— Os engenheiros da NASA e da ESA estão trabalhando dia e noite para corrigir as falhas de materiais encontradas na estrutura do foguete Zenith, que levará novos astronautas para a base marciana, e pela primeira vez trazendo de volta uma parte dos astronautas da colônia. Porém, a menos de 3 meses do lançamento, as dificuldades técnicas encontradas podem adiar o lançamento da missão. Mais detalhes na reportagem de William Fuentes.

— São 4 horas da manhã aqui na Flórida e um grupo de 100 engenheiros está correndo contra o tempo para corrigir as falhas de materiais no novo foguete Zenith, que carregará a nave Victory até o planeta vermelho. Os problemas estruturais encontrados durantes os testes de pré-lançamento foram tão graves que a NASA está pensando em adiar a missão para a próxima janela de lançamento, a aproximadamente daqui a 2 anos. Mesmo com a ajuda de sistemas de inteligência artificial na investigação do problema, o trabalho é cansativo e extenuante. Trabalhando em turnos de 12 horas, a equipe de engenheiros estão fazendo de tudo para corrigir os problemas. As falhas encontradas durante os testes são graves: há risco sério de desintegração de um dos motores com as vibrações durante o lançamento, devido a irregularidas microscópicas na estrutura do bocal. Apesar de boa parte dos componentes do foguete terem sido construídos com impressoras 3D de alta precisão, outros componentes ainda exigem um intenso trabalho manual e minucioso. A NASA, junto com a ESA, também garantiu que vão rever os processos de controle de qualidade na fabricação dos materiais. O foguete Zenith e a nave Victory carregarão 40 novos astronautas e trarão de volta 23 colonizadores, na segunda missão tripulado ao planeta vermelho. William Fuentes, da Flórida.

— A seguir, uma nova inteligência artificial revelada semana passada está levantando críticas devido sua suposta capacidade de prever ações criminosas usando expressões faciais e movimento do corpo. Apesar disso, a IA já está sendo considerada para ser usada pelas forças policiais da União Europeia…



***



Quase todos os moradores da base estavam reunidos na Sala das Boas Memórias, uma seção logo ao lado do centro médico que tinha sido convertida muitos anos atrás em espaço para os exploradores poderem fazer sua orações em um ambiente mais reservado. Hoje, o pequeno espaço era incapaz de receber todas as pessoas que vieram dizer o último adeus, transbordando a multidão para os corredores e os recintos próximos. Os que tinham conseguido entrar formavam um círculo ao redor de uma maca médica posicionada no centro da sala. O corpo repousava tranquilamente envolvido em um lençol branco com as mãos cruzadas sobre o peito, a face já esbranquiçada parecia demonstrar um discreto sorriso solene. Os longos cabelos negros cobriam o pequeno travesseiro que dava apoio a cabeça.

Como exploradores espaciais, sabiam que a morte sempre rondava esperando o momento certo para descer a foice em suas cabeças. Não existe desbravamento sem pôr em risco a si mesmo, tinha sido assim desde que o primeiros humanos decidiram se espalhar por todos os continentes. Acidentes, doenças, suicídios eram os riscos que estes exploradores haviam aceitado quando pisaram na espaçonave Final Frontier. Ainda assim, perder um camarada é sempre terrível, independente da proximidade que tinham com o falecido.

O ambiente não era exatamente mórbido, a maioria estava em silêncio, respeitando o momento, ou conversando com a voz baixa entre si. O lugar era apertado, e havia um vai e vem entre quem esperava do lado de fora para entrar e quem já tinha sido por satisfeiro e queria sair. Alguns choravam de forma sonora, principalmente os mais próximos, coçando os olhos submergidos e engulindo o nó na garganta. Entre estes, Mei. A mulher já passava dos 50 anos de idade e embora no início da missão não tinha muito intimidade com quem jazia ali, nos últimos anos foi se aproximando cada vez mais. Tinham feito diversas atividades científicas e de lazer juntas, conversavam todos os dias, até mesmo tentavam inventar novas receitas usando as vegetais que cresciam na fazenda. Uma amizade fresca que se perguntavam por que que não tinham cultivado antes. A morte abrupta deixou Mei em choque, já no dia anterior estavam juntas em boa parte do dia marciano. Como alguém saudável e determinado pôde de repente partir como dente-de-leão ao vento?, perguntava-se a exploradora. Às vezes, a rotina engana até mesmo os mais experientes, e jamais poderiam deixar de esquecer que eram os pioneiros em outro planeta: os recursos médicos são limitados, a proteção contra radiação cósmica é ineficiente e até mesmos pequenas ações inconsequentes podem ter um preço muito alto a se pagar. De qualquer forma, os demais assistiam em consternação a quarta perda humana da colônia, levando o número de habitantes a 39. De qualquer forma, era inacreditável que 39 humanos tinham sobrevivido na superfície de um planeta inóspito e mortal por quase 20 anos, continuamente. Semideuses, alguns diriam.

Lucciano conseguiu se esgueirar por entre os demais até chegar o centro da sala, bem diante da maca. Andava mancando, usando um muleta debaixo do braço esquerdo, pois sentia dores nas pernas, especialmente joelho e quadril, após todo o esforço para chegar em Arcadia Planitia, na missão extra-base mais arriscada que tinha feito. A baixa gravidade parecia agir contra seus movimentos, como se andasse assimetricamente em câmera lenta. Tinha apenas 49 anos, mas o impacto físico tinha sido substancial. Entretanto, era quase certo que com o tempo os medicamentos que tomava em conjunto com uma fisioterapia assertiva o faria retornar a velha forma física em breve. Segurando a dor na pura marra, como chefe da missão e responsável por todos, era natural que fosse dizer algumas palavras de conforto para todos. Então, iniciou uma breve sessão solene:

— Hoje é um dia de dor e tristeza, mas também, hoje, é um dia para relembrar as boas memórias. Uma astronauta tão querida por nós e por sua família, que deu todo seu sangue e suor para nossa missão agora jaz em descanso eterno. Peço que, de acordo com o que acreditem, que orem pela boa alma que agora nos vê além das estrelas com orgulho de tudo o que construímos. Indispensável para nossa missão em Marte, uma desbravadora, exploradora, que jamais se omitiu do seu dever para com a humanidade. Não conseguiu trilhar o caminho para a Terra como desejava, mas certamente estará em um lugar mais privilegiado. Faremos um minuto de silêncio em reflexão.

Aqueles que choravam mais intensamente tentavam controlar as fungadas de narizes e os soluços de tristeza. Muitos abaixaram a cabeça olhando para além do chão, espairecidos. Outros, deram as mãos para o que estavam ao seu lado, reconfortando uns aos outros. Alguns mexiam os lábios em orações discretas, formando um leve zumbido de fundo. De qualquer forma, o ambiente, apesar de triste, não era sombrio, mas calmo e confortável. Não havia desespero, apenas angústia e luto. Em duas décadas de exploração em Marte era óbvio que pessoas faleceriam em diferentes circunstâncias, os astronautas estavam bem cientes disso. Todos embarcaram para o planeta vermelho sabendo que seria provavelmente o lugar onde seus ossos descansariam. Ainda assim, a dor de perder alguém que conviviam diariamente era real e presente, um fato da vida. Isso não seria suficiente para desestabilizar a missão.

Após o silêncio, Lucciano ainda acrescentou mais algumas palavras de reflexão e serenidade. Não foi um discurso muito longo, entretanto, já que fazer discursos fúnebres não estava nas habilidades requeridas para ser astronauta. Assim que terminou, acenou para o médico fazer os procedimentos necessários.

— Karl, por favor.

Os que estavam mais próximos a maca abriram espaço para que Karl trouxesse um saco de corpo branco com diversas tiras e velcros. Katherina, a outra médica do grupo, ajudou Karl a envolver o corpo respeitosamente dentro do saco, na maior delicadeza possível. Finalizou subindo o zíper e colando as tiras nos velcros. Os dois médicos mais um pequeno grupo se voluntariam a vestirem os trajes e carregarem o corpo até o cemitério: um local a 200 metros da base onde já estavam enterrados os outros 3 que faleceram durante a missão.

Os habitantes deram um último adeus enquanto Karl e Katherina abriam espaço com a maca até a sala das vestimentas, com um cortejo seguindo logo atrás. O corpo sem vida do que tinha sido uma pessoa inteligente e admirável foi colocado sobre uma espécie de trenó com rodas, feito para carregar materiais e amostras e ser puxado sobre o terreno de Marte. Karl e Katherine puxariam o trenó e Julian, um dos biólogos da missão, carregaria uma pá, picareta e uma chapa metálica inscrita com os dados da pessoa a ser enterrada. Uma cruz feita de restos de materiais seria fincada no local do descanso final.

A câmara de descompressão se abriu e o mar vermelho apareceu diante deles. Puxar o trenó exigia considerável força física, mas após algum esforço chegaram até o local do enterro. Julian observou a disposição dos demais túmulos, demarcadas pelas cruzes aterradas e as placas metálicas fixas no chão, e começou a escavar uma nova cova logo ao lado, para formar uma linha de 4 túmulos. Era um trabalho extenuante, que se revezavam ao longo de 2 horas entre os 3 exploradores até que a cova tinha a profundidade, largura e comprimento necessários para enterrarem o corpo. Cuidadosamente, desceram o corpo até o fundo do buraco e começaram a cobrir com a pá, retirando a terra do monte que tinha se formado logo ao lado. Quando finalizaram o enterro, Karl, logo atrás do túmulo, pegou a placa metálica, assentou em cima do buraco já recoberto, e com um martelo especial começou a bater em grossos pregos metálicos que se encaixavam nos quatro cantos da chapa. O movimento era lento e impreciso devido a baixa gravidade e as limitações do traje especial, mas eventualmente conseguiu que a placa ficasse firme e bem presa ao solo. Algumas marcas das mateladas no metal tiravam um pouco a aparência límpida do material reluzente, porém em poucas semanas o brilho seriam perdido de qualquer forma devido o atrito com a poeira marciana. O médico se levantou, cansado e suando, e bebeu vários goles de água pelo canudo no interior do capacete. Caminhou para a lado, em direção às demais sepulturas e limpou com as mãos as placas recobertas de pó marciano, revelando e lendo os nomes e as datas de nascimento dos demais ex-moradores da colônia. Ou melhor, eternos moradores.

Juan Portenho Sierra
Madrid, Spain, Earth
★ 10 de agosto de 2020
♰ 28 de setembro de 2050


Jang Taeyeon
Busan, Korea, Earth
★ 1 de fevereiro de 2011
♰ 7 de abril de 2053


Arthur Rémy
Châtellerault, France, Earth
★ 20 de dezembro de 2006
♰ 22 de maio de 2058


E por fim, a mais recente colonizadora a jazer naquele cemitério:

Kuroki Marie
Naha, Japan, Earth
★ 5 de agosto de 2025
♰ 23 de julho de 2063



Karl ficou estranhamento confuso. Por um momento, ele achou que tinha acabado de enterrar Harmonia.



***



Seus olhos se abriram e um feixe de luz intenso a cegou de forma momentânea até suas pupilas se acostumarem com a iluminação da sala. Ainda não tinha forças suficientes para virar a cabeça e seu estômago estava com desagradável enjoo. Reparou no teto por alguns instantes e revirou os olhos, percebendo os equipamentos médicos ao seu redor. Se sentia lúdica, na medida do possível, o que era um bom sinal. Melhor ainda, era a certeza de estar viva. Harmonia não lembrava de nada depois da sensação de gravidade zero ao cair no precipício. Como ela tinha sido trazida de tão longe da base era um mistério. Talvez estivesse sonhando, pensou, e o que estava vendo não fosse a realidade, mas apenas um desejo da realidade. Porém, tudo parecia tão real. Os equipamentos médicos, o emaranhado de fios em seu corpo, as lâmpadas do teto, seus batimentos cardíacos, o intenso enjoo. Não era um sonho, concluiu e relaxou. Estava viva e de volta a base para os cuidados médicos.

Porém, um gelo desceu sua espinha ao pensar na possibilidade de que estivesse com alguma sequela permanente. Seu corpo estava imóvel, sua boca não conseguia nem balbuciar palavras sem contexto, apenas seus olhos reviravam de um lado para o outro. Sentia como se estivesse presa no seu próprio corpo, incapaz de sentir o mundo lá fora. O gelo deu lugar a uma ansiedade terrível, seu coração começou a palpitar de forma acelerada. Fechou as pálpebras, a única coisa que conseguia controlar além dos olhos, e tentou pacificar a respiração, apazaguar a sensação de sufoco e agonia. Percebeu que não sentia dor no corpo, o que era um péssimo sinal, e novamente perdeu controle da respiração. Logo, seu cerébro levantou a hipótese de ser apenas o efeito dos sedativos que provavelmente estava tomando por via intravenosa, por isso o estado de imobilidade e moleza. Claro, era apenas um hipótese para ela, mas o mínimo de conforto que isso lhe deu foi o suficiente para sua frequência respiratória voltar a níveis menos alarmantes. O eletrocardiograma no aparelho desenhou um sinal elétrico menos acelerado.

Ye retornava da cerimônia de falecimento de Marie para o centro médico. Sua face era de desânimo, com olheiras proeminentes, o cabelo bagunçado. Os últimos sols tinham sido extremamente desgastantes, tanto fisicamente quanto psicologicamente. Não tinha dormido nem 4 horas por sol desde quando resgatou Harmonia, e praticamente assim que chegou teve que tratar também do mal estar súbito de Marie. Suas pernas e juntas doloridas não poderiam ser desculpa para negar atendimento médico a quem quer que fosse, e mesmo que tivesse Karl e outros médicos para acompanhar, se eximir da responsabilidade não era de seu feitio. Temia ter um piripaque a qualquer momento devido ao estresse.

Entrou no centro médico. Se aproximou de Harmonia que estava na maca e observou um dos monitores, percebeu o ritmo cardíaco levemente aumentado. A garota percebeu que Ye estava ali e abriu os olhos novamente.

— Finalmente acordou — Ye esboçou um sorriso, aliviada.

Os olhos de Harmonia reviraram verticalmente.

— Parece que está me escutando. Vou ajustar a sedação. Aos poucos você vai poder se mexer.

A bolsa sedativa já estava praticamente no fim. Foi no armário de suprimentos, pegou uma outra bolsa e colocou no lugar da antiga. Ajustou a válvula para que a taxa de administração fosse bem menor. Então, ela segurou um dos polegares de Harmonia e esmagou com força, levando a garota a reagir institivamente. Fez o mesmo no dedo do pé, percebendo que o corpo estava reagindo.

— Continue tentando mexer as extremidades. Vou chamar seus pais.

A garota estava aliviada. Parecia que não tinha ficado tetraplégica e que sua moleza era o efeito do sedativo. Apesar de não gostar da ideia de que, ao reduzir a sedação, voltaria a sentir dor, mas preferiria isso do que não sentir nada. Para quem a sensação de liberdade era o que mais desejava na vida, se tornar para sempre presa em uma cadeira de rodas seria uma tortura terrível.

Não muito depois, Alexander e Luana surgiram a porta e se apressaram para o lado da maca. Ambos seguraram a mão da garota, sorrindo de alívio ao ver que ela havia acordado. A mãe começava a derrubar algumas lágrimas sobre as bochechas em uma sensação de paz ao ver sua filha viva e consciente.

— Estamos com você, Harmonia, estamos aqui — as palavras soaram com dificuldade. O nó na garganta ainda era difícil de desatar.

— Harmonia, tudo vai ficar bem, filha — Alexander tentou confortá-la.

Ye estava junto, do outro lado da maca. Observava os monitores e fazia algumas anotações no tablet. Aproveitou para checar os acessos intravenosos, medir a temperatura, verificar eventuais lesões na pele por ficar tanto tempo deitada e analisar o estado geral da paciente. Reparou nas faces chorosas e ao mesmo tempo aliviadas dos pais da garota. Ainda que ela mesma não fosse muito de expressar suas emoções, tinha acabado de perceber que a mesma montanha-russa que o casal astronauta havia passado nos últimos dias ela também estava experienciando. Ela havia cuidado e acompanhado o crescimento e desenvolvimento de Harmonia por tanto tempo que sentia uma ligação quase maternal. Uma garota inteligente e alegre que tinha ensinado e ao mesmo aprendido tantas coisas. Afinal, não era para menos, sendo uma das médicas da colônia ela tinha a obrigação de acompanhar de perto o desenvolvimento da primeira bebê nascida em solo marciano, fazendo exames médicos e escrevendo relatórios para serem enviados à equipe médica na Terra. Desde o nascimento. 17 anos. Era inegável que havia tomado para si parte da responsabilidade de criação de uma criança, mesmo que tacitamente. Por causa disso, Ye, não por menos, considerava Harmonia como sua própria filha, a criança que do próprio ventre nunca teve nem nunca terá.

Aos 23 anos, Ye tinha conseguido residência médica em um hospital da Força Aérea. Terminando a residência nos anos seguintes, conseguiu um cargo de médica assistente em um porta-aviões. Fazia parte de uma equipe que atendia milhares de combatentes que viviam em um pedaço de metal flutuante e tinha visto diversos tipos de doenças que poderiam surgir em ambientes confinados, o que lhe deu um grande conhecimento na área. Não muito tempo depois, se engraçou com um militar, um coronel da força-aérea e começou a fazer planos para o futuro. Juntar dinheiro, se casar, ter filhos e continuar trabalhando como médica em algum lugar menos móvel e mais fixo, de preferência perto de casa. Já havia traçado seu plano de vida, não poderia dar errado. E então, veio a chocante notícia: estava com câncer de útero e teria que remover o órgão. Aos 26 anos de idade. Ficou arrasada, completamente ao chão. Seu plano infalível se desfez em mil pedaços, de repente.

Após a cirurgia se separou do militar. Seus planos haviam ficado menos ambiciosos, talvez nem casar quisesse mais, talvez se trabalhasse em uma pequena clínica de forma fixa fosse o suficiente. Uma vida simples e calma, sem grandes aventuras. Porém, uma oportunidade surgiu: ela poderia se candidatar para a missão só de ida para Marte, a primeira missão do tipo da espécie humana. Inicialmente, desdenhou da proposta, era rídiculo ir numa missão suicida para o planeta vermelho. As probabilidade de sobrevivência não eram altas, não haveria viagem de volta, os colonizadores teriam que construir tudo do zero, teriam que tomar água reciclada de urina, além de viverem em isolamento total em cubículos. Não há psicológico que aguentasse, ela pensou.

Então lembrou que seus planos perfeitos não existiam mais. Sem útero, sem risco de gravidez, sem risco de desenvolver uma câncer no órgão em um ambiente bombardeado por raios cósmicos, embora para ela fosse rídiculo pensar que uma tragédia pessoal pudesse lhe dar alguma vantagem. Mas, ao mesmo tempo, sem filhos só teria que se preocupar com si mesma. Além disso, imaginou que a vida na colônia não seria tão diferente do dia-a-dia que tinha no porta-aviões: um ambiente confinado, regras estritas, as mesmas pessoas, os mesmos corredores, vinte e quatro horas por dia. Talvez se desse bem, queria resgatar um pouco da ambição que havia perdido, um motivo para estar vivendo. Então, se candidatou. Para sua surpresa, havia passado na primeira fase da seleção e continuou o processo. E passou na próxima. E na próxima, até que quando se deu conta estava finalmente na lista de candidatos para Marte. Logo antes de fazer 30 anos, sentiu seu assento vibrar conforme o foguete deixava a atmosfera terrestre.

Ye tinha ficado um pouco perdida nos pensamentos ao resgatar sua própria história. Ela estava feliz, muito feliz, em ver Harmonia acordando e começando a reagir. Percebeu que a garota já começava a mexer o pescoço para os lados de forma sutil, e os dedos apertavam as mãos de seus pais.

— Minha filha… — a médica sem querer acabou vocalizando com volume baixo e quase inaudível para os demais. Alexander chegou a olhar para Ye, mas logo se voltou para Harmonia.

— Consegue escutar bem? — Alexander perguntou. Harmonia balançou a cabeça levemente. Seus lábios se mexeram, ainda sem som.

— Continuem interagindo com ela. Conforme o efeito sedativo passar ela vai responder melhor. Já volto — Ye deixou o tablet em cima de uma mesa e saiu do centro médico.

Caminhou para uma das janelas mostrando a paisagem vermelha. Fincou os olhos no infinito, deixando-se absorver por aquele lugar tão misterioso. Seu cansaço e estresse se transformaram em alívio e lágrimas.



***




Harmonia havia se sentado na maca, suas costas repousando na cabeceira. Ela tomava uma xícara de líquido suplementar, uma mistura de vitaminas e outros nutrientes com um toque adocicado de baunilha. O líquido estava quente, como se fosse um chá, soltando um leve vapor, que a garota tomava em pequeno goles.

— Então você tá dizendo que estive sedada por 4 sols?

— Isso mesmo — Luana respondeu. — E nesse meio tempo, tivemos, hmm, um falecimento.

Harmonia arregalou os olhos.

— Como assim? Quem foi?

— Marie. Ela morreu 2 sols atrás, no dia que você acordou.

— Marie… — a garota lembrou do dia em que saiu para consertar uma antena, em que Marie estava a guiando para testar o conserto. Lembrou da voz suave e leve a chamando de Bruxa Marciana, um termo que havia achado engraçado. Não que ela fosse intimamente ligada a responsável pelas comunicações, mas Harmonia sentiu uma pontada no estômago com a notícia. — Ela morreu do quê?

— Teve um mal súbito, ficou um dia internada mas teve parada cardiorrespiratória. Pegou todo mundo de surpresa — Luana respondeu, solene.

Não era a primeira vez que Harmonia havia vivenciado uma morte na colônia e claramente sabia dos riscos de estarem ali. Mas ainda assim, ficou desolada.

— Infelizmente, Harmonia, estamos todos sujeito a isso — Alexander completou. — Ainda não compreendemos o efeito da radiação de forma continuada por tanto tempo.

— Por falar nisso… e eu aqui, como estou? Agora que estou melhor quero saber da minha condição. Meu braço eu já sei que está quebrado — levantou o braço esquerdo, mostrando o gesso recobrindo até o úmero. — E sinto dor ao respirar.

— Filha, você está com 3 costelas quebradas — disse Alexander. — Você teve hemorragia interna. Também, teve uma concussão.

A garota fez uma expressão de surpresa.

— Por fim, você fraturou a bacia. Na asa do ilíaco. Este foi o ferimento menos grave que você teve.

— Então, como foi possível… eu ter sobrevivido? — o tom da questão era rígido porém sincero.

— Algum anjo deve ter olhado por você — Luana respondeu.

— Anjo? Se existisse ele não me deixaria cair no precípio em primeiro lugar.

— Filha, por favor… — Alexander disse calmo, gesticulando.

— Desculpa. Me exaltei — colocou a xícara de lado, em uma pequena mesa. — Quando que vou poder sair daqui?

— Ye e Karl vão vir fazer um checkup depois. Se der tudo certo, você vai ter alta — seu pai explicou.

— Eu realmente pensei que ia ficar lá — Luana sentiu um nó na garganta ao ouvir a filha —, eu estava tão longe, sentia tanta dor, meu oxigênio acabando. E… — Harmonia virou a cabeça de lado, como se encontrasse algo interessante em suas memórias. — Aliás, como, vocês me retiraram de lá? Eu tenho certeza que tinha 4 horas de oxigênio, eu calculei que não ia mais ter tempo. Nossa, eu não lembro nada depois que eu apaguei.

Luana então respondeu.

— Aamir. Ele foi genial ao recuperar o Red Beetle.

— Red Beetle? Ele tava todo destruído! — Harmonia inconscientemente aumentou o tom de voz.

— Não todo destruído. Enquanto Ye tomava conta de você, eu, seu pai e Lucciano descemos a cratera. Estávamos com algumas cordas, conseguimos enrolar no rover e desviramos ele. A frente estava acabada, realmente, mas as baterias estavam inteiras e os eixos, hmm, um pouco tortos, porém inteiros. O rover não dava partida e começamos a explicar a Aamir a situação. Ele sabia de cabo a rabo todos os sistemas do rover, e começamos a cortar alguns fios, ligar a outros, tudo sob instrução do Aamir.

— Então conseguiram consertar ele?

— Não consertamos. Demos bypass de vários sistemas. Você sabe onde fica o motor?

— Atrás?

— Isso, atrás. Estava inteiro também. A parte eletrônica do painel, os faróis estavam destruídos. Com o bypass, nada acendia mais, mas pelo menos o acelerador funcionava. O volante estava completamente torto e não virava corretamente para a esquerda, mas nos acostumamos. Só não podíamos passar dos 7 quilômetros por hora, porque o limitador de corrente estava operando em modo manual, e éramos 5, estava bem pesado.

— Mas mesmo assim, eu tinha 4 horas… Não ia dar tempo.

Alexandre e Luana se entreolharam.

— Não tinha 4 horas. Seu braço quebrado… Seu medidor estava quebrado. Estava travado em um valor qualquer. Seus tanques tinham o suficiente.

Harmonia por um momentou pensou que o tal anjo talvez realmente existisse. Olhando em retrospecto, a situação dela foi menos grave do que ela imaginava no momento, embora grave o suficiente, o oxigênio não era infinito e poderia ter morrido dos ferimentos. Logicamente, qualquer um pensaria que estaria condenado a morrer se tivesse num planeta inóspito, sozinho, pensando que não tivesse oxigênio suficiente. Uma sensação sufocante.

— Quando sair daqui vá lá pessoalmente agradecer Aamir. Ele é o grande herói dessa história — Alexander disse. — Se não tivéssemos a ajuda dele, poderia ser uma tragédia maior. Teríamos que andar na noite marciana, com risco de hipotermia.

A garota concordou, assentindo com a cabeça. Agora, ela pensava no grande risco que seus pais correram a irem resgatar. Que ideia estúpida e idiota eu tive, ela pensou, ao sair sozinha em Marte sem avisar ninguém. Não só Aamir mereceria um agradecimento, mas a todos que colaboraram para seu resgate. E um pedido de desculpas também.

— Eu fui babaca. Fiz uma coisa idiota. Perdão por ter colocado vocês em risco — disse, cabisbaixa.

Seus pais ficaram em silêncio, sem saberem como responder. Era verdade que tinha sido a pior ideia de Harmonia até então, mas ambos se culpavam também da criação que tinha dado a ela. Lá no fundo, compartilhavam também da mesma culpa de terem, de certa forma, deixado Harmonia a fazer o que fez, ou terem criados as circunstâncias para que ela reagisse de forma tão abrupta e inconsequente. Afinal, ainda não contaram que foram eles que pessoalmente pediram para excluir Harmonia da missão de retorno.

— Sobre a missão de volta à Terra, Harmonia — Alexander começou a se explicar, mas foi interrompido.

— Deixa, pai. Não quero falar disso.

O sonho de ir para a Terra parecia ter ficado mais distante.



***



Fazia 7 sols desde o acidente. Harmonia tinha recebido alta mas agora estava em uma cadeira de rodas manual. O braço esquerdo estava engessado, uma espécie de colete suportava seu tórax, tinhas marcas roxas espalhadas pelo corpo, principalmente nos braços, tórax e abdômen. Sentia dores frequentes nas costelas e na bacia, que eram suprimidas parcialmente com os analgésicos receitados por Ye. A hemorragia interna havia estabilizado, felizmente, e uma cirurgia não era necessária. Seria a primeira cirurgia de grande porte feita em Marte e ninguém sabia direito como a baixa gravidade afetaria tanto o procedimento quanto a recuperação depois, ainda mais no corpo de Harmonia. Por outro lado, a baixa gravidade pode ter ajudado ela a manter o cérebro oxigenado mesmo com a hemorragia. De qualquer forma, a garota não queria saber mais dos detalhes técnicos de seu diagnóstico. Ela estava rodeada por Karl, Ye, Katherina, Luana e Alexander. Estavam prontos a deixar o centro médico em direção à sala de refeições. Um pequeno evento de boas-vindas havia sido organizado para celebrar a alta de Harmonia e todos a estavam esperando. Achou que ela não merecia essa comemoração depois de ter feito a imprudência que fez e tão logo depois da morte de Marie.

Luana empurrava a garota na cadeira de rodas em direção à sala de refeições. Foi recebida com gritos e aplausos dos demais colonizadores, enviando-lhe boas melhoras, as melhores energias, orações e desejos de uma ótima recuperação. Agradeceu a todos, mas não quis fazer nada parecido com um discurso, não era a personalidade dela. A mesa ao centro estava recoberta das melhores iguarias marcianas, as verduras e legumes da horta misturadas com a comida artifical de longa validade em tubos e recipientes plásticos e metálicos. Era o melhor que podiam fazer naquele lugar.

O sala estava bem barulhenta com dezenas de conversas paralelas, utensílios de cozinha se colidindo, sons de passos e o alto-falante tocando músicas dos anos 20. Era realmente uma festa e podia-se dizer que não perdia em nada para as festas terrestres — exceto a falta de álcool. O horário também era apropriado, era de noite e não se via quase nada da superfície marciana através das escotilhas. Harmonia comia uma sopa de legumes em um prato em cima da mesa com uma colher usando somente o braço direito. Finalmente poderia experimentar algo mais gostoso que não era a dieta artificial estritamente controlada por Ye. Sentia saudades de trabalhar na horta, novamente.

Uma hora depois, Lucciano chamou a atenção de todos para um monitor. Era uma transmissão do centro de controle também para dar melhoras para Harmonia, onde diversos operadores e engenheiros mandavam suas mensagens individuais para a garota, que respondia agradecendo. Uma câmera filmava a resposta e reação dela, que depois seria enviada à Terra. Fez o melhor que pôde para agradecer e deixar uma mensagem de otimismo porque provavelmente a gravação pararia nos jornais e mídias sociais em minutos. Já era uma famosa estrela popular de qualquer jeito e tinha a vantagem de estar a 20 minutos-luz do assédio das plataformas de fofoca.

Embora a festa fosse bem animada e acolhedora, não durou muito. Os astronautas não podiam muito fugir dos horários de sono e descanso para manterem corpo e mente descansados e em equilíbrio. Não que houvesse um rígido limite para que estivessem em suas camas, mas aos poucos naturalmente cada um foi deixando a sala que ia se tornando cada vez mais vazia. Estavam bem alimentados, sem dúvidas, e a ocasião social os permitia falar de suas famílias, comentar os últimos jogos esportivos, discutir algum fato interessante ou mesmo relembrar os bons momentos que tiveram com Marie. Eventualmente, a sala de refeições esvaziou, restando apenas Harmonia e seus pais. Os dois terminavam de limpar o local e também iriam dormir.

— Quer dormir no nosso quarto hoje? — Luana perguntou?

— Não, já estou melhor. Vou para meu aposento — respondeu, sonolenta.

— Certeza? Precisa de alguém para te tirar da cadeira e colocar na cama.

— Obrigado mãe, mas não sou inútil. Só estou na cadeira para não fazer muito esforço, eu consigo me levantar e dar alguns passos.

Alexander, que arrumava e limpava o ambiente, estava de costas e apenas escutava.

— Fica com o comunicador por perto, caso precise de ajuda.

— Eu já entendi! — Harmonia acabou levantando o tom de voz, mas logo se arrependeu. Olhou levemente arrependida para baixo e enrolou os dedos no cabelo — Já entendi. Boa noite.

— Mas você vai sozinha? — Luana perguntou.

Harmonia ignorou sua mãe e começou a empurrar a roda da cadeira com apenas o braço direito. Tinha dificuldade para ir onde queria. Sua mãe foi atrás dela para ajudá-la e assim que tocou no guidão, Harmonia respirou fundo e segurou com todas as forças o ar. Parecia que ia explodir.

— Amor, deixe Harmonia. Ela consegue fazer sozinha.

Alexander interviu, ao perceber a situação que poderia se tornar explosiva.

— Boa noite — a garota disse de forma abafada e foi empurrando a cadeira que dançava de forma torta. Eventualmente, aprendeu a lidar com a cadeira, conseguindo sair da sala de refeições e se dirigiu ao corredor que o levaria eventualmente até seu quarto. Luana apenas observou, consternada.

Alexander se virou para a Luana e falou:

— Você mudou. Está mais preocupada com Harmonia do que eu.

— Talvez, Alex, talvez. Não gosto de ver ela sofrer.

— Ela não tá sofrendo tanto assim, se tivesse ela ia pedir nossa ajuda. Ela tá, é, apenas inconformada em depender dos outros. Deixa ela. É tipo aqueles velhos marrentos, que odeiam quando recebem ajuda.

Luana riu. Realmente, apesar de tudo sua filha sempre tinha sido independente e auto-didata. Se sentir inválida, ou melhor, estar inválida, mesmo que temporariamente, era algo que Harmonia agonizava. Eventualmente, o tempo curaria as feridas físicas da garota de Marte.

Mas logo no dia seguinte, Harmonia decidiu largar a cadeira de rodas.

— Não aguento mais isso, é desconfortável e fico muito presa. Eu quero andar senão vou atrofiar as pernas.

A garota encontrou com Ye na frente do centro médico empurrando a própria cadeira de rodas para devolver. A médica olhou supresa, embora dentro do previsto para a personalidade de Harmonia. A garota andava mancando, sentindo dor no quadril, mas não tinha muito o que fazer além de dar analgésicos. Só torcia para que Harmonia não tropeçasse e caísse piorando a situação, mas relutantemente deixou a paciente fazer o que quisesse. Os maiores pontos de preocupação, a concussão e a hemorragia interna, já estavam estabilizados e agora só tinha que observar eventuais sequelas sutis. De um jeito ou de outro, os ossos se recuperariam.

A montanha de dados que os médicos obtiveram de Harmonia tinha sido enviada à Terra para análise dos médicos das agências espaciais. Novamente, a menina tinha se tornado cobaia do processo de recuperação de traumas em ambiente de baixa gravidade em um corpo que viveu a vida inteira sob radiação. Não era nada feito debaixo dos panos, Harmonia havia entusiasticamente autorizado que Ye fizesse isso. Talvez, em alguns anos, um artigo científico baseado nesses dados poderia ser publicado e internacionalmente reconhecido, ajudando até mesmo os selenitas e os futuros marcianos que certamente viriam à vida.

— Tudo bem, Harmonia, isso vai contra nossa recomendação mas você é a paciente e decide o que quer — Ye disse de cara fechada.

— Eu sei disso.

Que pessoa difícil, Ye pensou. Não enxergava maldade no coração dela, apenas teimosia.

— Só não se machuque de novo. Quero ter tempo pra dormir.

— Não vou conseguir ir muito longe mesmo.

A garota se afastou de Ye, em direção a um canto qualquer na colônia.



***



A vida na colônia seguiu normalmente, sem outros maiores incidentes. Os restantes 39 habitantes da base continuavam com as rotinas de pesquisa, manutenção e socialização como planejado. A única coisa que mudava um pouco a aura do ambiente era a possível chegada dos novos moradores daqui a 225 sols. Mais do que a ansiedade de parte dos habitantes finalmente voltarem para a casa, havia uma ansiedade negativa de que, caso os engenheiros em Terra não corrigissem os problemas do foguete, poderia perder a janela de lançamento para Marte e atrasando a missão de retorno em 2 anos, o que seria terrível psicologicamente para todos. A safra de alimentos da estufa por algum motivo não havia sido muito boa nos últimos meses por motivos ainda desconhecidos, o que fez com que uma ordem de restrição calórica fosse baixada, provocando também restrições nas festinhas com banquetes. Havia possibilidade de alguma alteração genética nos tubérculos fizesse com que eles crescessem menores e menos saudáveis, e estavam tentando compensar isso ajustando a iluminação da fazenda vertical e o tipo de adubo que utilizavam. Por outro lado, o Red Beetle tinha sido consertado por Aamir e seus colegas engenheiros tanto em Marte quanto em Terra, e embora não tinha ficado perfeito, estaria pronto para novas excursões no terreno marciano. E claro, a garota tinha sido proibida de pegar o veículo novamente, embora todos soubesse que se ela realmente quisesse ela faria de novo. Mas todos pareciam concordar que Harmonia estava se comportando bem.

A falta de certeza se a missão de retorno realmente aconteceria ou não fez com que a garota esquecesse um pouco sobre sua vontade de ir à Terra. Estava ali concentrada na fazenda, ajudando do jeito que podia usando apenas uma das mãos disponíveis, plantando uma nova safra de verduras e torcendo para que dessa vez a comida nascesse saudável e em boa quantidade. Sua mãe ajudava logo ao lado, jogando adubo e semeando as plataformas da fazenda vertical. Seu pai estava em outro módulo, fazendo análises químicas em uma rocha incomum encontrada no subsolo, em uma das missões de perfuração.

— Tem alguém analisando aquelas batatas?

— Leopold e Richard estão fazendo isso — respondeu Luana, cavando a terra com as mãos. — O equipamento de sequenciamento genético deu problema, estão bem atrasados.

— Vão trazer equipamento novo na missão? — a garota ajustava no tablet o nível de luminosidade daquela seção da fazenda.

— Muito melhor e mais preciso. Também vem o novo espectógrafo e detector de raios cósmicos. E um rover novo.

— Blue Beetle?

— Já deu um nome, é? Por que Blue então?

— É a cor do céu — Harmonia caminhou mancando para uma rápida checada na escotilha observando o céu de Marte. Sua mãe riu.

— Está sentindo dor? — Luana perguntou.

— Não.

Ela virou os olhos e continou trabalhando no tablet. Com apenas uma mão, seus dedos era hábeis em configurar os parâmetros da fazenda. Estava testando um novo conjunto de parâmetros para tentar aumentar a produtividade da próxima safra em uma pequena área de testes, de acordo com dados que havia recebido da equipe em Terra. Desde quando os colonizadores chegaram, a quantidade de comida produzida havia aumentado em quase 100% conforme refinavam as técnicas de plantio em baixa gravidade e usando solo marciano rico em minerais.

— Filha — Luana a chamou para mais perto.

— Que foi, mãe? — a garota fez uma expressão desconfiada.

Luana olhou para ela como se fosse dizer alguma coisa. Seu corpo inclinou ligeiramente para frente, seus lábios pareciam se mover, mas então seus olhos se desviaram dos olhos de Harmonia e se voltou para a terra fofa da fazenda.

— Eu te amo.

— Assim, de repente?

Harmonia voltou para o lado de sua mãe, enquanto mexia no tablet. Subitamente, deu um beijo na bochecha dela, toda envergonhada e a abraçou.

— Eu também te amo, mãe.



***



215 sols para a possível chegada da Victory. O diretor da missão em Terra ainda não tinha respondido de forma conclusiva ao questionamento se estarão prontos a tempo. A frustração permeava as mentes dos habitantes, impacientes com a lerdeza da resposta. Afinal, estavam se preparando para o tão aguardado momento há meses. Um atraso de 2 anos seria terrível para a saúde mental dos colonizadores, muitos ansiosos para poderem retornar às suas casas e famílias. O clima que até então era normalmente otimista e festivo tinha se deteriorado. Brigas e discussões se tornaram rotina por qualquer quinquilharia, alguns até desconfiavam que os medicamentos estavam perdendo o efeito, mas o principal e provável motivo era o racionamento calórico em voga. Barriga vazia, cabeça cheia. O atraso da missão também implicaria no atraso de suprimentos da Terra. Sementes, terra, equipamentos de medição, rações e até mesmo minhocas eram esperados. Não havia nenhuma missão não-tripulada em andamento, tudo viria junto com a Victory. O que felizmente tinham menos preocupação era o da água potável, extraída de uma geleira subterrânea próxima e também reciclada de urina. Era visível o desconforto na face de cada habitante, atrasando também as pesquisas e as rotinas de manutenção da própria base. Finalmente havia removido o gesso, o que lhe ajudou nas rotinas, mas percebeu que o braço atrofiado lhe fez perder a destreza que tinha antes, o que tornou seu trabalho mais lento e complicado. Ainda assim, era constantemente chamada para consertar painéis, cuidar da fazenda, verificar possíveis curto-circuitos, consertar botões e interruptores quebrados, até mesmo desentupir o banheiro. Talvez fosse a época mais movimentada em termos de trabalho da sua vida, e todo esse esforço comendo menos que o normal. Harmonia percebeu que havia emagrecido e não necessariamente de forma saudável. Apenas estava ingerindo menos calorias do que deveria.

Sua fome era além do normal. Após uma penosa sessão de limpar mofo que se desenvolvia em um dos cantos, sua barriga roncou. Conhecendo cada centímetro da base, foi discretamente até uma dispensa próxima da cozinha para vasculhar o armário por alguma coisa. A restrição calórica funcionava na base da confiança, cada um tinha que manter seu próprio controle alimentar diário e deveriam confiar uns ao outros que ninguém estava comendo mais do que o necessário.

Harmonia avistou algumas barras de proteína disponíveis na prateleira e pegou duas delas, anotando no tablet as calorias que iria ingerir. Não que era proibido pegar comida, mas era responsibilidade de cada um cuidar para que não passassem do limite diário e era necessário registrar o consumo.

— Ei, o que tá fazendo? — a silhueta de Beth surgiu logo atrás de si. A garota virou o rosto de súbito, analisando o tom inquisidor e beligerente da colega.

— Apenas pegando proteína — Harmonia disse calmamente, tentado desescalar.

— Não sabe que estamos em restrição? — a mulher colocou as mãos à cintura, em reprovação.

— Eu sei, mas ainda não atingi o limite diário. Por que quer saber? — a garota tentou se manter neutra, ao menos em sua mente.

— Primeiro, controle seu tom — Beth repreendeu, com Harmonia cerrando as sombrancelhas, confusa. — Não tá vendo que ali na geladeira tem diversos perecíveis, vai deixar estragar?

— “Controle seu tom”? Os legumes vão ser para a janta de hoje. E já disse que estou abaixo do limite. Por que não segue seu caminho? — Harmonia largou a neutralidade, enfrentando Beth.

— Porque enquanto estamos todo mundo controlando o estômago, você acha que tem direito a pegar comida assim!

— Já disse que não atingi o limite diário — Harmonia se tornou impaciente, batendo os dedos nos números no tablet. — Além disso, Beth, você não é minha mãe pra dar sermão.

Eu quem faço o controle dos suprimentos. Tenho o direito de saber quem anda pegando o quê! — a discussão já ecoava pelos corredores, chamando a atenção de alguns habitantes próximos a cozinha.

— Beth, por que não vai cuidar da sua vida?

O sangue de Beth ferveu. Como uma criança birrenta, deu um tapa no braço ainda atrofiado de Harmonia, levando o tablet e as barras de proteína ao chão, caindo na gravidade de Marte.

— Está louca? Não tem o direito de encostar em mim! — Harmonia disse gritando, abrindo os braços como uma predadora.

— Não é porque você nasceu aqui que pode ficar pegando comida assim, está se achando princesinha mimada!

— Só por que você vai para Terra, é você quem tá se achando. “Sou exploradora, colonizadora, sigo as regras, mimimi, mamamá”. Me deixa quieta que não vou te reportar — Harmonia se abaixou para pegar as barras e o tablet do chão. Beth agarrou seu braço e ela começou a se debater — Você não enconsta em mim!

— Deixa essa proteína aí, sua mimada! Sua mãe tava certa em expulsar você da lista, você não merece ir pra Terra mesmo!

Os olhos de Harmonia soltaram faísca. Quase que no automático, sua mão livre, com vontade e a palma bem alargada acertou em cheio a bochecha de Beth, emitindo sonoro estralo que pareceu ecooar por todos os 12 módulos. Rapidamente pegou as barras e o tablet e se afastou da mulher, temendo um contra-ataque. Mas neste ponto, toda aquela comoção já havia reverberado pelo base, atraindo um pequeno grupo de curiosos que observava a cena.

Luana estava lá também, imóvel. Tinha ouvido a voz exaltada de Harmonia, e foi até a dispensa para ser recebida no exato momento que Beth contava seu grande segredo. Como aquela mulher sabia disso, Luana não sabia responder, mas não importava mais. Sua mão estava a boca, sem palavras. Harmonia percebeu que sua mãe estava lá, abaixou a cabeça e passou correndo por ela, empurrando o punhado de gente que observava a situação.

— Harmonia!

Sua mãe tentou lhe chamar mas ela havia sumido por entre os corredores da A Small Step.



***



— Eventualmente, ela saberia disso. Era questão de tempo — Lucciano massageava a barba enquanto escutava a situação de Luana. — Seria melhor se fosse você quem tivesse contado, mas agora é tarde demais.

— Tive a impressão que ela tinha esquecido disso depois do acidente, que tinha voltado ao normal. Então acabei deixando para lá — Luana justificou, soltando um profundo suspiro.

Alexander apoiou os cotovelos na mesa e cobriu o rosto. Estava envergonhado de si mesmo. Era ele quem havia convencido a Luana a concordar com o plano de não enviar a garota para a Terra, apesar da aprovação de Lucciano — que já tinha tudo pronto para colocar ela na lista, inclusive aprovação do diretor da missão em Terra —. Apenas precisava que os pais aceitassem.

— Erramos de novo… No último segundo, removemos Harmonia, removemos Luana. Mentimos. Sou um péssimo, horrível pai.

Se sentia exausto. Duas décadas de exploração planetária. Não era mais um adulto jovem saudável, as rugas estavam se tornando proeminentes, mesmo para um astronauta, cuja aptidão física e mental era essencial. Odiava completamente ver sua filha, motivo de orgulho para a humanidade, longe de si, era a maior conquista de sua vida, muito maior que ser um pioneiro. Um sentimento egoísta, certamente, mas que não podia ser de outra forma, pensou. Não havia percebido que ao fazer nome na fronteira final da humanidade estava passando em cima dos sonhos de quem mais amava. Deveria ter deixado ela ir, pensou, amargamente. O acidente não teria acontecido. Harmonia não o odiaria. Ela estaria feliz, caminhando sobre a areia fofa de uma praia, sentindo a maresia e vendo o céu azul, coisas que ela nunca teve a chance de experimentar. Alexander estava se odiando, se xingando de nomes horríveis. Se pudesse voltar no tempo…

— Não vou julgar suas escolhas, pois vocês quem são os pais, mas — o chefe passou a andar pela sala — se recebermos uma resposta positiva da NASA, estão preparados para deixarem Harmonia partir?

O casal levantou as cabeças e olharam entre si, fixadamente, como se tivessem pensando. Estavam pensando. Quase como uma comunicação telepática, seus olhos transmitiam suas emoções um ao outro. Era quase 20 antes de um pseudo-casamento, mas na prática eram marido e mulher. Muitas coisas poderiam ser ditas entre si sem dizerem uma única palavra. Eles já haviam pensado nessa possibilidade com a chegada da missão tripulada mas nunca tinham chegado a uma conclusão. Se deixassem que Harmonia partisse, não saberiam por quanto tempo ela sobreviveria na gravidade 3 vezes maior, pressão atmosférica 50% maior e com patógenos que seu organismo nunca tinha enfrentado antes. Lembraram da conversa que tiveram com Ye e Marx depois do primeiro incidente com Harmonia, quando ela fez uma bateria de exames: os médicos falavam claramente em anos de sobrevida que Harmonia teria na Terra. Não seria uma vida normal, mas cheia de limitações e perigos que não se aplicariam a um terráqueo. O coração poderia não ter forças para bombear sangue para o cérebro. A garota tinha uma estatura maior que o normal e seus ossos teriam que aguentar muito mais esforço. Sua filha queria liberdade, não ficar presa em uma bolha de imunidade, e era óbvio que ela estaria disposta a tomar riscos perigosos para alguém que nasceu em um colônia quase estéril com praticamente as mesmas espécies de bactérias e vírus. 1 ano? 2 anos? 5 anos? Seria esse o tempo que Harmonia teria de sobrevida? Será que assim que chegasse ao triplo da gravidade, sua arritmia deflagaria de forma fatal? E o impacto psicológico de viver num ambiente tão culturalmente diferente, estimulante, perigoso socialmente e sendo assediada por paparazzis e a mídia? Sem falar da possibilidade de médicos e cientistas tratarem ela como espécie de cobaia para o singular indivíduo que ela era. Eram tantas coisas nebulosas e angustiantes que apertavam o coração dos dois. 20 anos e um olhar. Era o suficiente para transmitir toda essa torrente de incertezas e preocupações.

Mas, Harmonia não era feliz. Ela certamente preferia morrer sendo livre do que continuar a viver naqueles 6 mil metros quadrados fechados. Era uma bolha, gigante, porém ainda uma bolha. Se ela continuasse ali em Marte depois do que ela tentou fazer para escapar aquele ambiente sufocante em direção a um ambiente 99% dióxido de carbono, era possível que Harmonia pudesse… Não, não queriam pensar nisso. Jamais. Era terrível demais. Não havia sentido se terminasse assim.

Depois de um longo minuto que parecia uma eternidade, Luana se aproximou de Alexander. A mão do homem que repousava em cima da mesa agora ela coberta pela mão da mulher, e ambos entrelaçavam os dedos. Os olhares ainda eram fixos, mas agora eram conclusivos. Um pequeno esboço de sorriso surgiu no canto da boca dos dois, a comunicação “telepática” havia funcionado. Assentiram mutualmente e tornaram a ver Lucciano, que observava o ambiente vermelho lá fora pela pequena janela. Era difícil dizer. Faltava ar. Luana tentou mexer a boca mas nenhum som saía.

Finalmente, Alexander foi capaz de falar:

— Sim, Lucciano. Estamos prontos.

O chefe soltou ar pelo nariz, que embaçou a janela transparente.

— Para ser sincero, não estou surpreso. Sabia que eventualmente vocês deixariam.

— Só não sei se ela vai ser capaz de nos perdoar — o pai disse com a voz sem confiança.

— Me deixe receber a resposta da Terra. Se for positiva, vocês serão os primeiros a saber. Avisem a Harmonia antes de todos. Estou confiante de que ela perdoará vocês.

— Não sabe o quanto nos ajudou com isso. Muito obrigado, Lucciano.

— Não agradeça a mim. Agradeça a ela — e apontou o dedo para fora, em direção a janela. Lá ao fundo, quase se misturando com a paisagem vermelha sem vida, as 4 cruzes escuras fincadas ao chão. — Só há espaço na missão de retorno porque Marie permitiu. Agradeça a ela.

Os pais de Harmonia se curvaram na direção do cemitério, em agradecimento.



***



A ansiedade era intensa. Com o tempo de viagem estimado em 179 sols, o prazo para não perder a janela de lançamento se aproximava, com menos de um mês restante. Os astronautas em Terra estavam já preparados para a missão, mas o que faltava era que os manda-chuvas espaciais pudessem autorizar o lançamento, se considerassem o foguete seguro o suficiente. Apesar das críticas de especialistas, a missão só seria decidida 14 sols (dias) antes, ou seja, se tudo corresse certo, 40 colonizadores pousariam em Marte em 193 sols. O dia era o último de uma longa lista de prazos perdidos para a decisão final, mas a pressão para que a missão partisse era inimaginável. Não só afetava o psicológico dos “marcianos”, mas bilhões de dólares haviam sido gastos para aquele importante dia para a humanidade. Lucciano ficava na sala de controle visivelmente ansioso, as mãos nos bolsos do macacão e andando pra lá e pra cá em círculos, prestando atenção toda hora nos monitores para ver se alguma mensagem havia chegado. Aamir se sentiu desconforável em ver o chefe naquela postura nervosa e decidiu sair da sala e deixá-lo sozinho. Se ficasse mais um pouco, era capaz de ficar ansioso daquele jeito por tabela.

Em outro módulo, na pequena academia, Harmonia estava sozinha, concentrada nos exercícios de perna. Sentada na cadeira de exercício, subia e descia ambas as pernas, com anilhas presas em volta dos tornozelos, ligado a uma roldana que na outra extremidade estava conectado a sacos de terra e rocha marciana, para fazer o peso necessário. Já fazia mais de uma hora que estava na academia, variando equipamentos e grupos musculares a se trabalhar. O suor escorria intensamente em sua testa, seus cabelos se banhavam em oleosidade. Essa tinha sido sua rotina desde quando tinha descoberto que seus pais haviam, de propósito, tirado ela da lista inicial de elegíveis a ir para a Terra. Seu antigo orgulho havia voltado à tona e desde então ela prometeu a si mesma que faria de tudo para estar naquela missão tripulada.

Desde aquele tempestuoso dia que brigou com Beth, uma sensação ardente continuamente queimava em seu peito lhe dando a força de vontade e obstinação para pôr os pés no planeta azul. No dia seguinte, mesmo sem saber se conseguiria embarcar, conversou com Ye, humildemente, e traçou um plano mental e físico para que ela estivesse nas melhores condições possíveis de se submeter a viagem de 6 meses em gravidade zero e depois a vida em gravidade terrestre. Não importava o sacrifício, não importava as dores. Para ela, nada era impossível. Um movimento após o outro, continuamente, sem desistir e sem se sobre-esforçar, passo a passo a garota construía de forma nítida contornos musculares e aumento considerável da capacidade respiratória. Também havia percebido que havia parado de mancar, o que deu um prospecto positivo na sua recuperação do acidente meses antes. Tanto Ye quanto Marx fazia exames regulares em seu coração, para evitar qualquer agravamento do quadro de arritmia. A garota passou a ter consigo um sensor cardíaco que emitia dados de seus batimentos diretamente para os computadores da ala médica. Qualquer anormalidade, os médicos da colônia seriam alertados e correriam para ajudar.

Após a briga entre Beth e Harmonia, ambas concordaram a não fazerem um relatório formal do acontecimento e varreram para baixo do tapete o incidente. A missão em Terra não seria avisada e um acordo de cavalheiros entre os demais colonos foi feito para não se falar no assunto. Mesmo que houvesse alguma punição disciplinar para a agressão partida de Beth, muitos anos antes tinha sido acordado que Harmonia, por ter nascido em Marte, estava fora da jurisdição da missão, e portanto não poderia ser punida, pelo menos, não legalmente. Certamente o caso, se viesse a público, geraria muitas questões legais que ninguém ali da colônia estava a fim de se envolver. De qualquer forma, ambas passaram a ignorar uma a outra quando se cruzavam.

A conversa com seus pais depois da mentira foi mais difícil. A garota ficou 3 dias sem trocar olhares com eles, tentar evitá-los o tempo todo naquela limitada prisão marciana. Tentava manter sua rotina de manutenção da base, mas fugia toda vez que avistava seus pais, deixando muito trabalho pela metade. Esse jogo de gato e rato continuou até que finalmente ela apareceu nos aposentos de Luana e Alexander e pediu para conversar. Sentia raiva, muita raiva, do que os dois haviam feito, sem tentar conter o que segurava em seu coração.

— Eu talvez odeie vocês — disse cerrando os punhos, de cabeça baixa, na porta do quarto. As palavras saíam suaves, como se sussurrando. — Mas eu… por que fizeram isso? Me respondam, por favor.

Um silêncio ecoou pelo quarto. Era de noite, o aposento estava iluminado por uma luz fria e dura. Seus olhos miravam o chão, sem coragem de observar seus próprios pais.

Quando o silêncio estava se tornando constrangedor, Alexander quebrou o momento e levantou da cama onde estava sentado. Então, disse, com gosto amargo:

— A culpa foi minha, filha. Eu quem pedi para excluíram você da lista — ele olhava para sua Harmonia, mas ela se recusava a olhar de volta.

— Por quê, pai? Por quê?

— Porque, eu… pode olhar pra mim, por favor?

A garota levemente levantou os olhos. Podia ver a face borrada de seu pai. Ele continuou:

— Eu queria te proteger e fui egoísta. Eu tenho muito medo de você… — engoliu a saliva que o travava — morrer na viagem ou na Terra. Não quero te perder.

— Não queremos te perder, Harmonia — Luana começou a falar —, foi por causa disso. Mas acabamos destruindo seu sonho. Por favor, me desculpa.

Pedir desculpas era tarde demais, ela pensou. Foi por causa deles que tinha quase morrido. Foi por sorte que tinha sobrevivido. O impacto e a hemorragia interna poderia tê-la matado e uma quinta cova seria escavada. Desculpas, desculpas, desculpas, ironizou internamente.

Mas ao mesmo tempo, não poderia agir assim. Quem tinha sido a responsável pela situação perigosa de viajar 20 quilômetros da base tinha sido dela, não deles. Quem não prestou atenção ao relevo da região tinha sido ela. Se havia uma culpada neste fato, era nada menos que si própria. Uma decisão estúpida que tinha feito, raciocinou. Harmonia assistia a uma torrente de argumentos passar pela sua cabeça.

— Nós tínhamos sido escolhido inicialmente. Eu e sua mãe. E como não queríamos que você fosse, pedimos para sermos retirados também. Nós também queríamos voltar para a Terra.

— Mas vocês escolherem estar aqui, eu já disse isso antes — Harmonia retrucou, fria. — Por mais que eu tenha nascido aqui, não foi escolha minha. Eu quero ser livre e fazer meu próprio caminho. Aqui não consigo!

A colônia era grande, mas limitada. Marte era gigantesco, mas tinha que estar dentro de um traje, levar oxigênio e não poderia ir muito longe. A comida era sempre a mesma, a água não tinha bom gosto, a radiação a matava aos poucos. Apesar de ter sido sua casa por 17 anos, a garota era, acima de tudo, humana. Aquele não era o lugar para se viver para sempre.

— Por isso, filha — Alexander disse —, conversamos com Lucciano. Vamos te colocar na próxima missão. Existe um porém, entretanto…

Os olhos da garota se levantaram e fixaram no rosto de Alexander. Suas sobrancelhas se abriram, esperando alguma surpresa.

— Qual… porém? — sua respiração e coração se aceleraram.

— Nós não vamos com você. Não há mais vagas. Você irá sozinha.

Toda aquela raiva acumulada parecia se dissipar em calor. Toda as reclamações que havia pensado, o ódio que achava que sentia tinha evaporado. Na próxima missão, a de agora ou da próxima janela, ela embarcaria para a Terra. Sua expressão pesada havia dando lugar a uma risada, um pouco irônica, um pouco real, de alívio que sentia. Tremia, de êxtase, de confusão, de afinal de tudo ter conseguido dar um importante passo, uma barreira que havia sido removida de seu caminho. Ela tinha sido finalmente autorizada embarcar na nave Victory.

Observou seus pais, em sua frente. Imediatamente percebeu que em 293 sols, se tudo corresse bem, não os veria mais. Talvez, daqui 2 anos, eles voltassem à Terra, mas até lá ela mesma poderia já não estar viva após entrar em contato com o ambiente terrestre. Aquele êxtase dava lugar a uma sobriedade de compreender que os próximos meses poderiam ser os últimos perto de seus pais.

Havia falado demais. Ela não odiava eles. Estava com raiva, certamente, mas ódio, não. Descobriu isso ao perceber como que sentiria longe deles numa viagem para a escuridão do espaço. Apesar de tudo, de todas as desavenças, eles ainda eram seus pais e percebeu que nunca, em nenhum minuto, eles haviam parado de amá-la. Eles puseram a própria vida em risco e caminharam por dezenas de quilômetros no terreno hostil de Marte para resgatar da morte certa. Como que poderia ter ódio das únicas pessoas que realmente a amava? Eventualmente, a ficha caiu ao perceber que iria se separar deles.

Harmonia então se aproximou dos dois, devagar. Abriu os braços e os uniu em um abraço, para a supresa de ambos. Disse, sussurrando:

— Me desculpem também. Eu não odeio vocês.

Percebeu seu próprio reflexo na janela arredondada ao fundo do quarto. Seu rosto até então deprimido dava lugar a um sorriso.

Perdida nessa lembrança, havia feito mais de 70 flexões de pernas, sem perceber.



***



Todos reunidos ao redor da tradicional sala de reuniões. Lucciano havia convocado todos para o grande anúncio da decisão enviada pela NASA em relação a missão de retorno, nomeada de Back to Earth. Todo aquela barulheira, burburinhos, risadas, conversas atravessadas típicas das grande reuniões da colônia, antes que o apresentador principal aparecesse. O chefe era o único que não estava ali, lendo e relendo a informação recebida da equipe em Terra.

O clima era bem festivo, apesar do racionamento de comida. Era possível perceber nas silhuetas de vários habitantes que haviam perdido peso depois das dietas forçadas, embora controlassem muito bem para que não entrassem em subpeso. Beth estava distante, do outro lado da sala, dando atenção a sua panela de colegas para evitar ter que enxergar aquela pirralha. Diferente da atmosfera dos últimas dias, todos pareciam estar realmente aproveitando o momento, fazendo piadas e rindo.

Passado alguns minutos, Lucciano surgiu na sala, imponente e pedindo a todos para prestarem atenção. Se esgueirou pela multidão, se aproximou da mesa e apoiou o tablet. A barulheira imediatamente cessou, todos os olhares concentrados para o chefe da missão, de peito estufado e face séria.

— Como todos sabem, chamei vocês aqui neste momento, que até é um pouco tarde, já passa das — checou o relógio — 24 horas. Bem, finalmente recebi a informação completa do centro de controle da missão de colonização. Como bem sabem, meses atrás foi anunciado que uma missão de retorno, a nave Victory, seria despachada da Terra em direção a Marte trazendo 40 astronautas, que juntarão a nós estendendo nossa colônia para 18 módulos, aumentando o espaço para agricultura e trazendo novos tipos de comida…

Uma voz alta e potente do fundo da sala o interrompeu:

— Diga logo, vamos voltar ou não?

— Calma, Miyamoto, calma — Lucciano olhou ao redor procurando alguém que reprovasse o homem mas apenas viu faces entendiadas pelo longo discurso desnecessário. — Ok, já entendi. A controle da missão anunciou que…

A tensão era brutal. Quase todos ali tinham algo entalado na garganta, seja para gritar ou para chorar. Encaixou os dedos das mãos e então, finalmente, comunicou:

— Podem dar boas-vindas aos novos habitantes!

Uma gritaria infernal. Todo mundo pulando e gritando, como se fosse um bloco de carnaval, se abraçando de alegria de finalmente poderem ter a oportunidade de retornarem à Terra e encontrarem seus familiares e amigos, 20 anos depois. A maioria comemorava, fazendo arruaça, numa festa nunca antes vista na história da A Small Step. Alguns diriam que o barulho era tão alto que até os selenitas eram capaz de ouvir na ausente atmosfera da Lua. Lucciano não conseguia falar mais nada, sua voz era apenas mais uma entre todas que a plenos pulmões exalavam uma alegria poderosa. Ele estava sorrindo, sendo abraçado pelos seus colegas que o chamavam para dançar.

Harmonia ria e gritava com os olhos lacrimejados. Finalmente, depois de tanto tempo, recebeu a notícia que mais esperava de sua vida. Ela não estava apenas feliz, estava astronomicamente feliz, sentia as narinas entupirem conforme as lágrimas escorriam em suas bochechas. Certamente, muitas coisas ainda poderiam dar errado e os 80 habitantes ficarem sitiados em Marte por um bom tempo, mas pelo menos, a parte que ela poderia fazer ela fez. Daqui 293 sols, ou 300 dias terrestres, poderia finalmente colocar os pés no magnífico planeta azul. Seus pais, que estavam ao seu lado, a abraçaram fortemente, acariciando seu cabelo e lhe dando beijos na testa. Alexander, ao mesmo tempo que estava emocionado de felicidade, sentia uma pontada do coração ao saber que se afastaria da garota. Luana, que também tinha sentimentos mistos, estava mais confortável ao saber que o sonho de sua filha provavelmente seria realizado.

Conforme a excitação aos poucos se tornava mais contida, Lucciano chamou a atenção dos presentes novamente. Teria mais um anúncio a fazer.

— Como bem sabem, depois do falecimento de Marie, uma vaga foi aberta para a viagem de retorno. Depois de um cuidadoso estudo de quem preencheria a vaga, com muita deliberação com a missão em Terra, eu finalmente anuncio o passageiro que irá em seu lugar — Harmonia respirou fundo, atenta, esperando a decisão oficial. O chefe abriu a palma da mão, em sua direção — Harmonia Petropoulos Rodrigues.

Luana e Alexander já sabiam disso, mas preferiram deixar que Lucciano comunicasse oficialmente.

Mais uma vez, a algazarra tomou conta da sala. Todos entoavam em coro ritmado “Har-mo-ni-a!, Har-mo-ni-a!”, jogando as mãos para o alto. Miyamoto subitamente apareceu em sua frente, se agachando e indicando para que ela subisse em seus ombros. A garota se aproximou, colocou as pernas para a frente e Miyamoto segurou bem firme nelas, mas graças a baixa gravidade de Marte, ele facilmente conseguiu se equilibrar e levantar Harmonia para o alto, o que fez com que ela batesse a cabeça no teto. Ela simplesmente não se importou, acariciou o couro cabeludo e se curvou para evitar novas acidentes, enquanto era carregada erguida nos ombros do colega que andava meio desengonçado, sendo ovacionada pelos demais habitantes — menos Beth, que olhava tudo de longe com rosto fechado. Harmonia gargalhava ao mesmo tempo que lágrimas escorriam de seus olhos, emocionada, assistindo toda aquela festa do alto. Um dos colegas entrou atrás de Miyamoto, dando início a um trem humano, e logo mais e mais astronautas se juntavam no trem, apoiando as mãos no ombros do colega à frente, como se fosse um jogo de cobrinha. Alguém ligou o alto-falante da sala em uma música bem dançante, um pop dos anos 40, e todos cantavam e dançavam enquanto faziam um zigue-zague bem divertido. Ainda que ela gargalhasse e gritasse, as lágrimas não paravam.

A garota tinha certeza que aquele era o terceiro melhor dia de sua vida.



***



Mesmo após todos os problemas e atrasos, o foguete Zenith finalmente havia sido lançado com sucesso do Cabo Canaveral. A gigantesca máquina já estava em rota para o planeta vermelho, afastado milhões de quilômetros do planeta azul. Harmonia não atrasou um dia dos seus treinos físicos, suportando os gritos de dor de seus músculos.

— Nossa Harmonia, você tá virando fisioculturista? — perguntou Leonard, o engenheiro de telecomunicações que substitiu Marie.

— Que? Nada disso. Preciso para sobreviver.

A garota respondeu ao sair da academia, com uma toalha ao redor do pescoço. O treinamento que ela se submeteve nos últimos meses tinha sido brutal e invejado. Mesmo sob a gravidade de Marte, que dificultava os exercícios físicos, Harmonia tinha adquirido um tônus bem muscular, o maior de todos os habitantes da colônia. Todo dia, seguindo uma sequência rígida de treinos, controlando a alimentação e fazendo os exames regulares, não era muito longe da verdade de dizer que ela tinha um corpo de esportista profissional. Ao mesmo também, com sua permissão, Ye e Marx estudavam como seu organismo se comportava, e estavam juntos escrevendo um artigo médico para ser publicado em uma revista cientifícia sobre os efeitos dos exercícios em marcianos. Harmonia sabia que estava sendo tratada como espécime de testes, mas não se importava muito. Pelo menos, ela respeitava Marx, Ye e os demais médicos da base — com os médicos em Terra, seria outra história.

Ela também não se abdicou das rotinas diárias, especialmente no trabalho da fazenda. Continuou cuidado da área de testes isolada para tentar os experimentos de produtividade enviados pelo pessoal em Terra e descobrir como recuperar o declínio recente da produção. O protocolo não era muito diferente do que já seguia ao cuidar da fazenda principal, mas recebeu o convite de ter seu nome publicado como co-autora em um artigo científico sobre o uso de sementes em Marte. Nada mal, pensou, sem nem ter mesmo ido à escola, já podia ser considerada uma cientista. Continuou consertando os equipamentos que continuamente falhavam, corrigindo falhas elétricas, melhorando o código de alguns sistemas automáticos, limpando antenas. Finalmente ela havia sido “autorizada” a sair da base para fazer manutenção externa. Sempre acompanhada de seu pai ou sua mãe, caso decida dar a louca.

Os sols se passavam mais rapidamente do que esperava. Recebiam comunicações diárias dos ocupantes da Victory, que já tinha tomado o impulso gravitacional e se aproximava do planeta vermelho. A troca de comunicação durante a viagem era fundamental para os novos habitantes poderem se prepar para a longa estadia no hotel marciano. Harmonia — não só, todos os demais também — preparavam registros, notas e documentações sobre os componentes da base, falhas, consertos, gambiarras, ajustes, tudo para facilitar a vida dos novos habitantes. E claro, durante os 100 sols que ambos os grupos estarão vivendo na base, muitas sessões de passagem de conhecimento já estavam agendadas. Afinal, muita informação sobre colônia era baseada na experiência de cada um e não estava escrita em nenhum manual.

Os aposentos para o dobro de habitantes havia sido preparado, deixando os módulos mais apertados e menos confortáveis. Com as novas técnicas de montagem dos módulos, era esperado que assim que chegassem, os novos colonizadores conseguissem montar novos dormitórios em pouco tempo, dando vazão ao aperto temporário da colônia. Os demais módulos dariam espaço para a parte higiênica, como tratamento da água e banheiros, a área da fazenda será triplicada, trazendo novas espécies de verduras e legumes, geneticamente modificadas para o ambiente marciano, com diferentes adubos e terras, e um sistema de irrigação mais eficiente. Também planejavam criar uma fazenda do lado externo da base, em solo marciano, com novos componentes químicos para tentar transformar o solo vermelho em solo produtivo. Um novo laboratório para experimentos químicos e biológicos com novos equipamentos também seria construído, um novo sistema de comunicação usando laser seria implementado, painéis solares mais eficientes e novas baterias seriam instalados. A colônia vai receber uma bela atualização, graças ao desenvolvimento de materiais mais leves e resistentes ocorrido nos últimos 20 anos.

O brilho que aos poucos descendia do céu a menos de 1 quilômetro da colônia inaugurava essas importantes mudanças. O imenso foguete, Zenith, já havia sido utilizado para colocar a espaçonave a caminho de Marte, e portanto havia retornado para a Terra com sucesso para ser reutilizado. Somente a nave Victory, um tremendo objeto brilhante de 70 metros de comprimento, descia verticalmente dos céus, utilizando seus motores para desacelerar enquanto se aproximava no solo. Totalmente controlado por computadores, o pouso acontecia, para quem assistisse de fora, tão suave quanto dentes-de-leão ao vento. Conforme a espaçonave se aproximava do solo, a poeira vermelha se levantava no ar, os pés mecânicos se abriram, formando 3 pontos de apoio para manter o equipamento em pé após o pouso. Todo o processo tinha sido registrado por câmeras que transmitiam ao vivo para a Terra e Lua, sendo assistido por bilhões de espectadores. Ao vivo, claro, com 20 minutos de atraso.

Um grupo de astronautas havia sido enviado até a nave, para receber os novos habitantes com tapete vermelho. O Red Beetle também sido posto em funcionamento, pronto para carregar os equipamentos e itens pessoais do astronautas. Harmonia assistia tudo através da janela da sala de controle, maravilhada pelo tamanho da espaçonave, muito maior que havia imaginado. Os minúsculos humanos pareciam formigas, meros pontos ao lado da enorme espaçonava que refletia um brilho metálico sob a luz solar. Uma imagem mesmerizante, que tratou muito bem de guardar em sua mente.

100 sols.

102 dias.

A interação com os novos habitantes havia sido formidável, todos estavam curiosos em conhecer pessoalmente a garota de Marte, 17 anos terrestres, 1,80 metro de altura, olhos castanhos, cabelos longos e pretos. Filha de um geólogo e uma engenheira agrônoma. Uma inteligência acima da média, famosa por saber cuidar das fazendas até consertar complexos sistemas de rádio. Autodidata. Todos dispostos a ouvir as histórias não só daquela menina, mas como era a experiência de 20 anos em confinamento, isolados de todo o resto da espécie humana. Um experimento social, que só não era considerado um reality show por falta de câmeras em todos os lugares. Harmonia se dispôs a fazer troca de conhecimento e experiência com os novos habitantes, conheceu a história pessoal de quase todos eles, explicou as peculiaridades de cada tipo de equipamente, lembrou de Marie exaltando a maravilhosa pessoa que era. Sabendo que seriam seus últimos dias ali, aproveitou para tirar o máximo proveito daquela situação única. Ela, junto com outros 22 habitantes, partiriam para uma última jornada sem volta.

Estava tudo terminando. Teria que deixar as coisas em ordem, para um último adeus.

Acompanhada de seus pais, visitou os túmulos no pequeno cemitério. Trazia em suas mãos 4 rosas brancas, que solenemente pousou em cima das chapas metálicas com os nomes dos falecidos. Mas especialmente no de Marie, se agachou em frente ao crucifixo improvisado, passando os dedos protegidos pela luva em cima da chapa, limpando a poeira e revelando o nome da sua colega. Imaginou conversar com ela, relembrando do dia que foi chamada de “Bruxa Marciana”. Mesmo não acreditando em nada divino, entoou uma breve oração que tinha lido em um artigo sobre religões. Seus pais estavam logo atrás de si, observando a cena.

Ao terminar, se levantou, e questionou murmurando dentro do capacete:

— Vocês também irão colocar flores no meu túmulo quando eu morrer?

E virou para seus pais. Nada podiam ouvir, pois o microfone de Harmonia estava desligado.



***



Em um piscar de olhos, os 100 sols haviam se passado. Os 23 passageiros que conviveriam os próximos 6 meses dentro da Victory estavam já com os trajes espaciais vestidos. Alexander e Luana haviam ajudado Harmonia a se vestir, e eles mesmos estavam preparados para saírem da base e acompanharem a filha até a espaçonave. Victory tinha sido parcialmente reabastecida com sucesso com combustível produzido em solo marciano, uma das primeiras coisas que os colonizadores haviam se comprometido a fazer, mas a maior parte veio de combustível enviado pelas missões não tripuladas que pousavam com certa frequência. Tinha sido um trabalho árduo e difícil colocar um sistema desse em funcionamente em tão pouco tempo, mas aquilo se tornaria essencial para a vinda das futuras missões à Marte.

Encaixaram todas as partes do traje no lugar, checaram o tanque de oxigênio, vazamentos, comunicação, sistema de arrefecimento. O coração de Harmonia palpitava, um misto de ansiedade e felicidade. Seus pais haviam terminando a verificação de seu equipamento, e agora não poderiam mais ter nem um contato físico direto. Existia a possibilidade de ser a última vez que Harmonia veria seus pais.

— Pai, mãe, eu amo vocês — a garota disse segurando as mãos deles, que logo depois se tornou em um abraço. — Eu espero viver o suficiente para encontrarem vocês em Terra. Vou lutar o máximo. Eu treinei muito, bastante, para este momento. Obrigado por me deixarem ir.

O abraço se tornou mais forte, quase era possível sentir calor através do traje. Mesmo que os capacetes colidissem um com os outros e não pudessem mais se tocar, já haviam se despedido antes. Mas nunca era demais para mais uma despedida.

— Harmonia, eu também te amo. Chega de ser pessimista, você vai estar lá quando voltarmos. Se não daqui 2 anos, daqui 4 anos, daqui 10 anos. Você vai receber a gente na porta do foguete — Luana disse, apertando Harmonia bem forte contra si.

Alexander preferiu o silêncio, deixando apenas as lágrimas falarem. Sentia medo do que poderia acontecer, mesmo que já tivesse aceitado o destino. Apenas encobriu as duas em um forte abraço familiar, tentando se encaixar entre os capacetes que se batiam. Um longo, forte, quente abraço. Sua querida filha tinha criado asas.

Entraram na câmara de descompressão. À direita, Alexander, à esquerda, Luana. Cada um segurava uma mão da garota, olhando em direção ao exterior. As portas foram hermeticamente seladas, a pressão aos poucos diminuiu, e finalmente a saída se abriu. Do lado de fora, Ye, com um câmera, registrava o momento que os três saíam da base em direção ao planalto vermelho. Era um momento simbólico. A garota de Marte estava finalmente deixando as asas dos pais em direção ao desconhecida. De certa forma, uma desbravadora, assim como seus pais foram, indo rumo a um mundo completamente diferente e hostil. Arriscando sua própria vida. Os passos que pareciam sincronizados marchavam em direção à imponente nave que pacientemente os esperava de portas abertas. Ye, com a câmera em mãos, seguia o trajeto da família, registrando para sempre na história da civilização aquele momento único. Aquelas imagens rodariam o mundo nos meses seguintes.

À sua frente, a longa escada até a escotilha. Era o final do trajeto para Alexander, para Luana.

— Mãe, pai. Adeus. Vejo vocês em 2 anos — Harmonia disse via rádio.

Capacete com capacete, se despediram. Nesse exato momento Ye conseguiu bater uma foto que achou tão fantástica que ficou orgulhosa de si mesma. Mãe e filha encostavam os capacetes uma na outra em um longo contato, como se comunicassem telepaticamente, apoiando as mãos nas laterais de forma a acariciar o material transparente. Ao fundo, a nave Victory com a longa escadaria em ziguezague até a porta dezenas de metros sobre o solo. Preechendo todo o resto do quadro, a rochosa, vermelha e irregular terreno de Arcadia Planitia.

Aquela foto simbolizava a primeira despedida familiar em outro planeta. Era impactante.

— Ye, venha cá — Harmonia então chamou a médica fazendo um sinal misterioso com as mãos. Ela se aproximou. — Quero agradecer por ter cuidado de mim por todo esse tempo. Sem você eu não estaria aqui hoje. Obrigado, de coração.

— Sabe que eu sempre cuidei de você como uma filha minha. Só não conte a sua mãe.

Harmonia riu. As duas tinham mudado a frequência do rádio então Luana não ouviu.

Era a hora de subir. Harmonia caminhou em direção a escada, virou e balançou as mãos, dando tchau para Luana, Alexander, Ye e os demais astronautas que acompanhavam tanto do lado de fora quanto do lado de dentro da colônia. A garota subiu até o último degrau, a frente da escotilha, e girou em direção a paisagem. A colônia logo abaixo. As montanhas ao fundo. O céu alaranjado. A poeira vermelha. O sol que era apenas uma pequena bola no topo do céu. Estava deixando aquela paisagem única que pouquíssimas pessoas da humanidade tiveram a oportunidade de experienciar mas que para ela era apenas o seu cotidiano. Que loucura que existem pessoas que largariam tudo para estar aqui, pensou, enquanto eu estou largando tudo para ir para lá. Lembrou de uma expressão bem popular que tinha aprendido que dizia algo como “a grama do vizinho é sempre mais verde”. Não estar satisfeito com o que tem e procurar sempre algo mais empolgante. Se arriscar em direção ao desconhecido. Fazer coisas além da lógica e razão apenas para sentir a emoção de fazer algo que ninguém nunca fez antes. Se expor a perigos inimagináveis para desbravar um planeta seco, sem vida, sem oxigênio. Viver 20 anos em uma prisão voluntária, tomando água de urina e comida desidratada. E ser trazida nessa aventura apenas porque duas pessoas resolveram ter uma noite com um pouco mais de excitação que essa grandiosa jornada não era capaz de suprir.

Não era nada mal, pensou. Seu sonho estava ao alcance de suas mãos, apenas mais alguns meses. Somente alguns meses. Para o melhor dia de sua vida.

Tranquilamente, apenas escutava a própria respiração no interior do capacete.

Era hora de partir. Se virou e adentrou a espaçonave.

Horas depois um brilho intenso iluminou aquela manhã marciana, marcando para sempre mais um capítulo das grandes navegações espaciais da história da humanidade. A espaçonave acelerava pela rarefeita atmosfera marciana, deixando um rastro branco com tons avermelhados para trás. O corpo de Harmonia vibrava com a potência dos motores e as emoções que sentia transbordar.

Era o segundo melhor dia da vida da garota de Marte.





Parte 2
Epílogo