muito distante de um queijo sendo ralado em um ralador. Ela tentava se proteger dos impactos mas sem conseguir ver nada, totalmente desorientada, com dores intensas e terríveis e sem conseguir controlar o próprio movimento, tudo que restou foi engolir o próprio sangue e tentar gritar o quanto pôde enquanto sua pele era dilacerada pelas quinas dos degraus. Então, ouviu o barulho de uma porta se destrancando e se abrindo em um movimento violento e seu corpo foi lançado ao ar e jogado para além da porta, viajando em arco até cair uma dezena de metros à frente se arrastando por um chão áspero que nem uma lixa de construção. As dores eram tão intensas e os ferimentos tão graves que sua consciência já estava se esvaindo, mas pelo menos o bizarro fenômeno havia cessado. Ela repousava com a face esquerda no chão, o braço deformado, a perna retorcida, o rosto inchado, o sangue escorrendo pela boca formando uma poça logo embaixo do olho esquerdo inchado.

Sua visão aos poucos ficava turva, mas conseguiu brevemente reconhecer onde estava: os equipamentos de ar-condicionado, antenas de satélite e as luzes da cidade refletidas nas nuvens baixas indicava que ela estava naquele momento no topo do prédio de sua empresa, embora nunca estivesse ali antes. Mas não havia outro lugar como este.

Então, com o olho direito, percebeu uma figura aproximar de si, caminhando vagarosamente do outro lado da laje. Inicialmente, não conseguiu distinguir o formato da figura devido a distância e a iluminação insuficiente. Aos poucos, o que quer que aquilo fosse caminhava passo a passo, aumentando o tamanho no campo de visão de Samanta.

Alguém aproximava.

Algo a aproximava.

A silhueta começou a tomar contornos ligeiramente mais humanos mas algo estava estranho. Como se sua consciência estivesse a meio ponto entre desperta e desacordada, Samanta percebeu que este algo era… Duas pernas, dois braços. A cabeça tinha uma cor branca confusa, talvez até amarelada, de onde partia duas protuberâncias diagonais com algumas curvas como se fossem

chifres.

A figura, silhueta, entidade, coisa, algo, assombração, vulto, demônio ficava cada vez mais nítida na visão turva e distorcida de Samanta. Todo seu corpo tremeu em um horror indescritível enviando sinais de dor dos pés a cabeça. Com a mandíbula quebrada e as costelas destruídas, a mulher era incapaz de dar um grito, apenas soltando um gemido tímido do pânico que sentia. As ventoinhas dos evaporadores de ares-condicionados pareciam girar em câmera lenta conforme os passos se aproximavam. Não é real, não é real, fantasmas não existem!, pensou ao perceber que a coisa já havia preenchido quase todo seu campo de visão.

A entidade então parou diante de si, permitindo que a mulher admirasse a forma assustadora e dantesca.

A parte superior da cabeça revelava um crânio com olhos profundos nos soquete oculares.

Os chifres partiam na diagonal e se curvavam para cima, com as pontas em uma cor preta infernal.

A parte inferior da cabeça, onde estaria o nariz para baixo, formava uma meia face como se estivesse sofrido uma queimadura de terceiro grau, revelando partes negras, fibras musculosas e uma camada amarelada de gordura.

A coisa vestia uma camisa social cinza manchada de sangue.

A gravata carmesim desajeitada enforcava seu pescoço.

A calça social preta com as bainhas rasgadas.

Uma mão carregava uma maleta de couro executiva preta que transbordava sangue pela fresta entre as duas metades.

A outra mão carregava uma foice.

Arte: lemoncakejay
Arte: lemoncakejay



O dito cujo abriu um sorriso de orelha a orelha revelando uma sequência de dentes amarelados e enegrecidos, levantou a maleta a altura do peito e disse em uma voz grossa e assombrosa:

— Estive te observando. Já que gosta tanto de trabalhar, trouxe um contrato que você a-do-ra-ria assinar.

A maleta se abriu. Uma folha de papel surgiu do interior e flutuou no ar até perto de Samanta, aproximando do seu braço deformado. Através da mesma força invisível que a havia deixado ali, seu braço se estendeu ao ar com o pulso girando em um ângulo impossível emitindo aterrorizantes estalos dos tendões se rompendo, torcendo a pele em parafuso e fazendo o corpo inteiro de Samanta se encolher de dor, que só pode emitir um grunhindo ocluso devido ao seu rosto cambaleado. O papel se pressionou contra os dedos ensanguentados da mulher, carimbando o formato de suas digitais sobre alguma coisa escrita que ela não conseguia ler. Em seguida, a folha flutuou de volta até dentro da maleta, que então se fechou sozinha.

— O contrato é por tempo indeterminado. Horas extras são não pagas, mas, vejamos, percebo que para você não há problemas, já que gosta de um trabalho longo e desafiante. Começa às três e trinta e três da manhã.

Samanta arregalou o olho e a face enrijeceu. A figura devolveu o olhar, balançando a cabeça de um lado ao outro, em ritmo como num pêndulo de relógio, clicando a língua a cada segundo.

Tic.

Tac.

Tic.

Tac.

— Local de trabalho…

A cabeça parou ereta, fez uma pausa dramática e então anunciou:

— No inferno!

A voz gravíssima e distorcida vibrou toda a laje em um vigoroso terremoto, levantando poeira ao ar e estourando imediatamente os tímpanos de Samanta, trazendo uma sensação de ter sido perfurada por agulhas dentro de seus canais auditivo. Praticamente surda, apenas aceitou a dor sem conseguir reagir. Sua consciência estava a ponto de ser apagar, mas parecia que algo a impedia de se libertar da agonizante tortura sobrenatural daquela noite final de sua vida.

Samanta desejou já estar morta.

O demônio desceu a foice sobre a mulher, que fechou os olhos e se recontorceu em uma agonia horripilante.

Cada osso dentro de si havia se quebrado em mil pedaços.

Samanta havia virado uma viva e parcialmente consciente boneca de pano.

Seu corpo inteiro ardia em uma intensa labareda por dentro.

Sem saber como, a figura evaporou diante de seus olhos e se transformou em um corvo de penas negras profundas de olhos vermelhos. Bateu as asas e voou para algum lugar que Samanta não conseguiu entender mais.

Em seguida, seu corpo deformado foi atirado ao ar.

Os órgãos flutuaram como em gravidade zero.

O vento cortante e gelado penetrou em cada centímetro de sua pele.

Samanta viu as luzes da cidade rodopiaram ao redor de si em um chuva de brilhantes enquanto sua consciência resistia durante toda a viagem até seu destino final, para seu desespero.

A imagem da sua mãe foi a última coisa que viu.











Tudo ficou escuro quando seu crânio se espatifou no concreto, salpicando a calçada com aglomerados cor de rosa, vinte andares abaixo.









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MULHER CAI DO 20º ANDAR DE PRÉDIO ONDE TRABALHAVA

Polícia investiga morte de funcionária de uma empresa de consultoria. A principal hipótese é suicídio

Uma jovem de 26 anos se jogou do último andar de um prédio comercial em ███████, na noite da última sexta-feira (3), segundo a polícia. A funcionária da empresa de consultoria ZNGO Consulting fazia hora extra no escritório da empresa no 13º andar do prédio até perto das onze da noite, quando teria subido ao 20º do prédio e acessado a área onde fica os equipamentos de ar-condicionado. A partir daí, teria subido no parapeito da laje e pulado na calçada abaixo, logo na entrada do prédio. A polícia acredita que funcionária, Samanta Olivia Cascavel, teria tido um ataque psicótico devido ao estresse e às longas horas de trabalho. Ela trabalhava como assistente financeira na empresa.



A polícia interrogou seu chefe e demais funcionários da empresa para entender o que poderia ter ocorrido. Segundo informações obtidas pelo Notícias Agora, Samanta era conhecida por fazer longos turnos, trabalhando até 12 horas por dia, mas que na última sexta-feira estava fazendo 15 horas de trabalho para finalizar um relatório que deveria ser entregue na segunda-feira seguinte para os executivos da empresa. Tentamos entrar em contato com alguns de seus colegas para entrevistas, mas todos se recusaram dizendo que a empresa havia proibido-os de falar com a imprensa.



Apesar da principal hipótese ser suicídio, a polícia ainda investiga se poderia ter sido um ato criminoso. A empresa também está sendo investigada por supostamente ter violado a legislação trabalhista ao submeter Samanta e outros funcionários a fazerem horas extras sem compensação. A ZNGO Consulting soltou uma nota dizendo que “lamenta o caso” e que vai “colaborar com as investigações”. Também disse que “segue à risca toda a legislação trabalhista” e que “preza pelo bem-estar de seus funcionários”. Tentamos contato com a empresa mas não recebemos retorno.



Este caso se soma a outros casos de mortes relacionadas ao trabalho excessivo registrado nos últimos meses. O aumento neste tipo de morte está preocupando especialistas e trabalhadores da região.



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