Eu tinha dormido mal. Mais pelo que aconteceu naquela madrugada do que pela conversa com meu avô.

Já deitada na cama, antes de dormir, estava brincando com meu Tamagotchi. Kelvin tinha acabado de ser alimentado. Seu desenvolvimento ia muito bem, ainda estava na fase de bebê mas evoluía rápido. O único ponto de preocupação era da bateria estar acabando, depois de tanto tempo usando. Aliás, eu tinha comprado o brinquedo em uma visita a Lucena com Mariana, no início do ano, durante as férias. Nós duas combinamos em passar o dia juntas, visitando lojas onde mais olhávamos do que comprávamos e gastando dinheiro com bobeiras. No centro da cidade, passamos por uma vitrine de loja de brinquedos. Éramos crescidas demais para aqueles brinquedo coloridos e chamativos. Só quando já estávamos nos afastando, percebi um mostruário logo do lado do caixa. Um cartaz em cima anunciava nas duas línguas de forma bem ostensiva “Tamagotchi em promoção”. Mari torceu a cara quando sugeri comprarmos, ela achou que seria um desperdício de dinheiro. Eu tinha visto um anúncio de Tamagotchi em uma das minhas revistas, mas até então não tinha dado muita bola. Por algum motivo, minha curiosidade despertou durante o passeio, talvez por ter a palavra “promoção” junto. Insisti e acabei convencendo Mariana que seria divertido se nós duas tivéssemos o brinquedo. No fim, ela aceitou comprar um para ela só para me agradar. Porém, já dentro do ônibus de volta para o vilarejo, ela já estava grudada no pequeno brinquedo de plástico e tela LCD monocromática. O dela era um rosa, do jeito que ela curtia. Acabei pegando um amarelo. Mari decidiu nomeia-lo Marco, baseado na marca do fabricante do ônibus impresso no painel. No meu, dei o nome de Catraca.

Satisfeita após assegurar a integridade física do meu bichinho, apaguei a luz e me enfiei debaixo da coberta. A única luz do quarto era a vinda dos traços vermelhos do rádio-relógio em cima de um criado-mudo logo ao lado da cama. Ainda assim, até os olhos se acostumarem, não conseguia enxergar um palmo na minha frente. A janela do meu quarto era virada para o terreno, e se fosse noite de lua nova o breu era total, nada passava pelas frestas. Aliás, a única coisa que irrompia da escuridão no lado de fora era o brilho das estrelas, fazendo um show à parte como minúsculos pedaços de diamantes brilhantes. Quando a Via Láctea tomava o palco principal, fazia meu coração acelerar. Se tinha uma coisa que certamente sentiria saudade quando me mudasse para a cidade era a beleza do céu noturno.

“Não cometa o mesmo erro que eu cometi.”

As palavras do meu avô ecoavam na minha cabeça quando eu tentava pegar no sono. Um aviso misterioso, sem muita explicação, não era o jeito de falar do vô Joaquim. Na hora do jantar nenhum de nós tocou no assunto novamente, seria um vespeiro melhor não remexer. De todo modo, sabia que dentro dele existia uma saudade imensa tanto da sua mulher quanto sua filha. O festival talvez invocasse algum tipo de sentimento dolorido. E também, ele já estava com setenta anos. Para algumas coisas, talvez fosse melhor não abrir uma caixa de Pandora. Não queria que ele tivesse um piripaque novamente.

Contei carneirinhos, inventei histórias, até tentei meditar, não que eu soubesse. Não conseguia adormecer, revirando de um lado para outro. Comecei a sentir frio, então puxei outra coberta. Depois, senti calor, e removi a coberta que tinha puxado. Senti frio de novo… a tortura noturna não parecia acabar. Imaginei ser consequência de tomar muito café e fiz uma nota mental para evitar a droga quando fosse muito tarde.

Abri os olhos de súbito.

O relógio marcava zero hora e zero três.

Ouvi passos ecoaram no corredor, como se aproximassem do quarto. Inicialmente, pensei ser meu avô indo ao banheiro, porque o cômodo ficava entre o meu quarto e o dele, então não dei muita bola. Rolei na cama para o outro lado, procurando uma posição mais confortável.

Os passos continuaram.

Os passos continuaram como se o corredor fosse bem longo, sendo que não teria mais do que quatro metros. A porta, branca, refletia de forma quase invisível a luz vermelha do rádio-relógio. O barulho parou atrás da porta.

Eu foquei no leve brilho refletido na maçaneta, antecipando que o mecanismo começasse a girar.

Respirei fundo.

Os segundos não passavam.

Esperei e esperei. Mas a maçaneta não girou. Meu vô teria entrado no banheiro. Fechei os olhos e tentei esquecer, me encolhendo debaixo da coberta.

Lógico que não conseguiria dormir. Estava ansiosa, precisava de uma conclusão para aquele ato. Seria meu vô vindo me avisar que estava passando mal e deu um piripaque bem na frente do meu quarto? Tremi com um calafrio. Estava incomodada, o silêncio estava sendo infernal. Rolei para o lado oposto e vi o relógio, marcando zero hora e zero três, e encarei a maçaneta novamente. Preguiçosa, temerosa, joguei a coberta do lado e me levantei em direção à porta. Minha audição estava tão aguçada a ponto de ouvir um besouro batendo as asas no centro do vilarejo. Quando pus a mão na maçaneta senti outro calafrio e abri a porta.

Nada. Não havia nada nem ninguém do outro lado. Espremi os olhos tentando focar no corredor escuro que levava até a sala. Liguei a luz do corredor e virei para o banheiro, vazio. Avancei para o quarto do meu avô, cuja porta ele tinha estranhamente deixado entreaberta. Normalmente ele fechava. Empurrei-a e pela fresta de luz vi meu avô roncando, dormindo confortavelmente. Fechei a porta suavemente e voltei para meu quarto, desligando a luz do corredor no caminho.

Deitei na cama, pensativa no que tinha acontecido. Não tinha certeza se os sons eram reais ou apenas meu cérebro pregando peças na transição entre acordado e dormindo. Porém, lembrei da cena na trilha. Diferente de Mari, nunca fui de acreditar ou ter medo em assombrações ou espíritos ou coisa assim. Isoladamente, o evento de manhã e o de noite eram coisas que eu pensaria um pouco sobre mas logo esqueceria. Afinal, explicações lógicas sempre faziam mais sentido. Mas confesso que os fenômenos estranhos acontecendo no mesmo dia me deixou com um pulga atrás da orelha.

Me enrolei que nem um tatu debaixo das cobertas e tentei meu melhor para pegar no sono.

***

Minha sequência de experiências sem explicação não tinha acabado. Estava voltando da escola, junto de Mariana, e tínhamos acabado de passar a Trilha dos Desenganados. A estrada de terra fazia uma curva mais fechada à direita, com mato cobrindo as laterais da pista. Típico de regiões rurais, não havia calçada, apenas o chão de terra. Os moradores da região já conheciam as curvas da estrada e estavam acostumados a encontrarem pedestres e pessoas a cavalo passando pela via, portanto, dirigiam com mais cuidado. O problema era que, uma vez ou outra, aparecia uns mais abusados de pé pesado ignorando que a via era compartilhada e as curvas nem sempre tinha visão. Algum tempo atrás, um morador foi atropelado nesta curva, e embora não tivesse morrido quebrou a bacia, fazendo-o ficar de cadeira de rodas por um bom tempo. O motorista era um turista que tentava cortar caminho após um engarrafamento na estrada devido a um acidente. A gente do vilarejo estava mais acostumado e ficava atento ao som dos motores e tentava contornar as curvas pelo lado mais aberto, para ter melhor visibilidade.

Mesmo assim, Mari e eu fomos surpreendidas por um carro branco a toda velocidade que apareceu na subida. O carro passou a um palmo do meu lado, buzinando que nem um louco, tão perto a ponto de ver o filme da minha vida. No instinto, saltei para o lado e acabei empurrando Mari para dentro da mata. O carro então parou com tudo a alguns metros de nós. A buzina cessou e de dentro uma voz grossa fez um escândalo que nem um idiota.

— Sai do meio da estrada!

Pude ver sua face barbuda no retrovisor, a mão gesticulando de forma obscena. Eu fiquei sem reação, ainda me recuperando do susto de ter quase sido atropelada. Ele ainda continuou:

— Não aparece no meio da estrada assim, assim você me fode!

Então, ele acelerou com tudo, liberando uma cortina de poeira e desapareceu atrás dela.

— Que morra seu idiota! — gritei, meio sem ar. Se ele ouviu ou não, não era problema meu.

Ainda tensa, puxei Mari do mato, que saiu mostrando o dedo para o carro, mas ele já estava longe. Uma raiva subiu queimando do meu estômago e imaginei com uma enxada arrancar suas tripas.

— Não se preocupe comigo, aquele babaca quase te atropelou. Pegou a placa? — Mari perguntou, limpando a roupa.

— Nem consegui pensar. Só sei que era um carro branco meu quadrado, Volkswagen?

— Acho que é.

— Vou perguntar pro meu vô se ele sabe quem pode ser. Mas não deve ser daqui.

Mari então veio para cima de mim e me abraçou.

— Que foi? — perguntei, desconfiada.

— Tá tudo bem, amiga?

Retribuí o abraço e respondi que sim. Obviamente, ainda sentia o coração pulsar na garganta mas o perigo já tinha passado. Aos poucos me acalmaria.

Se contasse com o aviso do meu avô, era o quarto “incidente” em dois dias. A sequência de coisas estranhas não pareciam terminar. Não queria admitir, mas estava com medo de coisas piores estarem por vir. Fiquei pensando se deveria abrir o jogo para Mari ou se deveria guardar para mim. Me passaria por idiota se dissesse a ela que passou por minha cabeça a possibilidade dos eventos estarem interligados. Nem eu realmente acreditava nisso. Ou acreditava? Estava apenas tendo dias ruins, como muitas pessoas têm eventualmente. Porém, Mariana era supersticiosa e certamente seria o tipo de história de fazer ela ficar amedrontada. Prolonguei o abraço enquanto calculava se valeria a pena abrir a boca e deixar ela preocupada ou se era melhor aguentar o tranco e guardar para mim.

Quando cheguei a uma conclusão, afastei ela.

— Mari, tenho algo a dizer — falei com a voz miúda.

— Uma declaração pra mim?

Bufei, irritada. Claro, não tinha como Mari saber do meu assunto de antemão, mas tinha horas que ela parecia uma criança tentando ser engraçada.

— Vai, me escuta, por favor, sem gracinhas.

Seu rosto se fechou quando percebeu minha expressão séria e um tanto aflita. Para não ficarmos paradas ali na curva perigosa, comecei a andar e ela me seguiu. Mari se colocou do meu lado direito, me protegendo da pista como uma segurança.

Conforme descíamos o morro, contei para ela os acontecimentos ontem em casa, tanto sobre o que meu avô tinha falado para mim quanto dos sons estranhos ocorridos de noite. Eu sabia sobre o medo de Mari em relação a esses tipos de histórias então tentava falar de modo a não transparecer muita preocupação. Mas, ela era esperta o suficiente para entender que se eu não tivesse um pouco aflita não estaria falando disso em primeiro lugar. Para o bem ou para o mal, seu instinto em me ajudar era maior do que sair correndo.

Enquanto contava tudo, percebi ela olhando mais ao redor, principalmente para trás. Sem querer, tinha injetado nela um sentimento de paranoia, me fazendo sentir mal. Só queria alguém me escutando sem ser julgada ou tratada como louca. Não que teria outra opção.

— Tá, e o que você acha de tudo isso? — Mari perguntou, os olhos mais arregalados do que o normal.

— Não acho nada. Quero dizer, pode ser apenas coisa da minha cabeça. Apenas que aconteceu, veja, essa essas coisas todas. Geralmente é apenas azar — acariciei minha nuca, não conseguindo confiar totalmente nas minhas próprias palavras.

— Geralmente? Tudo começou ontem, na trilha, não foi? Aquela, onde você ficou com medo. Pode ser um espírito te assombrando. Ai, credo! — Mari estremeceu com um calafrio.

— Sabe que não acredito nisso.

— E daí? Como se diz, não acredito em bruxas, mas elas existem. Tem outra explicação?

— Coincidência é uma explicação. Tem tanta gente no mundo, algum dia alguém em algum lugar vai ter um dia de azar.

— Dois dias de azar.

Ela continuava a olhar ao redor, temendo estar sendo seguida ou observada. Estava começando a me arrepender de abrir o bico. Não estava nos meus planos desestabilizar psicologicamente minha melhor amiga.

— Mariana, você é que tá me assustando olhando assim. Pode parar, favor? Além disso, sobre ontem, você mesma disse que era o Pedro, por que tá mudando de ideia?

Ela se virou para mim, os olhos cor de mel me encarando.

— Você contando isso, lembrei. Hoje, na aula, o Pedro tava… normal.

— Normal? Ah, isso é realmente fora do padrão.

Na maior parte das vezes nós sabíamos quando era Pedro quem tinha aprontado uma com nós porque ele gostava de se vangloriar dos seus feitos. Teve a vez quando ele escondeu o carrinho de recolher as bolas de vôlei e futebol durante a minha vez de limpar o ginásio — em troca de evitar atividades físicas mais demandantes, eu frequentemente me oferecia para limpar e organizar o ginásio ao final das aulas, o que o professor Peixoto geralmente aceitava —, e depois de eu gastar quase meia hora procurando ele surgiu com um sorriso de canto do rosto na entrada do ginásio com o carrinho vazio, como se ele tivesse adorando me ver que nem barata tonta de um lado para o outro. Mariana descontou nele depois quando arremessou uma bola de vôlei na sua cara. Da outra vez, Pedro deixou desenhado na lousa de um dia para o outro uma caricatura bem deformada minha, provocando risada em todos, menos em mim, óbvio. Mesmo todo mundo sabendo a autoria, afinal, ele era o único a fazer este tipo de desenhos, ainda assim assinou a obra de arte. E ainda teve quando ele trocou o Tamagotchi de Mariana que ficava pendurado na mochila por uma unidade sem bateria. Ela ficou atordoada por pensar ter perdido o bichinho já adulto, até ele aparecer perto de nós fingindo falar sobre qualquer coisa enquanto ostentava um Tamagotchi pendurado na mochila dele. O de Mari, claro. Pedro só não deve ter feito isso comigo porque ele não tinha uma unidade amarela.

— Não sei direito porquê, mas acho que dessa vez não foi mesmo ele — Mari disse, enquanto atravessávamos o centro do vilarejo. — Ele é um babaca, mas não consigo nem imaginar ele acessando a trilha por uma piada. Não só isso, fazer você chorar não é o estilo dele.

— Eu não chorei ontem — corrigi, esterna.

— Não, mas ficou bem assustada né, se chorasse eu não ficaria surpresa — lancei para ela um olhar de desaprovação, mas ela me ignorou e continuou falando. — Quando Pedro nos prega peças, apesar de tudo, apesar de tudo, é na zoeira. Eu não acho que ele realmente odeia a gente.

— Hmm — pensei. — Ele parece querer é atenção. Diferente das bitches.

— Né?

— Né.

Alguns senhores sentados nos bancos da praça cumprimentaram a gente, e devolvemos o gesto. Depois, eles voltaram a conversar entre si, dando risadas e gesticulando vigorosamente.

— Para aliviar um pouco o clima pesado, que tal um sorvete? — Mari ofereceu enquanto passávamos em frente a um minimercado.

— Boa ideia.

Giramos na direção do minimercado, e ao dobrarmos a parede para entrar, uma pessoa apressada saiu de dentro quase nos atropelando. Freamos de repente, e o cara se virou para trás rapidamente pedindo desculpas e seguiu seu caminho com pressa.

— Esse povo de fora não tem jeito, tão sempre correndo — uma senhora atrás do balcão comentou ao ver a gente entrando. Cumprimentamos e fomos direito ao freezer.

— Para ajudar minha amiga em tempos difíceis, hoje é por minha conta.

Eu abri um sorriso largo. Era bom quando não tinha que gastar a mesada dada por vô Joaquim. Escolhi um sorvete de flocos enquanto Mari pegou um de frutos vermelhos. Ela deixou alguns moedinhas com a mulher do caixa e continuamos nosso caminho.

Na entrada da Ponte dos Arcos, o meu caminho e o de Mariana se divergiam. Ela morava seguindo o Rio das Pedras para o norte enquanto eu precisava atravessar o rio e virar ao sul. Os sorvetes já estavam pela metade e o açúcar deixava os dedos grudentos. Estar parado ao lado do rio escutando ao som da corrente era reconfortante. Parecia amenizar um pouco o estresse que estava passando nesses dois dias fora do comum.

— Eu que deveria ter pago seu sorvete, por escutar minhas histórias de terror — disse, em tom de mea-culpa.

— Olha… — Ela olhou para cima, pensativa. — Concordo, da próxima você paga então. Preciso de algo para compensar minha noite em claro.

— Desculpa.

— Preciso ir, Manu, meus pais pediram para não enrolar hoje. — Ela se despediu com um beijo em cada lado do rosto. — Nos vemos amanhã.

Disse tchau e cruzei a ponte.

***

Tinha só o palito melado em minha mão quando cheguei em casa. Ao subir para a varanda senti um odor diferente. Um aroma doce, como se fosse de mel mas não exatamente, misturado com algum tipo de produto químico de incomodar a garganta. Olhei para minhas mãos sujas e cheirei elas, mas só percebi o aroma artificial de baunilha. Além disso, se o sorvete estivesse contaminado de alguma forma, eu teria sentido antes. Sem uma fonte óbvia para o odor, quando estava a ponto de abrir a porta percebi algo de canto de olho. Do lado do carpete da entrada. Me abaixei e coloquei o objeto nas pontas dos dedos. Era macio, a textura era agradável, o formato levemente arredondado com alguns recortes. Parecia ter sido amassado com um pisão.

Ah.

Não esperava que o vento pudesse trazer uma coisa dessas até aqui.

Era uma pétala cor de rosa.

Uma pétala de cerejeira.

“Jamais se aproxime da Cerejeira.”

Ao lembrar desse ensinamento, joguei o objeto no ar. Uma reação instintiva. Por toda minha vida ouvia do meu avô e dos habitantes do vilarejo que nunca deveria me aproximar da Cerejeira. Mesmo sem saber o motivo, tomei repulsa por aquela pétala enquanto via ela cair suavemente sobre as ripas de madeira logo ao lado. Teria a Cerejeira algum tipo de veneno? Como uma coisa tão bonita, tão atraente, pudesse ser tóxica? O odor esquisito vinha dessa minúscula pétala? Limpei meus dedos na saia e abri a porta de uma só vez. Queria lavar logo as mãos.

Meu avô me encarou, surpreso. Ele estava encostado na pia da cozinha com os braços cruzados, como se esperasse cumprimentá-lo. Dei um breve “olá, vô” e estava indo em direção ao banheiro quando percebi algo diferente.

Ele não estava sozinho. Um rapaz, jovem, cabelos claros, sentado à mesa, me observava com curiosidade. Abriu um sorriso, como se tivesse feliz em me ver. Não, como se tivesse ansioso em me conhecer. Quanto mais olhava para ele, mais um redemoinho de sensações estranhas girava dentro de mim, uma briga de forças tentando compreender a sua expressão. Eu não conhecia aquela cara, nunca o tinha visto. O jeito que ele mostrava os dentes era ao mesmo tempo convidativo e desconfortável. Congelei na sua frente.

— Não fique aí de boca fechada, cumprimente nossa visita — meu vô ordenou.

O rapaz balançou a mão no ar, mantendo o sorriso e levantando as sobrancelhas. Havia um toque de suavidade no seu movimento.

— Olá Manuela. Eu me chamo Ezequiel e a partir de amanhã começarei a trabalhar com o senhor Joaquim.

Meu foco era limpar a mão. Uma, suja de sorvete, a outra, contaminada por algum tóxico.

— Oi — disse rapidamente.

Estava um pouco envergonhada por ter entrado apressada em casa. A visita poderia achar que eu estava com alguma dor de barriga. Corei e desviei a cara para o corredor.

— Aonde vai, menina? — meu avô reclamou, mas eu ignorei.

Joguei minhas coisas no chão do quarto de qualquer jeito, fui para o banheiro e enchi minha mão com sabonete. Fiz uma limpeza bem cuidadosa, esfregando as mãos e os dedos várias vezes, querendo eliminar qualquer componente tóxico, se existisse. Subiu um cheiro no ar de baunilha misturado com o de sabão. Quando terminei, sequei minhas mãos e me olhei no espelho com atenção.

Por que estava tão desesperada para lavar as mãos? Ninguém nunca tinha me dito que as flores da Cerejeira eram venenosas, apenas para não me aproximar da árvore. Algumas plantas, sim, poderiam causar problemas, mas flores? E da mesma forma que não acreditava em assombrações e almas penadas, por qual motivo eu deveria acreditar nas histórias sobre a Cerejeira, se era simplesmente uma lenda da vila? Me perguntava enquanto reparava na minha face cansada, com as olheiras proeminentes. O cabelo estava mal cuidado e até mesmo o leve delineador parecia ter dissolvido. Talvez fosse o susto de ter sido atropelada, talvez fosse porque não tinha dormindo direito, ou ainda, o calor que, embora não sendo infernal, deixava a gente cansado. Certa era a aura de estresse na garota me observando do outro lado da parede. Penteei o cabelo, ajeitei a roupa e bati uma poeira, voltando para a cozinha.

Quando surgi, os dois fincaram os olhos em mim.

— Não faz desfeita com a visita — vô Joaquim me alertou.

Ezequiel me observou firmemente até eu me aproximar da mesa. Eu não tinha nada a dizer para ele além do oi, então fiquei esperando para ele abrir a boca primeiro.

— Peço desculpas por tê-la surpreendido, certamente a senhorita não esperava uma visita desavisada.

— Senhorita? — Franzi a testa e chequei rapidamente no calendário da parede se não estávamos no anos sessenta. Só tinha escutado esta forma de tratamento naqueles livros chatos das aulas de literatura. Achei que era gozação dele. — Quero saber quem é você?

— Ah, olá de novo — ele se levantou e estendeu a mão até mim, respeitosamente, formalmente. Quase robótico. Ignorei. — Sou Ezequiel Alamberto. É um prazer te conhecer.

Ele continuou sorrindo, mesmo após ter ignorado seu braço estendido, me irritando um pouco com sua compostura. Inabalado, ele recolheu o braço e voltou ao seu lugar.

— Neta, pode ser mais educada? Não foi assim que te criei.

A repreensão de meu vô nem chegou a me afetar. Eu estava tão fixada naquele rapaz, sem nem mesmo entender direito porque estava agindo tão combativa. Não era meu estilo criar confusões, nem com motivo nem sem motivo. Parecia instintivo, minhas defesas de forma automática tomando as rédeas. Tinha algo nele me incomodando. A atmosfera era de estranheza. O linguajar era ao mesmo tempo correto demais e antigo, seus movimentos pareciam calculados. Não teria mais do que vinte anos de idade, a pele era lisa e bem hidratada, como daqueles garotos de boyband das capas das revistas que eu lia. A camisa cinza de gola estava ajeitada e bem abotoada. Tinha um cabelo curto e liso, castanho claro, com uma franja quase reta. Além disso, sua silhueta era um tanto franzina para quem queria trabalhar na roça. Não sabia de onde ele tiraria músculos para levantar uma enxada. Talvez ele não tivesse compreendido direito o tipo de trabalho, talvez tivesse ali de zoeira, entediado, para ficar alguns dias, ganhar uns trocados e depois dar no pé. Não duraria muito. Sem perceber, já estava fitando ele por tempo demais. Minhas bochechas ruborizarem de vergonha e desviei o rosto.

— Me desculpa, vô — disse da boca para fora.

— Não pra mim, Manuela, você tem que pedir desculpas pra ele.

— Tá bom. — Me virei para Ezequiel, constrangida. — Desculpa, Ezequiel — falei olhando para o tampo da mesa.

— Aceito suas desculpas.

Quando caiu a ficha, percebi o meu avô sem jeito com meu comportamento. Ele realmente não tinha me criado para eu ser mal-educada e minhas ações refletia de forma muito ruim nele. Era hora de eu me controlar um pouco e escutar o que o rapaz tinha a dizer.

— Certamente — o garoto continuou —, cada pessoa tem um jeito de interagir. Acredito que não demoraremos muito para entrarmos em sintonia. Por que a senhorita não se senta para um café? Com toda a sinceridade do mundo, o café do senhor Joaquim faz é inigualável. E isso usando a mesma marca que uso normalmente. Algum dia pedirei para ele apresentar a sua técnica.

Por mais que eu gostasse do meu avô, eu era quem fazia o melhor café, então esse cara só podia estar falando bobagem. Fora isso, Ezequiel continuava me chamando de senhorita e toda vez que ele fazia isso eu dava um sorriso amarelo.

— Por que não se senta? — O garoto me convidou, apontando para uma cadeira vazia.

Meu vou assentiu e acabei sentando. Nossa mesa da cozinha não era muito grande, era quadrada, para quatro lugares. O garoto pegou uma xícara limpa e começou a virar a garrafa de café, quando eu o interrompi.

— Pode deixar que eu mesmo coloco.

Eu era quem servia o café naquela casa e não poderia deixar um forasteiro tomar o meu lugar nisso! Enchi meia xícara.

Com ele na minha frente, vasculhei as minhas memórias tentando lembrar se já não o tinha conhecido em algum lugar. Como não lembrei de ninguém, ele deve ter vindo de fora, afinal, o vilarejo não era tão grande assim. Até seu sotaque era um tanto diferente do nosso, talvez ele viesse lá do norte do país. Se fosse verdade, por qual motivo ele veio parar no meio da nada ainda era um mistério.

— Aceita um sorvete, Manuela? — Ezequiel perguntou.

— Ele até trouxe sorvete pra nós, minha neta. Era de… do que mesmo?

— Flocos e frutos vermelhos.

Torci o rosto de incredulidade. Não era possível, mais uma coincidência… Foi quando me veio a mente o cara apressado saindo da loja. Não que tivesse reparado nele, mas poderia muito bem ser Ezequiel. Ele por acaso ficou nos espiando para ver quais sabores nós compramos? Dei uma risadinha discreta, rindo do absurdo.

— Foi apenas um pequeno gesto de agradecimento. Além disso, está fazendo calor ultimamente — Ezequiel comentou, como se fosse um pequeno detalhe.

Para mim, era algum tipo de suborno. Para meu avô gostar dele de primeira, afinal, Joaquim adorava sorvetes. Como Ezequiel sabia disso me deixava intrigada.

— Quero não, obrigada — recusei, tentando não transparecer ironia. — Me diz sobre você. Nunca te vi por aqui. Mora onde?

— Não poderia ter me visto. Mudei para a Vila dos Açoitados recentemente, vindo da capital.

O city boy tinha realmente trocado a vida que eu sonhava por esse fim do mundo. Ou era corajoso ou estúpido.

— E o que te trouxe pra esse vilarejo a definhar?

— Que isso, Manuela… — Meu vô pareceu ofendido.

— Não é verdade, vô? Cada ano que passa, fica mais vazio aqui.

Joaquim fez uma cara feia, discordando. Ezequiel continuou:

— Não nego que seja uma região remota. O principal motivo de ter me mudado é apenas estar acompanhando meus pais. Eles são pesquisadores e estão fazendo um trabalho de campo nas florestas da região.

— Que tipo de trabalho?

— São biólogos. Fazem pesquisa de bioma, com espécies endêmicas. Estão escrevendo um artigo científico.

Era um motivo que não esperava. Não imaginava a vila tendo alguma importância científica, a não ser em algum estudo de como os vilarejos morrem.

— Quais espécies? — perguntei, incisiva.

— A senhorita me encurralou… Não sei os detalhes a fundo, mas eles estudam plantas com algum tipo de utilidade farmacológica. Acreditam que possam encontrar algo valioso por aqui.

— Valioso? Hmm… — Minha voz saiu quase como um sussurro.

Dei um gole no café, já um tanto morno. Ezequiel olhou para sua própria xícara mas não tomou.

— Por que não ficou na capital? — perguntei. — Lá seria muito melhor pra você.

— De certa forma, estou acostumado. Sempre viajei com meus pais conforme eles seguiam com suas pesquisas de campo. Já morei em diversas cidades pelo país, até mesmo no exterior por algum tempo. Cogitei fincar base em algum lugar, para focar nos meus estudos, entretanto não seria capaz de viver por longos períodos distante deles.

Um nômade. Estava começando a entender a razão do seu trajeito, do seu linguajar extremamente correto a ponto de ser brega. Um pobre não teria condições de ficar viajando a rodo, então tudo parecia que ele vinha de uma família intelectual e aparentemente bem de vida. Se ele estava querendo o emprego, parecia ter tempo livre o suficiente. Senti um pouco de inveja.

— Tem quantos anos? — perguntei.

— Tenho dezesseis anos.

— Vai ter que tutorar ele no colégio — meu vô se intrometeu. Entretanto, pelo nível do rapaz era mais provável ele ser meu tutor.

— Sendo sincero, por causa da vida de viagens, eu acabei perdendo alguns anos letivos e estou atrasado. Ano que vem começo o primeiro ano.

Dezesseis anos. Ele tinha o jeito de só precisar ir a escola para cumprir tabela. Não sei como ele convenceu vô Joaquim de que teria forças para bater enxada e carregar sacos de terra, mas o seu jeito calmo e polido de falar tinha ganhado alguns pontos com meu velho. Apesar da formalidade e de sua aparência quase artificial, até diria que ele era mais bonitinho que os garotos do colégio. Naturalmente, quando contasse a Mari sobre ele, ela ficaria de gracinhas comigo e me encheria o saco.

Estava um tanto arrependida de ter sido beligerante. A primeira impressão poderia não ser das melhores, mas se esforçasse um pouco ganharia um colega, talvez um amigo nos poucos meses antes de me mudar para a capital. Estava ainda para descobrir se isso seria bom ou ruim.

— Ano que vem? Então esse ano…

— Este ano não entrarei no colégio.

Pensando bem, fazia sentido. Começar no final do ano seria complicado. Ezequiel continuou:

— Trabalharei com senhor Joaquim, de início, três vezes por semana na parte da tarde, como experiência inicial. Se meu trabalho for satisfatório, é possível que venha para cá com mais frequência.

— Não se ofenda se eu te mandar embora — meu vô disse sorrindo, mas com um leve tom de ameaça.

— É uma relação profissional. O combinado é servir ao senhor o melhor possível.

Meu vô soltou uma leve risada. Ezequiel parecia entusiasmado em ser empregado. Para mim, era completamente estranho um adolescente, ainda mais sendo um garoto mais novo que eu, estar com vontade de trabalho físico e pesado por própria vontade. Menos sentido ainda se ele fosse de família com boas condições financeiras. Tinha algumas teorias, como de que poderia não ser escolha, porque seus pais estavam forçando ele a arrumar algum emprego enquanto não começasse o colégio; mas se fosse assim, não explicaria seu entusiasmo. Ou ele até quisesse trabalhar em algo útil, mas num fim do mundo desses o que sobrou foi ser ajudante na agricultura. Não era o típico menino adolescente que preferiria matar as tardes batendo tazo com os amigos, jogando bola, andando de bicicleta ou jogando um Nintendo.

O lado bom era ver meu avô empolgado, com o espírito elevado. Ficou mais feliz do que eu esperava. Ele deve ter percebido há um bom tempo que um companheiro era necessário, mas certamente seu orgulho o impedia de pedir ajuda. Reconhecer a velhice era um problema para ele, como ele demonstrou ao recusar ser levado para o hospital. Sobre seu trabalho, era na maior parte solitário. Arava, irrigava, semeava e fazia a manutenção dos equipamentos, e exceto em situações específicas quando pagava uns temporários para lhe ajudar, via ele sempre sozinho na nossa horta.

Por outro lado… conhecendo seu Joaquim, havia uma expectativa implícita ao ver eu e um garoto adolescente conversando na mesa da cozinha. Não queria pensar muito nisso, mas poderia ser que ele estava empolgado com Ezequiel por outros motivos também.

Limpei a garganta.

— Ezequiel — vô Joaquim lhe chamou a atenção —, posso então contar com você amanhâ?

— Claro, senhor.

— Então venha comigo pois já quero te mostrar uma coisa pra você pensar.

Ezequiel se levantou da cadeira e seguiu meu avô até a porta da cozinha, saindo para a varanda que circundava a frente e lateral da casa. Quando estava debaixo do batente, Ezequiel parou e se virou para mim. O sorriso estranho, que tinha provocado o redemoinho antes, retornou. Seus olhos escuros me puxavam para um vazio desconfortável. Senti meu estômago queimar.

— Até mais, senhorita Manuela.

E desapareceu.

Tentei me destrair, recolhendo as xícaras de café sobre a mesa. A xícara dele, que supus estar vazia, espirrou o líquido negro para fora, manchando a toalha de mesa.

Ele não parecia ter tomado uma gota do café.

Olhei para fora, pela janela logo acima da pia, vendo os dois de costas, conversando, indo em direção às hortaliças.

Foi apenas nesse momento quando entendi o motivo de estar tão incomodada com seu sorriso. Não era apenas a falta de naturalidade.

Era malícia.