As paredes tremeram, os livros da estante caíram no chão, as janelas estouraram, o lustre do teto chacoalhou violentamente. Rainha latiu assim que o estrondo atingiu seus ouvidos e uivou de dor tanto pela forte pressão em seus tímpanos quanto pelos cacos de vidro que atingiram sua pele. Um casal de meia idade que assistia o noticiário na sala levantou apressado do sofá em direção ao lugar que achavam ser o mais seguro da casa, embaixo da própria cama no quarto, já antecipando uma sequência de explosões que viria. A vida na Guerra era extenuante e dolorosa, mas aquele era o lugar deles, o único lugar onde se sentiam literalmente e figurativamente em casa, um lugar onde tinham criado laços fortes e inquebráveis de amizade e confiança com familiares, amigos, e especialmente com Rainha, uma cadela que aparentava ser uma mistura de husky siberiano com alguma outra raça desconhecida, dando-lhe uma pelagem densa marrom acinzentada, os olhos claros, o porte físico generoso e os caninos enormes.
Rainha era tratada como se fosse uma filha. Após os dois filhos do casal terem partido em suas próprias jornadas, foi adotada quando um canil numa cidade próxima rejeitou a cachorrinha justamente pela sua natureza mista, já que não poderiam vendê-la como uma husky. Foi uma decisão difícil para a família porque o apartamento não era tão espaçoso para criar uma cachorra que eles sabiam que se tornaria de grande porte. Ainda assim, tudo valeu a pena. Rainha foi cuidada, ganhava passeio e petiscos todos os dias, e se tornou parte inseparável da família.
Para a cadela o lugar mais seguro naquele apartamento era junto aos seus donos, mas ela não sabia que se continuasse dormindo debaixo da cama seria mais seguro ainda. Superando a dor nos ouvidos forçou as patas para ir em direção aos seus donos. Assim que deu o primeiro passo, tudo ficou escuro e ela não viu nem ouviu mais nada. Uma bomba, um míssil, um avião descontrolado, não importa. Antes mesmo que qualquer um dos três conseguisse entender o que tinha acontecido finalmente a chama da vida havia se extinguido e eram apenas mais algumas casualidades do Fim.
Rainha então sonhou. Suas orelhas eriçadas atentas ao som do vento, suas pernas fortes trotavam em um campo de grama baixa atrás de pequenos roedores que se escondiam em infinitos buracos. Ela nunca conseguia pegar nenhum dos bichos, mas ela também não desistia. Cada vez que se aproximava de um, um buraco do tamanho do roedor surgia e ele então saltava dentro, desaparecendo eternamente. A cachorra buscava por outro, chegava perto, o rabo quase tocando seu focinho, mas novamente um buraco surgia e o roedor escapava, sumindo de sua vista. E assim, repetidamente, centenas de vezes, até uma hora em que o chão se partiu, formando uma rachadura infinitamente profunda e larga. Rainha, sem tempo de frear, ainda tentou pular para o outro lado da rachadura, mas suas patas agora nadavam ao vento e ela começou a cair em queda livre em direção a escuridão sentindo o ar frio em seu focinho úmido.
Latiu e levantou a cabeça. Estava desconfortavelmente deitada entre as frestas de uma pilha distorcida de concreto e aço, mas sua audição aguçada percebia presença humana próxima. Sem conseguir se movimentar muito com o corpo dolorido e o espaço apertado, continuou a latir com toda a força que ainda lhe restava, na esperança que seus donos pudessem encontrá-la. Latiu e latiu e latiu, horas se passaram, ela viu o nascer do sol e o pôr do sol, o barulho das máquinas, os holofotes, as sirenes. Era de noite quando um mão humana alcançou a fresta tentando separar os pesados pedaços de concreto, chamando pela cachorra, ainda que não soubesse seu nome, mas dizendo “acalme-se garoto, vamos te tirar daí em um instante”, e outra voz dizendo “um milagre! Um milagre!”. Não era como se ela estivesse realmente entendendo as palavras, mas o que quer que os humanos diziam lhe trazia um pouco de conforto. Assim que vários homem colaboraram para remover o concreto, Rainha se viu finalmente livre daquela destruição. Claro que ela tinha poucas forças porque dois dias haviam se passado desde que o prédio onde morava tinha desmoronado. Jamais ela entenderia o porquê de tudo isso — pode-se dizer que nem os humanos sabiam direito porque se matavam –, mas o que lhe importava era encontrar seus donos. Foi assim que ganhou a força suficiente para se levantar, compensar a dor em seu corpo inteiro, ainda coberta do pó fino de concreto que lhe dava a aparência completamente cinza. Ignorando os humanos que haviam lhe resgatado, começou a farejar, e farejou e farejou até encontrar um odor característico. Eram eles! Estavam ainda debaixo dos escombros, esperançosamente vivos, então começou a latir no local tentando chamar a atenção dos humanos. Os resgatistas perceberam a comoção e se aproximaram, para tentar recuperar o que seriam mais sobreviventes desta tragédia. Os homens removiam camadas e camadas de concreto, primeiro manualmente e depois delicadamente com ajuda de uma retroescavadeira, se é que possível ser delicado com um maquinário de grande porte, no mais meticuloso trabalho de não colapsar ainda mais os restos da estrutura ou terminar por matar quem estivesse apenas ferido. Rainha não saía de perto, cheirava cada canto encontrando o odor de seus donos, cavando com as próprias patas feridas o que dava para ser cavado, observando a movimentação da equipe de resgaste. Então, debaixo de um pedaço de concreto, finalmente seu dono havia sido achado. Ou melhor, apenas a cabeça deformada pelo peso da construção. E a cada bloco removido, uma parte diferente de seus donos era encontrada. Um braço retorcido. Uma perna em boas condições. Os dedos amassados. Cada parte era jogada em um saco preto para identificação posterior, mas para Rainha, ainda que ela não entendesse aquilo, ela de alguma forma sabia.
Sabia que seus donos estavam mortos. Então uivou. Uivou. E uivou. Há quem diga que seus olhos marejaram e brilharam enquanto uivava de forma aguda, chamando a atenção de quem quer que fosse naquela região. Um silêncio se formou entre os regatistas que apenas observavam lamentosos pela tragédia, a cadela com cara apontada para a lua e boca cerrada apenas externalizando seu sentimento. Duas casualidades entre tantas outras daquele prédio e outras milhares da Guerra, mas jamais que eles se acostumaram com cada vida que foram incapazes de salvar. Pode-se dizer que Rainha estava apenas fazendo o que aqueles homens e mulheres já eram incapazes de fazer após viverem cada dia vendo sangue após sangue, porque suas lágrimas já secaram: chorar.
O silêncio só foi interrompido por um burburinho preocupante. Os humanos apressadamente começaram a se retirar do local, deixando para trás todo o maquinário pesado, os holofotes, os galões de diesel, as ferramentas de resgate. Um dos homens tentou chamar a cachorra para entrar no carro com ele, lhe oferecendo um bolacha doce, a única coisa que tinha em mãos. Mas Rainha recusou, dando voltas em cima dos escombros onde as partes de seus donos haviam sido encontradas, uivando sem parar. O homem se aproximou e tentou pegá-la no colo, mas Rainha mostrou os dentes e rosnou, fazendo com que ele imediatamente parasse.
— Meus pêsames. Peço desculpas.
O homem disse para a cachorra com o coração partido. Ele sabia que ela não iria sair dali, pois ainda restava mais partes humanas e o odor deles ainda exalava forte. A informação que outro ataque naquela região nos próximos minutos era dada como certa, provocando os bombeiros e voluntários a saírem do local o mais depressa possível.
Rainha ficou sozinha, sentada, olhando para os buracos entre o concreto e aço retorcido, como se esperasse que eles saíssem vivos e inteiros debaixo dos escombros. De vez em quando dava voltas ao redor, abanando o rabo, ansiosa, tentando captar pelos seus ouvidos atentos qualquer barulho, mas só escutava o som dos geradores e as explosões ao longe, sentindo seus ossos vibrarem. Alternava entre uivar e ficar sentada, impaciente, ansiosa, o coração apertado.
Não, Rainha. Seus donos jamais irão voltar.
Mesmo que fique a noite inteira escutando o som das explosões, vendo a paisagem turva do pó de concreto que levantava a cada vibração, sentindo a fina chuva que caía sem dar trégua, revirando a cara quando o céu se iluminava pelos mísseis interceptados, dormindo com cabeça apoiada nos pedregulhos. Mesmo que passe dois, três, quatro, ou dez dias apenas bebendo as poças imundas de água da garoa noturna, as patas fracas, o estômago se retorcendo, as costelas aparentes sob o manto marrom acinzentando.
O instinto de sobrevivência falava mais alto. Era hora de partir. Rainha desceu a pilha de escombros que os humanos abandonaram, usando as poucas forças que ainda lhe restava, e caminhou pelas ruas destruídas, tentando sentir qualquer mínimo odor de alimento. Suas narinas fungavam visivelmente, vagando de rua em rua por algo que despertasse sua atenção. Viu uma espécie de caminhão de cor escura parado no meio de uma avenida e vagarosamente caminhou em sua direção. A lataria perfurada de tiros já estava sem cor, empretecida pelas chamas, com pequenos pontos de ferrugem. A porta do lado do motorista estava semiaberta, revelando o subproduto mais repugnante produzido diariamente pela Guerra: carne humana. O corpo semicarbonizado estava debruçado sobre o que restou do volante. Os assentos e acabamento interno haviam praticamente desaparecido, evaporados em seu sentido mais literal. O odor de carne queimada ainda era sobressalente que até um humano sentiria metros distante, revelando ter sido um morte relativamente recente. Seções da pele que não tinham sido totalmente carbonizados era o que saltou ao olhos e instinto de Rainha, o suficiente para que sua parca saliva secretasse e sem titubear atacar com suas mandíbulas o que quer que poderia ser aproveitado daquele pedaço de carne. “Pedaço de carne”. Não existia mais uma pessoa ali, apenas restos de tecidos, músculos e ossos.
A cachorra faminta arrancava a pele com certa dificuldade usando os dentes, revelando o que sobrou dos músculos, mastigando como um chiclete o pedaço de couro. Instintivamente tentava evitar os pontos mais carbonizados pois o odor era significativamente diferente e menos atrativo, mas no que quer que fosse aproveitável usava o restante de suas forças para conseguir o máximo de energia possível. Nada mais que uma luta pela sua sobrevivência.
Lógico que para uma cachorra seria apenas seu instinto.
Um tanque de guerra passava bem distante pelas ruínas daquela cidade, como se estivesse em uma ronda. Os primeiros raios de sol trespassavam a névoa matinal e refletiam na pintura camuflada do equipamento. Pela tela de cristal líquido, o comandante admirava curioso a situação da cachorra se deliciando com aquela iguaria, mas não era como se ele tivesse interessado em se aproximar da situação. A noite tinha sido longa e estavam cansados com a munição depletada. Com a região controlada pelo invasor, estavam certos que aquela cidade destroçada era segura. Afinal, eles tinham feito parte do ataque de múltiplos dias contra toda aquela região, e os civis não poderiam fazer mais nada contra homens dirigindo blindados. Apenas esconder ou correr, isto se eles tivessem a humanidade de permiti-los.
O piloto redirecionou o tanque e vagarosamente seguiu em direção à cachorra. Ainda que fosse uma máquina a diesel barulhenta, Rainha apenas rapidamente olhou para o objeto em movimento e continuou na sua refeição. Sem um pingo de energia, seria incapaz de se defender.
— Da próxima você vai tomar uma advertência formal — o comandante avisou o piloto com rispidez.
— Mas você quem disse para verificar! — retrucou.
— Verificar, não se aproximar.
O piloto preferiu evitar uma briga e ficou calado. O municiador então abriu a escotilha e desceu ao solo, oferecendo um pouco de ração humana para a cadela.
— É a única coisa que tenho.
Rainha parou o que estava fazendo, o focinho e boca pintados de sangue e fuligem, e olhou para o petisco. Não era algo realmente apetitoso mas seguiu o cheiro e mordeu a isca, para reprovação do comandante.
— Vai gastar comida mesmo, caralho? — gritou de dentro do tanque.
— Vai tomar no cu e cuida da sua vida — respondeu grosseiramente o municiador, que rapidamente ganhou a confiança de Rainha. Começou a fazer um afago em sua cabeça enquanto ela engolia o pedaço de ração. Ele então esticou levemente o pescoço para checar o resto do cadáver por alguma coisa valiosa para roubar, como cordões ou anéis. Sem encontrar nada a primeira vista, deu o resto da comida para a cadela e se aproximou do carro queimado, mas mesmo numa análise aproximada não encontrou nada de importante. Rainha voltou para cheirar sua mão.
— Não tenho mais nada, cãozinho.
Ele se agachou e afagou o pescoço dela.
— Hmm, então parece aqui que você se chama… Rainha? — encontrou a placa com seu nome escrito, pendurada na coleira de couro, junto a um número de telefone. Obviamente ele jamais iria ligar no número porque estava quase certo que estavam mortos, ou a cachorra não estaria ao relento.
— Até mais, Rainha — se levantou, cruzou o braço direito sob o estômago, se curvou para frente e estendeu o braço esquerdo, como se tivesse em pose de respeito formal. Afinal, a cadela era uma Rainha.
Mesmo que não entendesse o que aquilo significava, seguiu o odor da comida que o municiador exalava conforme ele voltava ao tanque. Assim que ele se preparava para fechar a escotilha, a cachorra apoiou as duas patas na lateral do tanque e latiu, lambendo o beiço em seguida. Latiu novamente, enquanto o municiador pensava no que iria fazer.
— Não acredito… — o comandante reprovava a atitude, mas se recusava a agir de verdade.
— Deixa ele, afinal podemos morrer a qualquer hora — o piloto comentou, bebendo o que restava de um cantil de água.
— Seria bom se conseguíssemos treinar ela para ouvir um maldito se aproximando do nosso acampamento — o artilheiro disse enquanto olhava o celular.
— Não fala merda — apesar da negação, no fundo o comandante era indiferente. Mas tinha que demonstrar a pose de autoridade.
***
Aquele pedaço de comida comprou a amizade de Rainha. Apesar da relutância inicial do comandante aceitar a nova companheira de guerra, no final foi convencido pelos demais que seria bom psicologicamente. Claro, papo furado, era apenas uma desculpa esfarrapada para terem a cachorra. E logicamente, aquilo era totalmente contra as regras do seu batalhão de blindados. Mas considerando que boa parte do tempo ficavam sozinhos porque boa parte de seus companheiros tinham sido dizimados, ainda que alguém percebesse não seria um grande problema.
Conforme os dias e semanas se passavam, havia uma tensão constante de que a Chuva começasse a cair. Sobre isso não havia mais nada o que aqueles homens pudessem fazer, além de esperar, batalhar ocasionalmente, ver as notícias, matar pessoas, receberem briefings, e brincar com Rainha. A cachorra no final tinha realmente virado um apoio psicológico. Jogavam iscas de madeiras embebidas em molho de caldo de carne de pequenos animais para que Rainha capturasse e trouxesse de volta, repetindo a brincadeira várias e várias vezes. Sua grande pelugem deitava ao vento quando ela corria, dando-lhe um aspecto mais magro. Seu focinho afiado e sua linha canina lhe dava um instinto de caça muito útil em detectar estes pequenos animais, especialmente roedores, fazendo com que aumentassem a ingestão calórica, deixando os quatro — ou melhor, os cinco — com muito mais disposição. Quando estava cansada de correr, Rainha deitava no colo de um deles, mas com muito mais frequência no colo do municiador, esperando receber um carinho debaixo do pescoço ou das orelhas. Seus olhos cerravam e parecia abrir um leve sozinho quando os dedos brincavam com a pelugem de seu pescoço. Assim, ela lembrava dos momentos com seus antigos donos, um casal de meia idade que a resgataram daquele canil imundo, que todo dia desciam com ela para caminhar nas ruas, a cachorra cheirando cada poste, pedra, planta, parede que encontrava, e ainda que fosse fêmea urinava próximo destes objetos para demarcar a posição. Adorava um osso defumado de boi, que roía continuamente até que ele ficasse completamente sujo, quando seus donos jogavam fora e compravam um novo osso. Dormia debaixo da cama, que tinha ganhando uns centímetros de altura justamente porque no início ela não cabia naquele lugar direito, sobre uma caminha macia forrada com cobertor. E assim, enquanto recebia o afago destas pessoas ligeiramente estranhas mas que lhe davam comida, ela relembrava dos tempos antes da Guerra.
Ainda que ela não entendesse nada disso.
Ao redor de uma fogueira, enquanto conversavam e Rainha descansava tranquilamente ao lado da fonte de calor, o piloto perguntou:
— Ela realmente gostou de você, o que você fez?
— Eu? Nada. Apenas dei comida.
— Ela dorme com você, ela vai atrás de você quando você vai dar uma cagada, quando dá uma fumada. Caramba, não sabia que você gostava de cachorro.
O comandante e o artilheiro apenas escutavam e se deliciavam com um copo de bebida, uísque roubado de um supermercado.
— Eu tinha um cachorro. Se chamava Han, um salsicha deste tamanho. Quando ele tinha uns 7 anos, eu tinha 18, ele foi atropelado por um carro quando ele correu atrás de mim na rua. Sabe para onde eu estava indo?
Silêncio.
— Me alistar.
O comandante olhou para o alto observando o céu nublado noturno e acendeu um cigarro. Ele meio que sabia onde a conversa levaria.
— Eu não podia chegar atrasado ou iria perder a oportunidade. Iria ter um soldo bom, iria aprender algo de útil, poderia me orgulhar de servir ao país. Tinha desistido de tentar a faculdade por causa disso. A gente parou o carro e minha mãe desceu gritando, ela viu tudo pelo retrovisor. Eu só vi Han, no chão, ensanguentado. A única coisa que me acalmou foi saber que ele tinha morrido na hora. Era óbvio.
Rainha se estirou e soltou um grunhido de conforto. Ela estava bem aquecida apesar da temperatura ambiente ter se aproximado de 10 graus. Talvez estivesse sonhando com um imenso campo de roedores que se escondiam em buracos.
— Se você está aqui, então você…
— Sim, eu voltei pro carro com meu pai e fomos à academia militar. Minha mãe ficou com Han. Não tinha nada que pudesse fazer por ele, mas se eu tivesse ficado lá com ele, se eu tivesse dado um último adeus eu…
O municiador começou a fungar, seus olhos marejaram, a fogueira estalava. O artilheiro deu mais um gole no uísque, o piloto inspirou profundamente e completou:
— Você não estaria nesta guerra.
Acenou afirmativamente.
— Eu estaria… com meus pais… – era quase impossível completar as palavras, como se lhe faltasse ar. Rainha ergueu as orelhas ao perceber a respiração pesada –. Estaria lá com eles… não estaria… nesta merda.
— Garoto — o comandante chamou –, você não tem ideia de quantas vidas de seus compatriotas estamos salvando aqui — soltou uma baforada de cigarro, a fumaça turbilhonou em direção ao céu. — Você está salvando a vida dos seus pais.
— Estou salvando… como?
— Cada vez que a gente destrói um posto de comando, um blindado, uma base você enfraquece o inimigo, deixa eles sem recursos pra machucar sua família.
— Ini…migo? — o municiador olhou para cada um de seus companheiros, como se procurasse as palavras certas. Talvez fosse visto como um traidor naquele momento. Mas ele se importaria? — Me explique como atirar uma 120 milímetros… num prédio residencial… ajuda?
— Tem tudo equipamento militar. Abrigam os terroristas.
— Até hoje… não vi a porra de… de uma arma de brinquedo nos civis que a gente atacou! — o municiador ergueu a voz e corpo, gesticulando violentamente. Rainha levantou a cara com a comoção, observando os lábios humanos se mexerem com vigor. — Que porra é essa? Quando a gente… tava contra um tanque eu entendo, mas que caralho de… botar uma 120 na merda de uma janela de prédio? Ver pedaço de criança pelos ares! Você lembra desta merda também! Você travou, eu carreguei, ele atirou, e você foi até lá pra isso. Todo mundo aqui é a porra, a escória de um assassino! Pior que lixo, lixo do lixo!
— Abaixa a porra da voz ou toma porrada! — o comandante gritou de volta, jogando o copo metálico para longe e o cigarro ao chão. Seu rosto estava coberto de suor, uma sensação de queimação dos pés à cabeça. — Eu não me importo com esta bosta, se é filho de terrorista, terrorista é!
Os olhos do municiador se arregalaram, os punhos cerraram. Respirou profundamente e correu em direção ao seu comandante, fazendo pose para lhe dar um soco no rosto. Não era um especialista em combate manual, o sênior evadiu o ataque e puxou o fuzil que estava ao seu lado, apontando para seu oponente.
— Se der mais um passo te executo aqui e agora. Por traição. Deita no chão e mãos na cabeça. E você aí — apontou para o piloto –, chame agora o major do esquadrão mecanizado e me passem o rádio, este verme vai dormir na prisão.
Rainha sentiu o perigo, se pondo em posição ofensiva, abaixando as patas dianteiras, esticando o focinho e revelando os dentes. Rosnou virada para o comandante que parecia ignorar a ameaça canina. Não que ele estivesse se importando muito, pois tinha o fuzil para se proteger. A cachorra percebeu que aquele objeto era perigoso e estava na direção do municiador. Apenas seguia seu instinto de proteger o líder da matilha.
Era instinto mesmo? Ou ela de alguma forma compreendia?
Depois de um breve silêncio, as mãos dele seguiam em direção a cabeça, como se rendesse.
De canto de olho, o municiador percebeu que a cadela estava preparada. Ela só precisava de um sinal provavelmente. Não tinha certeza. Não era como se ele quisesse arriscar a própria vida.
Mas estava com cabeça quente. Não pensou racionalmente.
Desferiu um golpe arriscado na arma, fazendo com que ela se desprendesse da mão de apoio do comandante. A cachorra entendeu isso como um sinal e sem piedade avançou e mordeu o braço que segurava o cabo. Os dedos contraíram e puxaram o gatilho, fazendo estrondos conforme a arma disparava sem mira em direção a vegetação ao redor. O municiador conseguiu espaço e deu um belo soco no rosto do seu superior, que rodopiou mas se recusou a cair. Em troca, ele deu um chute na barriga de Rainha que fez com que ela se afastasse com um grunhido agudo de dor. Mas ainda assim a arma estava em suas mãos, era só questão de retomar a postura e matar o seu subordinado.
Os outros dois reagiram e foram em direção a cena do combate para separar a briga, mas o cano da arma girando pelo local fez com que fossem cautelosos e demorassem a chegar onde estava os briguentos, ainda que fosse poucos metros de distância.
O municiador deu outro soco acertando o queixo, ouvindo um craquelar dos ossos. Sua visão escureceu, atordoado e neste momento temendo pela própria vida, o comandante segurou o gatilho e começou a disparar para onde quer que fosse e acertando o que quer que fosse.
Quase que como troco a cachorra mordeu a barriga, indiferente ao som dos tiros a poucos centímetros de seus aguçados ouvidos e o calor das cápsulas superaquecidas que tocavam sua pelugem. O comandante apontou a arma para baixo mas ela emperrou em um dos disparos.
O equipamento do exército não era realmente dos melhores.
Foi o suficiente para o municiador segurar seu braço e desferir um golpe final. A arma caiu no chão.
— Rainha, sai daqui!
Gritou para a cachorra, empurrando ela com as mãos. Pegou a arma do chão, ejetou a cápsula que havia travado, afundou o dedo no gatilho, disparando em direção ao seu superior. Rainha ainda chorava de dor, tanto pelo chute, quanto pelo ensurdecedor barulho do fuzil.
Nada mais restava no cartucho. Quando se deu conta de si, o municiador só percebeu que a cabeça do comandante havia se tornado em uma massa indistinta e que seu uniforme militar estava enegrecido de sangue. Foi em direção à Rainha, cuja cara ainda era de assustada e ainda chorava com a pata traseira levantada. Ele se agachou e abraçou a cachorra, sussurrando em seu ouvido.
— Rainha… obrigado.
O artilheiro e piloto observavam tudo, incrédulos. Eles ainda não haviam processado o que tinha se passado.
Mas parecia que a fogueira havia ficado mais alta.
***
O municiador ajeitou a calça jeans na cintura, fechou o zíper e abotoou. Era uma das poucas roupas civis que ele havia trazido junto de suas tralhas quando foi enviado para a Guerra. Até então, não tinha usado nenhuma vez, nem mesmo nos momentos de descanso, afinal poderia entrar em batalha a qualquer momento. Improvisou com uma corda uma coleira e corrente, passando ao redor do pescoço da Rainha, que tentou arrancar mas não conseguia alcançá-lo. De qualquer forma, estavam prontos para partir.
— Obrigado por não me deduraram. Digam que estavam dormindo quando matei ele e desertei.
— Não é por você. A gente não gostava dele também. Este cachorro só trouxe problemas, puta que pariu.
— Que seja. Não me importo. Vou indo. Não se matem.
— Te vejo no inferno.
Não parecia, mas era uma amigável troca de palavras. Em poucas horas o sol nasceria, mas ele preferiu não esperar até lá. Como fonte de luz só uma lanterna para navegar pelo terreno e o faro apurada de Rainha. Embora a pata não estivesse totalmente curada, ela já conseguia colocar no chão e desde que não andassem muito rápido ela conseguiria aguentar, ele supôs.
Também supunha que um homem em roupas civis levando um cachorro não chamaria muita atenção caso fossem vistos. Infelizmente a natureza da guerra significava que ele seria preso por deserção se voltasse ao seu país natal, ou ser preso e eventualmente morto se encontrasse agentes inimigos. Não tinha muito ideia para onde iria, apenas que não queria mais participar desta Guerra, matar pessoas toda hora em todo lugar. Para ele, Rainha tinha finalmente lhe mostrado um caminho de saída desta rotina trágica, ainda que isso significasse outros perigos.
Partiu. Calmamente, silenciosamente, como se uma bigorna de vinte toneladas tivesse sido levantada de seu peito. A cachorra andava mancando e ocasionalmente achava melhor levantar a pata e andar com apenas três delas. Ela fungava e cheirava as árvores, pedras, plantas, objetos que encontrava pelo caminho, mas não era como se o municiador tivesse com pressa. Para ele, era uma nostalgia de tempos mais pacíficos, quando ele saía com Han para caminhar as noites e não teria que se preocupar se no próximo dia estaria vivo. Sem rádio e com o celular sem sinal, nem dizer para seus pais que ele estava vivo e bem conseguiria. A lanterna cuidadosamente escaneava o solo enquanto o sol não nascia, e estava de ouvidos sempre atentos para qualquer sinal de perigo. Mas era óbvio que sair de madrugada teria sua desvantagem.
Ele estava cansado. Queria dormir. Fez uma fogueira usando um isqueiro que trazia junto. Procurou uma árvore para se recostar, vasculhando o chão antes por algum bicho peçonhento. Tirou da mochila um pedaço de tecido e forrou o solo, colocando um cantil de água ao seu lado. Pegou também um copo e encheu de água, colocando junto de Rainha que deu uma cheirada e começou a beber. A luz vibrante da pequena fogueira refletia nos pelos marrom acinzentados, o municiador começou a acariciá-la com ternura no pescoço, enquanto dizia:
— Rainha, se não fosse por você eu talvez já teria me matado…
Assim que ela terminou de beber, repousou a cabeça em sua perna, fechando os olhos e ronronando de suposta satisfação. Ele fechou os olhos, apenas escutando som do vento, seu próprio coração batendo, a respiração de Rainha, o estalar da fogueira. Imaginou os tempos em seu país natal, passeando, estudando, namorando, viajando, comprando, se divertindo, rindo, chorando com seus país, avós, amigos e namorada. Ele não queria nada disso, só queria achar um propósito para sua própria vida, ser alguém útil e confiável, aprender habilidades para proteger as pessoas de seu país. E agora passava pela sua cabeça todas as mentiras que haviam lhe contado sobre ser um cidadão útil, de ter orgulho da pátria, de servir para proteger sua terra natal, de ser tratado como herói.
Ingênuo, foi o que pensou. Pior, um idiota. Se culpava por ter sido um idiota ingênuo e manipulado. Se ele tivesse desistido naquele dia que Han morreu ele não estaria ali na linha de frente, vendo a morte de perto, dilacerando vidas de gente que nunca fez nada contra ele.
Agradeceu a Deus, ou qualquer ente superior que existisse, por ter encontrado Rainha antes que se desmoronasse, antes que desse um fim em si mesmo. Nas poucas semanas que estiveram juntos, foi seu suporte emocional, ouvidos para desabafar, pois a cachorra ainda carregava algo que ele, ou melhor, todos eles haviam perdido assim que dispararam o primeiro projétil contra uma formação inimiga: humanidade. Justamente por não sofrerem dos vícios e preconceitos humanos, por não conhecerem ódio, por não terem ferramentas assassinas. E mesmo que a cachorra não compreendesse nenhuma das palavras que ele havia lhe dito, era irrelevante. A cachorra sentia a entonação da voz, o afago, o olhar sincero, a intenção ao lhe dar comida, água e um lugar para dormir. Era exatamente isso que seus donos faziam, então ela sabia que poderia confiar em qualquer um que lhe trouxesse as mesmas sensações, ainda que o cheiro, o tom da voz, o contorno do rosto sejam diferentes. Sentindo a temperatura humana, ela lembrava de todas as vezes que pulava na cama de seus donos para dormir nas noites frias sendo aquecida por eles. Ao lhe dar ração, lembrava quando eles enchiam seu pote de comida nos horários corretos três vezes por dia. Ao amarrar a coleira improvisada, lembrava dos passeios diários pelos parques, batizando os postes e árvores com urina.
Aquela noite foi a primeira noite em meses que ambos dormiram com o coração em paz.
Assim dormiriam pelas próximas semanas, mesmo que vagassem por terreno inimigo, evadissem unidades militares, procurassem por água fresca em riachos escondidos, roubando comida e dinheiro das casas abandonadas, e pedissem esmola e comida pelas ruas de vilas e cidades que encontrassem no caminho para lugar nenhum. Estando ao lado de Rainha, o municiador não se sentia triste ou solitário, pelo contrário. Havia uma dívida que ele jamais poderia pagar, nem com petisco nem afagos nem com dinheiro, dívida que Rainha nunca entenderia, mas se pelo uma parte ele pudesse retribuir, ele tentaria. Mesmo que a Chuva caísse, ele a protegeria com o próprio corpo.
Em uma cidade que encontrou em seu caminho, o municiador retornou do pet shop com um monte de petiscos de carne defumada, comprados com todo o dinheiro da esmola mais o que roubou das casas abandonadas. Foi em direção a um pequena praça pública próxima, tirou de sua mochila um pote, abriu o sachê e despejou o conteúdo nele, para a alegria de Rainha que grosseiramente mastigava e lambia os petiscos de carne. E repetiu o procedimento até que a cachorra não parecia mais interessada na comida de tão satisfeita que estava, lambendo os beiços. Ele então se agachou perto dela e abraçou ao redor do pescoço, fazendo carinho em suas costas.
— Obrigado por estar comigo aqui. Estarei com você mesmo se a Chuva cair.
Ela lambeu seu rosto. Ele sabia que a hora ia chegar. Já era esperado. Os boatos faziam sentido.
Horas depois a Chuva obliterava tudo que um dia existiu naquela cidade. No Fim, Rainha sonhou com um imenso campo de incontáveis pequenos roedores…